Politica

Ferreira Leite à esquerda de Vitorino

O nome de Manuela Ferreira Leite para a Presidência da República agrada à esquerda do PS, por oposição a António Vitorino. O histórico socialista António Arnaut é categórico: “Ferreira Leite está à esquerda de Vitorino”.

E ontem à noite, no seu programa na TVI24, a ex-ministra do PSD deixou a porta aberta. “Estou habituada a ver referências ao meu nome, tanto de forma lisonjeira como de forma muito crítica. Portanto já me habituei a isso. (…) Posso apenas dizer que entra na categoria das lisonjeiras”.

Ao SOL, o 'pai' do Serviço Nacional de Saúde afirma que a social-democrata tem “cultura democrática, sensibilidade social e política e um perfil que se ajusta ao cargo”. O fundador do PS defende que o partido deve apoiar para Belém uma personalidade com “valores da social-democracia europeia dos velhos tempos e do Estado Social” e acredita que Ferreira Leite “defende mais” esses valores que Vitorino. “Politicamente, António Vitorino teve uma curva descendente dos valores que defendeu no PS. Do que ouço está mais à direita que Ferreira Leite”, aponta.

Apesar de referir que, em princípio, não votará em Ferreira Leite se esta decidir avançar, mas numa personalidade próxima do PS, e de notar que Vitorino “é um homem muito inteligente, com prestígio nacional e internacional e daria certamente um bom Presidente”, Arnaut afirma que entre os dois terá de “pensar duas vezes”.

O nome da ex-ministra das Finanças - que assinou o Manifesto dos 74, pela reestruturação da dívida, juntamente com socialistas próximos de Costa - foi lançado pelo ex-dirigente do PS Pedro Adão e Silva, num artigo de opinião no Expresso por cumprir três critérios essenciais: ter criticado a austeridade, apoiar uma solução europeia para a dívida e defender o Estado Social. Ser uma mulher e alargar o espaço de influência partidária são outras das vantagens apontadas.

“Há um consenso em torno da necessidade de compromissos e haveria vantagem em não ter em Belém um espelho de São Bento”, explica ao SOL Adão e Silva.

Marcelo Rebelo de Sousa acusou o politólogo de querer lançar a confusão e desgastar figuras, mas na ala esquerda o nome da ex-ministra é visto como uma resposta a Vitorino. As notícias de que António Guterres não estará mesmo interessado na corrida a Belém, de olho num cargo mais alto na ONU, preocuparam os socialistas. E depois de António Costa ter assumido que o ex-comissário europeu tem “todas as qualidades para ser um excelente Presidente”, somaram-se as vozes contra. Adão e Silva questiona mesmo se Vitorino se pronunciou “de forma clara” sobre temas como a austeridade, dívida e Estado Social. “É preciso utilizar os motores de busca com muita exigência para procurar as respostas dele”.

Já o fundador do PS Alfredo Barroso foi um dos mais duros a criticar o nome de Vitorino, apontando-o como um “facilitador de negócios” e referindo, em declarações ao jornal i, que seria um “erro tremendo” se fosse o candidato apoiado pelo PS. Um ex-ministro socialista assume que Vitorino “tem um perfil que não agrada à ala esquerda por estar ligado ao mundo económico e ter cargos em empresas”.

A eurodeputada Ana Gomes não fala de António Vitorino mas diz que Ferreira Leite “tem credibilidade” para se candidatar, recordando que tem criticado as políticas de austeridade e a actuação do Governo. Além disso, vê vantagens em ter uma mulher candidata. Aliás, foi Ana Gomes quem propôs Maria de Belém.

A esquerda à esquerda do PS também não vê Vitorino com bons olhos. “É um excelente representante do mau estado deste regime”, refere Daniel Oliveira, em entrevista (ver pág. 10).

O ex-ministro Correia de Campos está entre os poucos a fazer a sua defesa. “É uma personalidade de prestígio que entra muito bem no eleitorado. Será um excelente candidato do PS”, argumenta o socialista, frisando que o advogado tem uma “excelente imagem nacional”.

*Com Manuel A. Magalhães

sonia.cerdeira@sol.pt