Politica

Santana à espera do PSD

Ao adiar uma eventual candidatura a Belém para Outubro, Santana Lopes veio baralhar o xadrez dos possíveis candidatos da direita à sucessão de Cavaco Silva. “Depois de Outubro é impossível haver mais do que um candidato à direita”, defende ao SOL o ex-líder do PSD, colocando aparentemente como condição para avançar um apoio do seu partido. Porque o tempo já será curto para haver vários candidatos no terreno e para o esclarecimento necessário, justifica.

Embora não se exclua da corrida, o provedor da Santa Casa da Misericórdia admite que as probabilidades de vir a anunciar uma candidatura com esse novo calendário em cima da mesa são muito menores – reconhecendo até que, com esta decisão, poderá estar a abrir caminho a Marcelo Rebelo de Sousa ou a Rui Rio, que sempre preferiram esperar pelas legislativas.

Ao que o SOL apurou terão sido duas as razões que mais pesaram nesta inflexão de 180 graus na sua estratégia para a caminhada rumo a Belém. Por um lado, o ex-líder do PSD percebeu que não teria o apoio do partido se avançasse antes das legislativas. Mais: perante as reservas de Marcelo e de Rio e o facto de ambos optarem por esperar por Outubro, “arriscava-se a ficar como o aventureiro ou o desalinhado que não hesita sequer em poder atropelar com o anúncio de uma eventual candidatura presidencial as negociações de uma coligação PSD/CDS”, que não se adivinham fáceis e que deverão arrancar precisamente em Março ou Abril, como justifica ao SOL uma fonte próxima de Santana.

“Não se ganham eleições sem as elites”, reforça outra fonte próxima de Santana Lopes, referindo-se ao facto de após o anúncio da sua disponibilidade o ex-líder do PSD apenas ter reunido o apoio de autarcas do partido.

Passos reprova candidatura sem sair da Misericórdia

Por outro lado, também o cargo de provedor da Santa Casa terá forçado Santana a mudar a sua posição. O ex-primeiro-ministro não quer correr o risco de ser acusado de aproveitamento das suas decisões na instituição como acções de campanha para uma candidatura à Presidência. 

E a verdade é, que caso anunciasse uma candidatura a Belém, seria quase impossível manter-se na Misericórdia. Já que ao que o SOL apurou junto de fonte do PM, “o Governo não poderia nunca ter como provedor um candidato presidencial”.

Passos Coelho e Santana Lopes nunca discutiram o tema das presidenciais, mas nesta segunda-feira estiveram os dois reunidos a pedido do ex-líder do partido, que quis comunicar previamente ao primeiro-ministro que só avançaria com uma eventual candidatura em Outubro. No dia seguinte, no espaço semanal que divide com António Vitorino na SIC Notícias, Santana surpreendeu muitos ao declarar isso mesmo: “Tudo aponta para que esta matéria das presidenciais cada vez mais deslize para depois de Outubro, como muitos queriam […]. Acho que sim [que vou esperar por Outubro]. Tenho defendido sempre e continuo a pensar que em tese deve ser assim, que as presidenciais devem-se misturar o menos possível com as legislativas”. O ex-líder do PSD fez um voto de silêncio sobre a sua eventual candidatura até lá e prometeu nem pensar mais nisso. E, numa alusão aos que torcem por Marcelo ou por Rio, ironizou: “Assim acaba o nervosismo dos que diziam: pode haver quem ganhe vantagem por se lançar em Março ou Abril. Não. Assim ficamos todos iguais”.

Rui Rio, por seu lado, continua a manter a porta entreaberta e esta semana, questionado sobre as presidenciais numa conferência, afirmou: “Se eu sentir que realmente há um desejo muito grande das pessoas de eu poder voltar à vida pública, então provavelmente não irei defraudar as pessoas”. 

À direcção do PSD esta desaceleração de Santana não terá desagradado, já que o partido não quer ficar refém de ninguém e, sobretudo, quer evitar divisões nas hostes sociais-democratas até Setembro. Para a direcção de Passos Coelho, a prioridade são as legislativas e, quanto menos se falar de presidenciais nos próximos tempos, melhor. Até para obrigar o secretário-geral do PS, António Costa, a falar.

sofia.rainho@sol.pt