Cultura

Óscares 2015. Boyhood: A vida como nunca tinha sido filmada

Este não é um filme sobre vidas excepcionais, atingidas por este ou aquele infortúnio, abençoadas por qualquer acto heróico ou talento de destaque. Muitos espectadores sentirão que à longa-metragem de Richard Linklater falta um ‘murro no estômago’, uma trama, uma tragédia, um clímax. Mas na verdade estas duas horas e 45 minutos de fita encerram uma vida familiar comum, sem artifícios, com o engenho cinematográfico de ter sido filmada ao longo de 12 anos sempre com o mesmo elenco. ‘Boyhood – Momentos de Uma Vida’  é a nossa vida, a do nosso vizinho, a do nosso amigo. Ali, escorreita, vista a partir do olhar de uma criança, Mason (Ellar Coltrane), que tem seis anos no início da narrativa e 18 no final.


A prova de que Linklater quis filmar a vida da maioria de nós é ter recusado matar a personagem Samantha (irmã de Mason, também criança), quando após três anos de a fita ter começado a ser rodada a actriz que lhe dá corpo (Lorelei Linklater, filha do realizador) ter querido abandonar o projecto. Linklater considerou esta ideia “muito violenta”, evitando assim dar “o murro no estômago” que muitos espectadores desejariam. Convenceu a filha a prosseguir as filmagens e este pequeno ‘fait-divers’ confirma a intenção conceptual que está por detrás do projecto.

A ironia no final deste filme, tendo em conta as suas quase três horas, é deixar-nos com um sabor de efémero na boca, que chega mesmo a ser de angústia para aqueles que já com filhos são confrontados com o tempo a fugir-lhes entre os dedos. Foi num ápice que estas pessoas se cruzaram na vida. Um pai, uma mãe, dois filhos que cresceram, padrastos, madrastas e meios-irmãos pelo meio.

Linklater faz-nos ver através dos olhos de Mason. Coloca-nos na mente de criança, de adolescente, de jovem adulto. Permite-nos reviver a inocência de infância, as revoltas de juventude e os medos na chegada à idade adulta, tudo numa mesma linha, sem sobressaltos.

Mas este filme é sobretudo um extraordinário elogio do papel de mãe. A grande mulher desta história (Patricia Arquette) é o pilar da narrativa, o seu fio condutor, é a mãe que encarna todas as mães que conhecemos, de forma crua, sem lhe dar o apanágio de mulher perfeita. É ela quem lida com as pequenas e grandes complexidades do dia-a-dia, com duas crianças que do nada são adolescentes e do nada estão fora de casa (junte-se três casamentos falhados pelo meio). Bem vistas as coisas é ela que dá início e fim a esta narrativa quando no princípio diz ‘eu era filha e quando dei por mim era mãe’ e no final, no dia em que o filho sai de casa já adulto, remata com ‘Mas afinal é só isto? Este é o pior dia da minha vida’. E talvez este seja o maior ‘murro no estômago’, o clímax deste filme. É só isto? Pois, a vida é isto. Efémera e sem um propósito titânico.

Se por um lado Arquette dá corpo à mãe real, Ethan Hawke veste a pele de um pai também muito real e comum. Assistimos ao amadurecimento deste homem, vamos criando empatia, acompanhamos como passa do pai jovem irresponsável ao homem maduro em quem lemos uns laivos de culpa quando elogia o trabalho feito pela ex-mulher ao longo d a vida dos filhos ou quando diz ao filho já no final da adolescência. ‘Eu sou o homem que a tua mãe queria que eu fosse há 15 anos’.

Foi arriscada a ideia de filmar ao longo de 12 anos com o mesmo elenco, mas Richard Linklater conseguiu-o e sem falhas, podendo mesmo valer-lhe pelo menos o Óscar de melhor realizador.

andreia.coelho@sol.pt

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