Cultura

Óscares 2015. Steve Carell: Agora já não nos rimos

Há vários momentos em que Foxcatcher se torna tão incómodo, em que a personagem de John E. du Pont gera tanta repulsa, pena ou vergonha alheia, ou tudo ao mesmo tempo, que apetece desistir.


Se falarmos em culpa, esta é da própria história, real, de um dos escândalos mais sinistros e bizarros do desporto norte-americano. Mas se falarmos em mérito, então apontemos o dedo a alguém que nos deixa incomodados há mais de uma década, mas de uma forma totalmente diferente daquela com que surge agora no drama de Bennett Miller, que lhe poderá valer o Óscar de Melhor Actor.

Steve Carell. Até aqui, actor de comédia. Para o grande público, é o Virgem aos 40 Anos, o celibatário totó do debute de Judd Apatow como realizador de cinema, em 2005 (para os incautos, e sobretudo para os mais púdicos, trata-se de humor de balneário). Para outros, é o chefe da versão americana de The Office, onde superou expectativas no desafio de pegar na marcante personagem interpretada por Ricky Gervais na versão britânica. Ainda que Michael Scott não supere David Brent.

Mas onde Carell deu à costa foi no The Daily Show de Jon Stewart, onde foi um dos repórteres e comentadores do telejornal fictício, entre 1999 e 2005. Ao lado de Stephen Colbert, Carell protagonizou alguns dos momentos mais recordados do programa, como o recorrente sketch Even Stevphen [vídeo], um hilariante frente-a-frente sobre temas quentes como a religião ou o legado de Clinton que terminava invariavelmente em insultos.

Carell deixou o The Daily Show no auge da popularidade de um programa que teve o seu papel na erosão da liderança republicana, abrindo caminho ao triunfo democrata de Obama em 2008. Os artigos e entrevistas de então carregavam o dedo na ferida: estaria Carell a cometer um suicídio de carreira?

De facto, e apesar dos prémios e dos sucessos de bilheteira (Bruce, o Todo Poderoso; Get Smart – Olho Vivo), a última década foi para Carell uma maçadora e frustrante corrida de fundo rumo à legitimação – ainda que com uma meta volante em Little Miss Sunshine. Outros alumni do The Daily Show – Colbert e John Oliver – tornaram-se em nomes maiores dos talk shows e da sátira política. Enquanto isto, Carell fazia rir plateias a depilar os pelos do peito com bandas de cera. E ao actor norte-americano ia-se colando a personagem-tipo do good guy choninhas.

E eis que chega Miller, finalmente. Com um convite a Carell para interpretar John E. du Pont que não era inteiramente descabido. Tanto no The Daily Show como em The Office, o actor habituou-nos a personagens incómodas, ao deadpan (a piada com cara séria, simplificando), ao embaraço social. E a personagem de du Pont estava afinal no lado negro do espectro da deficiência emocional que Carell trabalhara na comédia.

Resumindo, e evitando spoilers, o verdadeiro du Pont era um multimilionário, herdeiro de uma das maiores fortunas da América. Era também um pária social. Crescera sem amigos numa luxuosa herdade, a Foxcatcher, com uma mãe emocionalmente distante. Sedento de aceitação e de um lugar na história, utilizou milhões de dólares para montar um circo onde simulava o que não tinha: amizade e respeito. Acolheu nos seus terrenos um centro de treino da equipa olímpica norte-americana de luta livre, onde se impôs como treinador. O resto é uma história que não acaba bem.

O actor estudou du Pont a fundo, sobretudo a partir dos documentários e entrevistas que o próprio milionário encomendou e que estão disponíveis no YouTube [vídeo]. Há por isso um pouco de mera imitação no trabalho de Carell, sobretudo na forma pouco natural com que du Pont falava – como um apresentador medíocre que tropeça constantemente na leitura do teleponto. Mas há sobretudo interpretação (tal como no próprio trabalho de Miller, que decidiu dar maior ênfase à tensão sexual do que à doença mental, indignando uma das vítimas do escândalo). Carell criou o seu próprio du Pont, e viveu-o efectivamente durante os meses em que Foxcatcher foi rodado.

O repórter do The Daily Show transformou-se num actor de método? Nas entrevistas, Carell tem recusado o termo, que se tornou numa palavra suja em Hollywood pela sua utilização abusiva. Mas foi um trabalho de fundo e a tempo inteiro, com Carell a evitar qualquer contacto fora de cena com Channing Tatum e Mark Ruffalo, de modo a intensificar o incómodo palpável entre as personagens. Carell era du Pont desde as primeiras horas da manhã, ocupadas com a aplicação da maquilhagem e das próteses (e Foxcatcher está também nomeado para um Óscar de Melhor Caracterização), até à noite, passada sozinho, e durante longos períodos sem contacto com a mulher e os dois filhos.

O resultado é triunfal. O du Pont de Carell é física e moralmente repugnante, desconcertante e intenso. Aos 52 anos, Carell dá finalmente o salto da comédia para o drama. Sério candidato ao Óscar de Melhor Actor, a pergunta é porque demorou tanto tempo a fazê-lo. “Porque nunca ninguém me convidou”, disse recentemente numa das passadeiras vermelhas que pisou com Tatum e Ruffalo. Depois de Foxcatcher, não vão faltar convites. 

pedro.guerreiro@sol.pt