Putin e os cavalos de Tróia

Vivemos um momento decisivo na Europa e essa sensação é agudizada pela convergência dramática das crises da Grécia e da Ucrânia, nas fronteiras Sul e Leste do continente. Aconteça o que acontecer, já não será possível voltar atrás. Mas o que temos por diante é um concentrado de incógnitas e perigos como porventura nunca enfrentámos…

O extremar de posições nas várias frentes de combate – económico, político e militar – criou uma sufocante atmosfera de ansiedade e cepticismo sobre as soluções para evitar o pior. Ou seja: o cenário das soluções parece ter-se definitivamente esgotado.

Escrevo antes do desfecho da cimeira de Minsk sobre a Ucrânia e das reuniões do Eurogrupo e do Conselho Europeu sobre a Grécia, realizadas anteontem e ontem. Mas em ambos os casos não se esperavam compromissos que pudessem alimentar o optimismo. 

No caso da Ucrânia, por causa da irredutibilidade de Putin na sua fuga em frente para anexar, de facto, o território dominado pelos separatistas pró-russos, entre Donetsk e a Crimeia (já formalmente anexada desde Março de 2014). No caso da Grécia, por causa da recusa terminante da Alemanha em aceitar as propostas do Governo de Atenas e impedir a bancarrota do país nas próximas semanas (tendo já no horizonte a sua previsível saída do euro – e da União Europeia). 

A coincidência no tempo destas duas crises agrava o drama existencial em que se debate a Europa. Por um lado, acentuam-se a vulnerabilidade das suas fronteiras a Leste e a impotência para enfrentar o aventureirismo imperial de Putin. Por outro, crescem os riscos de desintegração da zona euro e da própria União se se verificar o efeito dominó provocado pela saída da Grécia, arrastando os outros países mais afectados pela doutrina orçamental germânica (esta semana, de forma aparentemente inesperada, Viena surgiu a apoiar algumas reivindicações de Atenas contra os dogmas de Berlim). 

Perante Putin, não parece haver grandes alternativas. Armar as tropas ucranianas carentes de meios para fazer frente à ofensiva russa poderia provocar um agravamento descontrolado da escalada militar. Mas a cedência sistemática ao novo 'czar' e a aceitação dos avanços já realizados pelas forças separatistas, como forma de congelar o conflito, teria também o efeito perverso de estimular ainda mais a deriva imperial russa. Uma verdadeira quadratura do círculo, confirmada pelos resultados frustrantes das recentes missões apaziguadoras de Merkel e François Hollande.

Estamos, de facto, perante uma herança da guerra-fria, um capítulo da História que o Ocidente considerou apressadamente encerrado com a queda do Muro de Berlim. 

Descurou-se, assim, o sobressalto nacionalista e revanchista encarnado por Putin e não se tiveram em devida conta as sucessivas ameaças lançadas por ele – pelo menos desde 2007 – contra um 'mundo unipolar' sob domínio americano. 

Esse sobressalto foi, aliás, exacerbado pelo agravamento da crise económica russa, deixando o apoio popular a Putin cada vez mais dependente da estratégia propagandística e expansionista que ele empreendeu a partir de antigos territórios sob tutela soviética e de que a 'ocidentalização' da Ucrânia funcionou como derradeira pedra de toque. 

Putin talvez não saiba exactamente onde pretende chegar com o seu aventureirismo, mas é nele que joga a sua sobrevivência e a miragem da grandeza russa. Interiorizou a mais tóxica das veleidades: não tem nada a perder. E é isso que deixa o Ocidente desarmado para enfrentá-lo.

Não por acaso, os sentimentos de orgulho nacionalista exacerbados por Putin trouxeram-lhe aliados fervorosos entre a extrema-direita europeia, como a Frente Nacional e outros movimentos eurocépticos que tenderão a expandir-se se a crise continuar, empurrando os eleitorados para fora do sistema político e da identificação com a Europa. 

É também por isso que, colocado entre a espada e a parede, o actual Governo de Atenas poderá revelar-se sensível aos cantos de sereia de Moscovo – uma inclinação aliás favorecida pelos antigos laços religiosos e culturais entre a Rússia e a Grécia.

Enquanto a Europa se fechar cada vez mais dentro dos seus egoísmos nacionais ou se sentir desamparada para enfrentar os dogmas impostos pela lei do mais forte – ou seja, da Alemanha – não é apenas a segurança das suas fronteiras que estará em risco. Será, também, a sua própria sobrevivência como projecto político e económico. 

É nessa Europa que Putin, apesar de acossado pelo colapso económico da Rússia, poderá introduzir novos cavalos de Tróia. Talvez acordemos tarde demais para esse perigo, à força de termos perdido a sensibilidade com um quotidiano de imagens de horror e indiferença como aquelas que nos chegam do Leste da Ucrânia.