Cultura

Óscares 2015. Volta Michael Keaton, estás nomeado

Keaton reencontrou as boas graças do público e da crítica. E a capa de super-herói de Batman ainda parece servir-lhe em ‘Birdman’.


O papel que agora desempenha no mais recente filme do realizador mexicano Alejandro González Iñárritu, e que lhe valeu uma justíssima nomeação aos Óscares, não é autobiográfico. Mas podia bem ser.

O ex-Batman é Riggan Thomson, uma estrela caída no esquecimento – em Hollywood é o mesmo ou pior do que desgraça – que após ter feito três blockbusters, nos quais desempenhava o super-herói ‘Birdman’, rejeitou fazer um quarto em 1992.

Curiosamente, foi nesse mesmo ano que saiu ‘Batman Regressa’ e que Michael Keaton recusou fazer um terceiro filme da saga do homem-morcego, seguindo-se uma série de filmes B e telefilmes. Aliás, os pontos altos da carreira adormecida de Keaton foram conseguidos ao emprestar a voz a filmes de animação como ‘Carros’ e ‘Toy Story’ e a videojogos como ‘Call of Duty’.

Em ‘Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)’, a personagem de Keaton, de ego ferido com a perda de popularidade, relevância e até de dinheiro, quer a todo o custo validar a sua carreira com um trabalho sério duas décadas depois. Riggan Thomson decide adaptar um livro de Raymond Carver a uma peça da Broadway, encenada e protagonizada por ele próprio.

A tarefa parece, no mínimo, hercúlea. Em boa medida graças às personagens que o rodeiam, do agente insistente, à filha desequilibrada, passando por um colega brilhante, sem esquecer a poderosa crítica do The New York Times, que lhe promete um texto capaz de cancelar a peça a seguir à estreia.

Isto já para não falar do maior entrave de todos, o seu alter-ego Birdman, sempre presente, como que a lembrar Riggan da antiga fama, e que lhe diz constantemente que isto do teatro é uma treta: o melhor é voltar a tirar o fato de super-herói do armário.

Riggan tem um ego tão grande que até se divide em dois e Keaton, já com 63 anos, teve medo de aceitar o papel por não se sentir confortável com tanto narcisismo. Até porque quando se é o mais novo de sete irmãos, como é o caso do actor, não há muito espaço para tanto ‘eu’.

Apesar do medo, Keaton aceitou o desafio de Iñarritu. Ainda bem para ele que conquistou uma nomeação e para nós que o podemos ver num excelente desempenho que pode bem ser coroado com a estatueta dourada. O Globo de Ouro já ninguém lhe tira.

Iñarritu, que além de realizar o filme também foi responsável pelo argumento, tinha o ex-Batman já em vista para o papel de Riggan. Mas Keaton tem recusado paralelismos em todas as entrevistas, chegando mesmo a afirmar que nunca se identificou tão pouco com uma personagem.

É caso para dizer que qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. Ou então não.