Vida

Capazes de tudo

Duas horas da manhã. Urgências do Hospital Santa Maria. Uma mãe aguarda que o seu filho, cheio de febre, seja observado. Vestiu qualquer coisa por cima do pijama e voou para o hospital. Em teoria, não há nada de anormal nesta descrição. Mas esta mãe é Rita Ferro Rodrigues, apresentadora de televisão. E, de repente, tudo muda. “Lido muito bem com a minha imagem. Há dias em que me acho bonita e outros um pequeno camafeu, como todas as mulheres. Sou vaidosa q.b. e o facto de ser figura pública não me pressiona minimamente, mas nesta madrugada ouvi 'ó Ritinha você não pode andar assim na rua' e, de repente, ali estava eu, uma mãe patrocinada pelo Benuron, a ser julgada…”, recorda a apresentadora da SIC e fundadora, juntamente com Iva Domingues, apresentadora da TVI, da Maria Capaz, uma plataforma que visa discutir a condição feminina e a desigualdade de género. 

Apesar deste episódio, Rita sabe que este sentimento de exigência não é exclusivo das mulheres com profissões públicas. “Exigem que sejamos supermulheres - e somos! - mas no 'The End' o homem é que salva a princesa. Mulheres e homens sabem que isso não é verdade. Salvamo-nos mutuamente, mas no dia-a-dia, a mulher é que voa, usa a capa e os superpoderes, muitas vezes de forma invisível. Ainda assim, vivemos obcecadas com a ideia de que falhamos. E não, não falhamos. Fazemos o melhor que conseguimos num trapézio permanente”.

A ideia não é refutada por Vânia Beliz, licenciada em Psicologia Clínica e mestre em Psicologia, autora do livro Ponto Quê? [ed. Objectiva]. Bem pelo contrário. “Espera-se que a mulher faça tudo. Que trabalhe e seja bem-sucedida, que tenha filhos e seja uma mãe presente, que trate da casa, que trate de si e ande arranjada, e, no final do dia, ainda vista o babydoll sexy e queira fazer sexo com o marido. Claro que, quando isto não acontece, surge a culpa”, explica. “Nós, mulheres, somos um pouco como canivetes suíços. Fazemos tudo e estamos habituadas a ter de provar o dobro. Lembro-me que, quando estava grávida da Beatriz, fui para fora fazer a primeira edição do Príncipes do Nada. Mais tarde, já ela tinha nascido, fui fazer outra série. Senti sempre uma culpa imensa. Tive de aprender a desculpabilizar-me”, desabafa Catarina Furtado.

Há 15 anos que a apresentadora e actriz exerce a função de Embaixadora de Boa  Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População e em 2012 fundou a associação Corações com Coroa. As questões de género mereceram sempre a sua atenção. Mas ao mesmo tempo que alerta para a importância de promover a igualdade no trabalho, de promover o acesso ao ensino e à saúde sexual e reprodutiva, e de combater aquilo que apelida de “mulheres sem opção nem decisão sobre o seu destino”, Catarina Furtado sublinha que é preciso ter cuidado em “não levantar questões que são, elas próprias, um contributo para os preconceitos já existentes”.

Em cerca de um mês, o balanço da Maria Capaz é já “avassalador”: o site soma 500 mil visitas e um milhão de visualizações, integrando já a tabela dos 50 mais vistos do ranking Netscope. “O que mais nos surpreendeu foi a adesão sedenta das mulheres a este espaço de debate e partilha. Não existia nada igual em Portugal”. Em apenas um mês, o retrato das mulheres portuguesas já começa a ganhar forma: os temas que mais preocupam são as desigualdades entre géneros no mercado laboral e a violência doméstica - neste campo com relatos “agonizantes” enviados por leitoras anónimas que desejam partilhar a sua história num momento em que os números da violência doméstica são cada vez mais preocupantes.

