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Confraria Gastronómica do Cabrito e da Serra do Caramulo

Sabe bem ouvir falar António Dias. O Pastor-Mor da Confraria Gastronómica do Cabrito e da Serra do Caramulo relata com orgulho as particularidades da montanha secreta, mesmo no coração de Portugal: a Serra do Caramulo.


As paisagens, os cumes, a flora, as gentes, os sotaques, as tradições e a gastronomia, rainha num Portugal tão rico. É um desfiar de palavras que se soltam naturalmente de quem vive com emoção nesta região de Portugal e fala com carinho do que a caracteriza.

A Confraria Gastronómica do Cabrito e da Serra do Caramulo empenha-se em divulgar, defender e preservar a herança gastronómica herdada dos seus antepassados. Por isso, é o cabrito assado em barro negro de Molelos que move os confrades. Sabe-se que a pastorícia de gado caprino sempre foi uma actividade muito forte na Serra do Caramulo. Além dos rebanhos de ovelhas, sobressaíam os fatos (nome dado a um conjunto destes animais) de cabras. Mais adaptadas às condições geográficas desta Serra, as cabras conseguiam facilmente pastorear em relevo fortemente inclinado e quase inacessível. O gado caprino facilmente conseguia uma limpeza desses lugares inacessíveis, sendo, simultaneamente, uma fonte de alimento e de rendimento.

Mas é do cabrito que importa falar. Animal pequeno, só era alimento em dias festivos, naquelas datas que mereciam uma refeição especial. Frequenta os declives da serra e alimenta-se dos prados espontâneos de urze, carqueija, giestas e tojos. A geografia e flora local não é alheia às características desta carne tenra e suculenta.

Com os recursos da Serra fez-se uma receita ímpar cujo sabor se distingue dos demais cabritos, em parte graças à utilização do barro negro de Molelos. A arte com que o artesão modela a argila aloja o segredo das assadeiras onde, no calor do forno, o cabrito ganha um sabor singular.

As gentes do Caramulo recebem com grande prazer todos os que se deslocam à iniciativa 'Serra com Sabores', habitualmente realizada no início de Junho. Durante esta semana gastronómica, a Confraria procura congregar esforços para que os visitantes descubram o melhor que a região tem para descobrir. Realizada em simultâneo com a Feira de Artesanato e Produtos Locais, a iniciativa envolve dez restaurantes onde o cabrito pode ser convenientemente saboreado.

Atenta à rica e diversificada paisagem natural e construída da Serra do Caramulo, a Confraria procura divulgar a gastronomia, centrada no cabrito mas enquadrada no restante património. Aliás, António Dias fala-nos da paisagem única que se encontra quando se sobe pelas estradas que serpenteiam a Serra e nos ajudam a descobrir a secreta montanha e as suas árvores, a vegetação rasteira, os cumes com vistas deslumbrantes. O cheiro a lenha proveniente das lareiras mistura-se com o odor que se liberta das árvores.

Já os amantes de arte e cultura podem visitar o Museu do Caramulo, preciosidade do centro da vila. Mais de 500 peças percorrem a história até à contemporaneidade, encontrando-se obras de reconhecidos autores nacionais e internacionais como Grão Vasco, Vieira da Silva, Picasso e Salvador Dalí. Se a presença desta colecção se fica a dever à paixão de Abel Lacerda pela arte, já João de Lacerda, grande apreciador de automóveis, foi o responsável pela maior exposição de automóveis, motociclos e velocípedes do país. Este atractivo tão característico do Caramulo deu o mote para o Caramulo MotorFestival, que decorre nos inícios de Setembro e que inunda as estradas do Caramulo de verdadeiras peças de museu.

Quarenta dias após a Páscoa decorre outra festividade que espelha a riqueza da região. A Festa das Cruzes remonta à lenda de que com a ajuda divina e das terras vizinhas e sobranceiras ao Guardão, este viu os mouros desarmar e abandonar a ideia de conquistar aquele local. Em agradecimento, as localidades de Castelões, Guardão, Campo de Besteiros e Santiago de Besteiros, desde há 300 anos, fazem uma cerimónia que ressalva a máxima de que a 'união faz a força'. Em conjunto, organizam o 'abraço das cruzes', que resulta numa monumental procissão onde também desfila a Padroeira do Guardão. Símbolo do encontro, da entreajuda, da partilha e da festa, esta tradição atrai todos os que querem ver as cruzes enfeitadas pelas mulheres, a que não faltam os cordões de ouro.

A montanha secreta descobre-se pela paisagem, pelas tradições, pelo património cultural e histórico, mas essa descoberta torna-se ainda mais  gratificante quando se saboreia uma gastronomia única na companhia das boas e acolhedoras gentes do Caramulo. Vale a pena a visita.

 

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