Julianne Moore: ‘Os meus filhos não vêem muitos dos meus filmes’

É a mais forte candidata ao Óscar de melhor actriz, pelo seu desempenho em O Meu Nome É Alice, onde se conta a história de uma doente de Alzheimer. Para se preparar para o papel, Julianne Moore conviveu com uma vítima da doença, que tem de apontar todas as tarefas a realizar diariamente e que…

Nos dias que correm, dizer que Julianne Moore é uma das maiores actrizes da sua geração já não é um elogio – é uma evidência. A coragem que coloca em cada prestação acaba por ser uma espécie de imagem de marca que, à quarta nomeação, poderá finalmente valer-lhe o Óscar.

Mesmo quando se tratam de personagens secundárias – como sucede em Mapas Para as Estrelas, de David Cronenberg, onde brilha no papel de uma estrela de cinema que tenta recuperar a fama que já se foi; ou no papel de líder da revolução que decorre no último capítulo de Os Jogos da Fome: A Revolta Parte 1 – as suas participações deixam uma marca forte nos filmes. A conversa decorreu no último festival de Cannes, onde Julianne Moore falou também sobre O Meu Nome É Alice.

Não se farta de dar entrevistas? Considera que este é um dos lados menos positivos da sua profissão?

Não, não. Estamos todos no mesmo barco… Você faz as perguntas e eu respondo. Aliás, é sempre um privilégio poder falar sobre cinema aqui em Cannes.

Não se cansa, por exemplo, de estar sempre a dizer a mesma coisa?

Procuro não me repetir muito e tento dar respostas que possam ser consideradas interessantes…

Podemos dizer que o drama Mapas para as Estrelas, de David Cronenmberg, e Hunger Games, um blockbuster de acção, são a antítese um do outro?

Sim, completamente [risos]…

No filme de Cronenberg, interpreta o papel de uma actriz. É algo que conhece bem.

Sim, ainda que não me pareça que o filme seja muito sobre Hollywood. É mais um filme sobre a família, as relações familiares e o desejo de ser vista, de ser apreciada, de ter sucesso.

Sente que foi um papel em que pôs também um pouco de si própria?

Pus, naturalmente, apesar de aquela personagem ser completamente o oposto do que eu sou. Nesse aspecto, é um filme bastante negro.

Gostou de trabalhar com o David Cronenberg?

O David é um mestre. É um excelente realizador e um homem muito sensível. É alguém que se entusiasma a fazer um filme e que traz imensa energia para o set.

A experiência em Os Jogos da Fome terá sido bem diferente. Isso representou um desafio para si?

Antes de mais foi um grande privilégio participar, pois tratam-se de histórias fantásticas. Os livros estão muito bem escritos. Talvez por isso me tenha sentido na obrigação de estar próxima da personagem e do livro. Porque a base de fãs d'Os Jogos da Fome é tão grande e entusiasta que queremos dar-lhes aquilo que imaginam.

Como reagiram os seus filhos [Caleb, de 17 anos, e Liv, de 12] a esta personagem? Pelo menos, era um filme dirigido à sua faixa estária.

Eles não vêem muitos dos meus filmes. Por exemplo, não vão ver o Mapas Para as Estrelas, acredite… Essa minha personagem não é, digamos assim, para todos os públicos… Mas neste caso é diferente. Eles adoram os livros da Suzanne Collins [Os Jogos da Fome]. E também gostam imenso da Jennifer Lawrence. A Liv até me disse: 'Não acredito que conheces esta gente toda!'.

Em Os Jogos da Fome interpreta o papel de uma activista política. Como vê o lugar da mulher na política americana? Acha que já está na hora de os EUA terem uma mulher Presidente, como o Brasil?

Isso é algo que eu, como actriz, acho que não possa influenciar. Mas é uma questão interessante. Só depende de quem for essa mulher, não é?