A violência, de resto, pode assumir as mais variadas formas. Em Outubro de 2014, Jessica Athayde, uma das mulheres que já foi entrevistada para a Maria Capaz, viu o seu corpo correr blogues, redes sociais e revistas. Convidada para desfilar para a marca Cia. Marítima, no âmbito da ModaLisboa, a actriz estava longe de imaginar o que se seguiria, quando foi atacada pelo seu corpo. Respondeu através de um texto emocionado no seu blogue, onde disse querer defender, não a si, mas outras mulheres que são atacadas e não têm voz para se defenderem daquilo que apelidou de uma “ditadura de imagem imposta”. Seis meses depois recorda o episódio: “Desfilei com o corpo que tenho, com o qual me sinto bem. É lamentável que mulheres cedam à tentação de atacar outra daquela forma. Ao fazê-lo, estão a cultivar a escravidão da imagem e as inseguranças… Naquele momento reduziram-me a um corpo, em nenhum outro momento da vida me senti assim”.

De resto, para Jessica, cuidar do corpo não é algo que resulte de imposições externas: “Não vivo obcecada pela perfeição. Gosto de me sentir bem com a minha imagem, por isso tenho alguns cuidados, mas faço-o principalmente por questões de saúde. Não estou preocupada com a forma do meu corpo, até porque à partida, tudo estará bem quando comemos bem. É preciso é sentirmo-nos bem na nossa pele”.

Para a psicóloga Vânia Beliz, esta é, na verdade, a questão mais importante. “80% das mulheres que me procuram com falta de desejo sexual têm é problemas de auto-estima. Não têm vontade de se despir porque não se sentem desejáveis. Estamos rodeados de preconceitos em relação às mulheres: um homem pode ter barriguinha, a mulher não; vamos às lojas e os tamanhos são cada vez mais pequenos. As mulheres têm uma grande dificuldade em lidar com as mudanças do seu corpo e, além disto, a menopausa muitas vezes traz processos depressivos, o que ainda torna o envelhecimento mais difícil”.

A ex-miss e actualmente empresária Yolanda Lobo sabe bem do que fala Vânia Beliz. “Quando atingi os 50 não foi muito simpático porque entrar na menopausa e perceber que um ciclo da minha vida se fechava porque a natureza assim o mandava, abanou-me. Senti que tinha chegado a uma idade em que já não tinha escolhas e isso revoltou-me. Tem de haver uma interiorização que a vida mudou, mas não tem de ser negativo. Eu levei tempo, mas consegui. Estou de bem comigo”, recorda. E a verdade é que, à beira dos 60 anos, Yolanda Lobo continua a integrar sucessivamente as listas das mulheres mais bonitas de Portugal. Atribui o segredo à disciplina que sempre pautou a sua vida. E ao facto de sempre ter “rido muito”.

A ditadura da imagem

Durante 365 dias, Karl Stefanovic apresentou o noticiário do Channel Nine australiano vestindo o mesmo fato. Fê-lo depois de a sua colega, Lisa Wilkinson, ter recebido uma carta acerca da forma como se vestia para apresentar o programa, e fê-lo para provar o que já toda a gente sabia: homens e mulheres não são julgados da mesma forma. “Eu sou julgado pelas minhas entrevistas ou pelo meu sentido de humor - pela forma como desempenho o meu trabalho. Já as mulheres são frequentemente julgadas pelo que estão a vestir ou pelo penteado que têm”.

Quem recorda o episódio é Catarina Furtado. “Não há volta a dar: os homens são julgados pelo trabalho. As mulheres, antes de se analisar o trabalho, analisa-se a imagem. Mas não é por causa desse holofote que não podemos vacilar. Não devemos vacilar porque não queremos que seja isso aquilo que tem relevância”, diz.

Apesar destas questões relacionadas com a imagem parecerem incontornáveis, são também algo abstractas, até porque vêm de braço dado com cânones de beleza que são como organismos vivos. Ao longo da História transformaram-se, adaptaram-se, recriaram-se. “Para os gregos, beleza era algo ideal e idealizado, portanto era algo inexistente no mundo real”, exemplifica Dalila Rodrigues, historiadora, na 1.ª Conferência Nacional sobre Beleza, organizada pela Vichy e pela Máxima.

