Opiniao

Só passaram 70 anos

A partir do Verão de 1944, o Exército Vermelho ocupou os primeiros campos de concentração construídos na Polónia: Sobibor, Majdanek, Treblinka, Belzec. Alguns estavam abandonados, meio destruídos, mas todos mostravam indícios, provas ou testemunhos das monstruosidades que tinham sido cometidas. Porém, só a 27 de Janeiro de 1945, depois de quase três centenas de combatentes soviéticos mortos pela resistência ali encontrada, os russos conseguiram entrar em Auschwitz. Pouco depois, os americanos e os ingleses encontravam infernos parecidos na Alemanha. Num dos eventos realizados por ocasião do septuagésimo aniversário da libertação de Auschwitz-Birkenau, Ronald Lauder, presidente do Congresso Mundial Judaico, afirmou que a Europa de hoje se parece mais à de 1933. Tenhamos vergonha. Roman Kent, sobrevivente do campo de concentração, disse com voz velha e dorida: “Não queiramos que o nosso passado seja o futuro dos nossos filhos”. Lutemos por isso. 

Bom senso

Vários membros do governo grego têm viagens marcadas - em classe económica, o que é arriscado se quiserem mudar a data de regresso a Atenas - para angariar apoios na sua intenção de renegociar a dívida que dizem ser de 300 mil milhões de euros. É um valor que não sou capaz de compreender mas que à partida me parece impossível de pagar sem a ajuda de um poço de petróleo no quintal. Enquanto os gregos andam a tentar perceber o que fazer à vida, cerca de 60 mil croatas viram as suas dívidas perdoadas, o que lhes permitirá um começo novo de vida. A medida anunciada pelo primeiro-ministro croata Zoran Milanovic abrange pessoas com um rendimento mensal de cerca de 162 euros que tenham dívidas abaixo dos 4.500 euros. No total 27 milhões de euros, uma gota de água na dívida dos privados no país, que seriam incobráveis por motivos óbvios serão assumidos pelos credores. A medida é excepcional em vários sentidos. É sobretudo uma questão de mero bom senso.

Indiscutível

A Argentina está em choque com o caso do procurador Alberto Nisman, encontrado morto no dia anterior à sua apresentação no Congresso Nacional, onde iria revelar o conluio de membros do governo argentino com as autoridades do Irão. Em 1994, uma bomba explodiu na Associação Mutual Israelita Argentina, matando 85 pessoas e ferindo mais de cem. Foi o ataque terrorista mais mortífero na América do Sul. Nisman tinha provas de uma diplomacia paralela em que os governos argentino e iraniano tinham acordado suspender as acusações aos suspeitos iranianos, membros do Hezbollah, a troco de benefícios contratuais. A hipótese de suicídio não é sustentável pela autópsia nem pelo momento profissional que o procurador estava a viver. O escritor Jorge Asís, antigo embaixador da Argentina em Portugal, disse numa entrevista que “Nisman era um homem de grande refinamento estético. Não imagino que alguém como ele se pudesse suicidar na casa de banho de cuecas”.

Morreu Miss Marple

Margaret Rutherford, Angela Lansbury ou Joan Hickson são actrizes que representaram o papel de Jane Marple, personagem arguta criada por Agatha Christie. Numa série recente de episódios produzidos pela ITV em 2004 e actualmente em exibição no Fox Crime, Miss Marple é a frágil Geraldine McEwan, que faleceu na semana passada aos 82 anos. Até este momento, a Miss Marple de que mais gostava era a exuberante Margaret Rutherford, porque dava à personagem uma excentricidade e uma energia física que Agatha Christie não tinha previsto. Sem ter deixado de gostar desta Miss Marple, gosto da mais recente, introspectiva, atenta e cerebral, que pensa enquanto faz malha e resolve casos com a certeza de quem sabe o que é - não é por acaso que Miss Marple não é uma jovem. Geraldine McEwan fez uma carreira no teatro, contracenou com Laurence Olivier e ganhou vários prémios de representação. Foi uma Miss Marple delicada e certeira, uma combinação perfeita.

A gripe que nos separa

Todos os anos o vírus da gripe ataca e assim começa a dança do 'não me dês beijinhos que estou superconstipado'. Acontece por vezes que o cumprimento típico dos países do Sul é substituído por um aperto de mão. Acreditamos estranhamente que estamos livres de contágio se não abraçarmos e beijarmos o engripado. Mas a realidade diz-nos o contrário, razão pela qual existem desinfectantes em gel para usar depois de um contacto mais arriscado. A melhor protecção contra a gripe - que não inclui a ideia mágica de 'ser optimista', como li há dias - é mesmo não termos contacto com o vírus. Henry Alford, no NYT, fala sobre as várias estratégias para a protecção do contágio. Uma das mais mencionadas é dizer que está doente e que por isso nem um aperto de mão é boa ideia. Talvez isso funcione na América, mas aqui duvido. Há-de haver sempre alguém que prefere correr riscos e que não hesita em estender a mão, enquanto diz: 'Eu também estou engripado!'.