Cultura

Rosa radiante

“Não está a falar a sério, pois não?”. Não, era apenas um teste à paciência de Rosa Montero, que esperava há mais tempo do que o civilizado pelo entrevistador. Teste esse que passou por questioná-la se existe literatura de mulheres e se gosta mais de ser jornalista ou escritora. Perguntas de algibeira que já a aborreciam quando escreveu um dos seus maiores sucessos, ‘A Louca da Casa’ (2003), como a própria conta nessa obra, e que continuam ainda hoje a fazer-lhe. Montero cedo dá uma gargalhada e começa a charlar como se estivéssemos a reatar uma entrevista.

É este o tom do mais recente livro de Rosa Montero em português. Em ‘A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te’, a autora madrilena enceta um diálogo com o leitor que perdura durante as pouco mais de 150 páginas. “Queria que este livro fosse como uma conversa muito íntima com um amigo, quase um sussurro, como se estivesse num lugar muito agradável da casa e passássemos uma noite a falar. E para contar uma história às tantas mostro fotos”, explica. Tanto podem ser imagens suas como de Marie Curie - a cientista é o ponto de partida e de chegada do livro.

Outra originalidade: os temas das reflexões estão precedidos de hashtags, uma ideia que lhe surgiu “naturalmente” e que, crê, é um símbolo ortográfico “utilíssimo que não tinha esta aplicação até agora”.

A ideia inicial, proposta pela sua editora, era a de que escrevesse um prefácio ao pequeno diário de Curie, escrito durante o ano que se seguiu à morte do marido, Pierre. Mas Rosa Montero ficou impressionada com a prosa e desatou a ler biografias da polaca Marya Sklodowska, a estudante obcecada que fica conhecida para o mundo como Marie Curie, já então naturalizada francesa. “De repente tudo ficou claro. Quis utilizar esta enorme figura, a sua dimensão muito complexa, para que servisse como uma tela em que pudesse afixar uma série de reflexões e emoções que andavam às voltas na minha cabeça e no meu coração nos últimos dois ou três anos”. O que assaltava o espírito da escritora? “Pela idade e pela morte do meu marido, foi um momento em que parei e olhei à minha volta e planeei a vida de novo”. É portanto um livro sobre a perda, o luto e a morte, quer de Pierre Curie, quer de Pablo Lizcano.

O que distingue esta “ficção do real” das biografias que Rosa Montero leu? Entrou na pele de Marie Curie como faz numa personagem de um romance seu. “Ao viver na personagem descubro o que um biógrafo oficial não faz, é uma viagem enorme ao outro. Um monte de biógrafos de qualidade não descobriu que a Marie Curie era anoréctica. Era evidente, ela tinha problemas alimentares gravíssimos”, exemplifica. Ou, ainda, por que motivo a única mulher laureada com dois Prémios Nobel foi uma “cientista deslumbrante” e mais velha deixou de sê-la? “Porque dedica o resto da vida a tentar encontrar aplicações práticas para o rádio e com isso demonstrar ao pai que ele estava errado”.

Escrito entre Madrid e Cascais, onde tem o seu “lugar secreto”, ‘A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te’ é, apesar do tema, um luminoso elogio à vida cerzido por quem se apresenta em plena maturidade literária. E trata de aprendermos a viver o momento. “É a única coisa que existe, este momento. E nunca o vivemos, estamos sempre a projectar o futuro e a recordar o passado. Aprender a viver a vida é viver o presente, mas previamente temos de chegar a um acordo sobre a morte, a nossa e a dos nossos entes queridos”.

cesar.avo@sol.pt