Na Antiguidade Clássica a beleza assentava em medidas matemáticas; na Idade Média era mais associada à espiritualidade; no Renascimento a mulher bela era a mulher voluptuosa e sedutora, mas também inocente. Nos anos 20 a mulher emancipa-se, fuma, bebe, dança, vota. E Coco Chanel vem dizer que beleza e elegância têm sempre de andar de mão dada. Hoje em dia não é possível falar de um padrão de beleza. Mas antes padrões. 

Entalada entre a filosofia, a vaidade e a saúde, a questão da imagem e o crescente culto do corpo - onde dietas e cirurgias plásticas passaram a fazer parte do léxico comum - coincide com a massificação dos media, sobretudo a partir dos anos 80. As revistas de moda tornaram-se uma espécie de oráculo da imagem que as mulheres devem ter. E justamente por isso, ora são adoradas ora são diabolizadas.

Sofia Lucas, directora da revista Máxima, não nega este duplo estatuto, apesar de garantir que os anos têm vindo a alterar o perfil das publicações. “No passado as revistas de moda impunham as tendências, mas hoje em dia, e cada vez mais, temos a responsabilidade de informar e reflectir. Somos publicações aspiracionais e que convidam ao sonho, mas hoje em dia há cada vez mais consciência de que a beleza é saúde e autoconfiança. A beleza que devemos promover é que as mulheres não sejam escravas de nada e, em simultâneo, há uma democratização da beleza e um abandonar dos cânones e uma tendência para contrariar os estereótipos”.

As novas modelos

Se virmos os media como o tal ditador de tendências - sejam elas positivas ou negativas - não é, então, possível fechar os olhos ao número significativo de campanhas publicitárias de grandes marcas internacionais, para esta Primavera/ Verão que se aproxima, que contrariaram a ditadura da juventude. Se a Versace escolheu Madonna e a Givenchy optou por Julia Roberts como modelos, mais surpreendentes ainda foram as escolhas da Dolce & Gabanna, da Céline e da Yves Saint Laurent. A marca italiana fez-se representar por um grupo de mulheres já de provecta idade, que personificam a tradição matriarcal siciliana. Já a Céline escolheu a escritora norte-americana de 80 anos, Joan Didion, para protagonista da sua campanha. Por último, a casa francesa, agora dirigida por Hedi Slimane, foi buscar a estrela folk, ícone dos anos 70, Joni Mitchell. “A verdade é que os estereótipos de beleza mudaram. As mulheres à beira dos 40 parecem ter 30, e as que estão à beira dos 50 parecem ter 40. Não só se usam mulheres mais velhas, como mulheres reais, mais 'gordinhas', em comparação com os corpos das modelos. Isto acaba por se reflectir nas escolhas das marcas, de luxo e não só. Ainda agora, a discussão após o Superbowl era como a Gisele Bündchen, aos 34 anos, continua no pico da sua carreira, e consegue ganhar ainda mais do que o marido, Tom Brady, dos Patriots”, explica João Coutinho, director criativo da Grey New York.

Para uma sociedade de consumo vista como viciada na juventude e beleza, a conclusão mais fácil é de que esta é apenas uma tendência passageira e um golpe de marketing. Outros, porém, questionam que a aceitação que estas campanhas estão a receber possa significar uma alteração do paradigma. Ari Seth Cohen, autor do blogue Advanced Style, que fotografa seniores nova-iorquinos, defende que o público quer ver representações de mulheres mais velhas. “Diariamente recebo emails de jovens a dizer que já não têm medo de envelhecer e de mulheres mais velhas a dizerem que sentem a liberdade para vestirem o que querem e sentirem-se bem com a sua imagem”.

Mais, escolher figuras de culto como Didion e Mitchell desperta uma reacção emocional que uma modelo não despertaria. Sabemos o que significam, o percurso que trilharam. Uma marca que se associa a mulheres mais velhas não promove a ideia impossível da eterna juventude, mas antes demonstra que é possível envelhecer de forma graciosa.

Bons exemplos disto são as escolhas de Jessica Lange para a Marc Jacobs Beauty, e de Charlotte Rampling e Tilda Swinton para a Nars; mas ainda mais a nomeação de Helen Mirren, aos 69 anos, para embaixadora da L'Oréal. Na apresentação do seu novo rosto, a marca francesa revelou que antes da escolha realizou um inquérito junto de nove mil mulheres. O nome de Helen Mirren foi mencionado repetidamente como uma mulher “genuína, inteligente e glamourosa, com uma imagem que só tem melhorado com o passar dos anos”.