Falo dos bons exemplos, claro…

Acho que seria um erro assumir que se trata de um cargo em que o sexo de quem o exerce tem influência. Temos de pensar para além do sexo. Trata-se de pensar nos seres humanos e na sua capacidade para governar. Mas, decididamente, acho que deveriam existir mais mulheres na política americana e a concorrer para cargos relevantes, como à Presidência. Sim, acho que está na hora de termos uma mulher Presidente.

Quando escolhe uma personagem, há algo que procure em específico?

Pode soar um pouco a cliché, mas a escolha depende da história, de onde ela poderá levar a minha personagem e como reflecte a experiência humana. E, por outro lado, se eu me quero ver nesse mundo.

Isso significa que se sente a crescer na profissão a cada novo trabalho?

Sim, espero que sim. Felizmente tenho a possibilidade de pensar algum tempo sobre um mundo que não é o meu. Isso permite-me aprender algo sobre ele. Por exemplo, fiz este filme sobre a doença de Alzheimer [O Meu Nome É Alice]. E a pesquisa foi incrível. Descobri e senti muitas coisas a que nunca tinha estado sujeita. E conheci pessoas muitíssimo interessantes.

Pode falar-nos um pouco mais sobre este projecto?

Conta a história real de uma mulher a quem foi diagnosticada a doença de Alzheimer aos 45 anos e que agora tem 50. Ela passou o aniversário comigo no set.

E está a par de todas as implicações da doença de que sofre?

Sim, claro.

Pergunto isto porque a doença poderia impedi-la…

Mas o facto de perguntar significa que há muitas coisas ainda que são desconhecidas. Ela dirigia um centro de urgência de neurocirurgia numa enfermaria e apercebeu-se que não conseguia aprender certos programas de informática, isto apesar de ser a chefe da enfermaria.

E como está ela?

Hoje em dia tem de apontar tudo aquilo que tem de fazer. Acordar o filho, tomar o pequeno almoço, ir ao ioga. À medida que vai fazendo essas tarefas, vai eliminando cada uma delas da lista. Só assim saberá que já as cumpriu. Portanto teve de se habituar a viver dessa forma.

Imagino que para si também tenha sido uma experiência muito intensa…

Foi fascinante. E só de pensar que durante anos o Alzheimer foi considerada um problema normal do envelhecimento. E não é. Às vezes as pessoas até desculpam os mais velhos dizendo, 'Ah, tem 80 anos…'. Mas não é assim. Eles têm uma doença.

Já escreveu livros para crianças. Alguma vez lhe ocorreu fazer algo desse género para cinema?

É verdade que adoro histórias para crianças. Em relação a fazer algo para cinema, não sei se conseguiria. Talvez achasse mais interessante a possibilidade de adaptar um romance.

E presumo continua a seguir o mundo da moda?

Claro!

Mas tanto a vemos com vestidos de alta costura como com um par de jeans.

E visto com frequência, porque gosto de me sentir à vontade. Existe um elemento de fantasia naquilo que fazemos que nos permite entrar nesse mundo da moda e das capas de revista. Claro que isso não é real, mas não deixa de ter o seu lado divertido.

Como vê o seu lugar neste mundo da moda em que a idade é muito relevante?

Claro que a idade tem importância. Mas, por exemplo, eu represento a L'Oréal. E o que acho notável nesta marca é que eles se fazem representar por mulheres de todo o mundo, de diferentes etnias, de idades muito variadas. É a única grande marca que conheço que faz isso.

Acredita que a beleza está para além da idade e da etnia?

É mesmo essa a mensagem.

E o que diz do uso intensivo do Photoshop? Já teve alguma experiência em que não se reconhecesse no produto final?

Eu propriamente não, mas a minha filha sim. Uma vez viu-me numa publicação e disse: 'Essa não és tu'. Não tinha qualquer ruga.

A sério?

Sim. Mas depende do tipo de publicação. E do público a que se dirige.

E não tem controlo sobre a sua imagem?

Não, depois da sessão fotográfica acabou-se.