Opiniao

Os pobres que paguem a poluição

Quando se toma uma decisão que corta com os valores estabelecidos é sabido que vai sofrer contestação. Na maioria dos casos, anos depois percebe-se que essas medidas faziam todo o sentido e acabam por ser tão naturais que ninguém se lembra que, em tempos, foram contestadas. A vida é mesmo assim e basta lembrar o caso da Torre Eiffel, em Paris, ou o do Centro Cultural de Belém, em Lisboa. No primeiro caso, os bem pensantes parisienses queriam que a mesma fosse desmontada depois da Expo dos finais do século XIX, enquanto o 'monumento' português recebeu tantas críticas antes de ser construído que se chegou a pensar que não seria erguido. Felizmente ambas as obras estão de pé e nem a Torre Eiffel tira a vista aos moradores nem o CCB tapa ou 'abafa' o Mosteiro dos Jerónimos. As mudanças criam sempre resistências.
 

Por essa razão, gosto de fazer o raciocínio contrário ao dos contestatários das inovações. Mas o que a Câmara de Lisboa decidiu em relação aos automóveis com data de matrícula anterior a 1996 e a 2000 parece-me uma verdadeira aberração, além de ser profundamente injusto para os mais desfavorecidos. Não entrando na história das excepções, dos carros que apesar de serem anteriores a esse anos podem circular pelas zonas proibidas, constata-se facilmente que muitos dos carros modernos de alta cilindrada poluem muito mais do que os 'carritos' antigos mas de fraca cilindrada. Basta comparar um Fiat Uno anterior a 1996 com um carro actual de grande cilindrada para se perceber quem polui mais.

Numa altura em que tanto se fala em crise, em que há tanta gente com o seu poder de compra 'arrombado', como se pode tomar uma decisão de penalizar ainda mais os pobres? Numa população envelhecida é natural que muitas dessas pessoas não tenham dinheiro para comprar um carro novo e que se desloquem, ou deslocavam, para as consultas, hospitais ou até mesmo para as compras no seu carro 'velhinho'. 

Não me recordo de uma medida tão discriminatória como esta, apesar de acreditar que quem a tomou não o fez deliberadamente para prejudicar os mais desfavorecidos. Apenas não pensou muito bem no alcance de tal medida e, além do mais, está a contribuir para a desertificação do centro da cidade. E nem vale a pena falar na fraca e dispendiosa oferta dos transportes públicos... Uma péssima decisão. 

vitor.rainho@sol.pt