A verdade é que as marcas de cosmética parecem ter entendido há mais tempo do que as griffes de moda o peso (positivo) da idade. Até porque tiveram a ajuda de números que não mentem: o mercado dos produtos de beleza para a faixa etária acima dos 40 anos está estimado em mais de 2 mil e 400 milhões de euros por ano.

A idade do cinema

Moda e cinema há muito andam de mão dada. Mas se na primeira a discussão da idade parece estar a fazer avanços consideráveis, na Sétima Arte continua a ser o foco de inúmeras discussões, sobretudo após as declarações polémicas de Russell Crowe sobre a inexistência de papéis para mulheres acima dos 40 anos: “As mulheres que se queixam são aquelas que aos 40, 45, 48, não percebem porque não são escolhidas para interpretar personagens de 21 anos. Se estiverem disponíveis para viver na sua pele, poderão trabalhar como actrizes”.

As primeiras reacções não se fizeram esperar. Jessica Chastain assumiu o papel de porta-voz da indignação feminina, insinuando que a única razão porque Crowe fazia uma afirmação destas era porque não ia muito ao cinema. Já Meryl Streep, pelo contrário, saiu em defesa do colega. A actriz de 65 anos, vencedora de três Óscares, disse que as palavras de Crowe tinham sido retiradas de contexto, mas que ainda assim concordava: “É bom que saibamos ocupar o nosso lugar”.

Uma afirmação de Streep que choca também com o crescente uso de softwares de tratamento de imagem - em fotografia e vídeo. É como se, de repente, fosse possível submeter uma pessoa a cirurgia plástica, tratamentos dermatológicos e dentários, maquilhagem, ginásio e cabeleireiro. “Ninguém é na vida real como aparece na televisão e no cinema. Todos são digitalmente alterados”, garantiu um dos especialistas nestes softwares, Claus Hansen, à Mashable.

De resto, o debate sobre o lugar das mulheres acima dos 40 no cinema e na televisão, e até no teatro, não acontece apenas na Meca de Hollywood, mas um pouco por todo o mundo. Ainda recentemente, Fernanda Lapa disse ao SOL que “não há muitos textos de teatro que dêem grandes papéis a mulheres de uma certa idade. Normalmente são mais novas ou então são as avozinhas ou bruxas más…”. Esta ideia, no entanto, não é subscrita por António-Pedro Vasconcelos. O realizador defende que “não podemos pôr uma mulher nova a fazer uma pessoa de idade. Temos de pensar nas personagens. Há papéis para jovens e para velhos. Se souberem gerir a carreira e forem bons e souberem lidar com a idade, mantêm-se, como a Maria do Céu Guerra, com quem ainda agora trabalhei. Da mesma forma que há papéis para mulheres mais bonitas e sedutoras. Ainda que a beleza é algo mais difícil de definir. Já estive ao lado da Penélope Cruz e não dava nada por ela ou da Sónia Braga, que é um taco de pia. De resto, se há uma coisa que matou o cinema europeu em geral e o português em particular foi o preconceito de que uma mulher bonita não pode ser boa actriz”, afiança António-Pedro Vasconcelos. Uma ideia partilhada pelo também realizador Vicente do Ó: “No cinema português, as mulheres ou são mães ou são putas. Há esta ideia preconceituosa de que, se a mulher passa muito tempo a pôr-se bonita, é porque não tem muito em que pensar e não tem conteúdo”.

Este preconceito transborda para a vida real. Não cuidar da imagem é apontado como desleixo. Ter preocupações com a imagem é sinónimo de falta de inteligência. Estereótipos que não são menores, mas antes continuam a minar as mulheres, nas suas lutas diárias e na sua auto-estima. Como rematam as Maria Capazes, Rita Ferro Rodrigues e Iva Domingues, “não podemos permitir que nos rotulem. Cada mulher tem de ter a liberdade absoluta de fazer rigorosamente o que quiser com o seu corpinho”. E com a sua vida.

raquel.carrilho@sol.pt