Internacional

O efeito Varoufakis

Quando os cortes exigidos pela troika chegaram à Universidade de Atenas, Yanis Varoufakis podia ter-se tornado mais uma vítima anónima da crise grega, apenas mais um entre os milhões que decidiram deixar o país nos últimos cinco anos.

Camisa desfraldada, colarinho aberto e mochila às costas: eis o ministro das Finanças grego SIMELA PANTZARTZI/epa

Com um percurso académico recheado, encontrou pouso na Universidade do Texas, mas um dos seus lemas de vida impediu que a emigração o separasse em definitivo dos destinos do seu país: “Foi-me dito, um dia, por um académico de esquerda, que para ser marxista temos de ter duas coisas – ser sempre optimista e ter sempre uma opinião sobre tudo. Este conselho ainda hoje me parece bem”, disse ao Guardian já na condição de ministro das Finanças do novo Governo do Syriza.

Um cargo que “não podia deixar de aceitar” depois de se ter tornado, apesar da distância, um dos rostos mais visíveis do combate à austeridade imposta à Grécia. Fê-lo no seu blogue pessoal, onde ao longo dos anos denunciou as inúmeras contradições de uma receita que, ao contrário do que prometia, foi tornando o país cada vez mais endividado e insustentável. Ali, chegou a apelidar o processo de “waterboarding fiscal”, numa comparação com a táctica de tortura que consiste em simular um afogamento.

Agora promete manter a presença na blogosfera e nas redes sociais, onde acumula mais de 60 mil fãs no Facebook, num grupo que celebra o ‘V de Varoufakis’, e 272 mil seguidores no Twitter. Embora tenha avisado que os seus textos no blogue passarão a ser “menos frequentes e mais pequenos”, Varoufakis propõe-se a “desafiar” o conselho que mais ouviu nos últimos tempos: “Vou continuar a ‘blogar’ aqui mesmo que seja normalmente considerado irresponsável um ministro das Finanças envolver-se em tão grosseiras formas de comunicação”.

É lá que contesta a cobertura jornalística do intenso diálogo que o seu Governo tem mantido com as autoridades europeias desde a tomada de posse, chegando ao ponto de responder directamente a jornalistas. Quando Peter Spiegel, do Financial Times, relatou o fracasso da primeira reunião do Eurogrupo que contou com Varoufakis, sustentando-se na versão dos representantes alemães, o ministro grego reagiu no Twitter: “Posso sugerir que se abstenha de alegações duvidosas sustentadas em fugas ainda mais duvidosas? É um pouco inapropriado”, escreveu directamente para o jornalista.

Pobre mas sexy

A forma de comunicar é apenas uma das características de ruptura de Varoufakis e do novo Governo grego. Outra, muito mais referida, é a forma de vestir: se o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi ofereceu uma gravata ao homólogo Alexis Tsipras, no primeiro encontro entre ambos, as escolhas informais do responsável das Finanças têm tido outro impacto. O conservador Die Welt, um dos diários alemães mais próximos do Governo de Merkel, escreveu uma peça com o título: “O que faz de Varoufakis um símbolo sexual?”.

Mesmo perante uma figura que repete as referências ao regime nazi para dizer que “os alemães sabem melhor do que ninguém o que acontece quando um povo é humilhado durante demasiado tempo”, os germânicos não conseguem ficar indiferentes à sua aparência. “Ele vagueia pelas ruas de Atenas numa grande e negra mota, nunca prende as camisas às calças e irradia uma espécie de masculinidade clássica que normalmente só se vê em estátuas gregas”, observou a também germânica Stern. A Stylebook, dedicada à moda, escreveu sobre o ministro sob o título: “Pobre mas sexy”.

O escrutínio das suas posições políticas, em especial do braço de ferro que mantém com o homólogo Wolfgang Schäuble, concorre com a observação da indumentária escolhida diariamente pelo grego. O cachecol que usou no dia em que encontrou Schäuble e a líder do FMI, Christine Lagarde, que poderá ter custado mais de 400 euros, criou uma onda de consternação. Como pode um membro de um Governo de esquerda usar tal luxo perante os poderes instalados com que negoceia? Questão que lhe foi apresentada no Twitter, motivando resposta pronta de Varoufakis: “Já que pergunta, é um presente com 12 anos da minha mulher. Satisfeito?”.

Excepto na sensualidade, Varoufakis é, como todas as figuras de ruptura, alguém que divide opiniões. E por isso a discussão mantém-se, havendo nas redes sociais quem continue a afirmar que a escolha do cachecol é equiparável ao facto “de os executivos da General Motors terem ido de jactos privados pedir um resgate”. E quem se dedique a ampliar as fotografias para provar o “ar gasto” da prenda de Danae Stratou, a artista plástica com quem casou depois do desgosto provocado por um divórcio que levou a sua filha, ainda bebé, para a Austrália.

Uma terra onde viveu cerca de 13 anos, ao ponto de deter dupla nacionalidade, depois de ter fugido de Inglaterra, onde se formara e se tornara professor universitário, devido à terceira vitória eleitoral da conservadora Margaret Tatcher. Sempre longe da política – o mais perto dela que tinha estado fora como conselheiro económico de um Governo do PASOK, no início do século. Um passado recordado pelo britânico Daily Telegraph quando informou os seus leitores que “o ministro das Finanças grego não é um extremista” e nem sequer militante do Syriza.

O título não escapou ao próprio. No seu blogue inseriu a notícia com a chamada: “Já ouviram as notícias?”. Varoufakis não é um político normal e diz que o seu “maior medo” é precisamente transformar-se nisso: “Como antídoto para esse vírus, pretendo escrever a minha carta de demissão e guardá-la no bolso, pronta a ser apresentada no momento em que sentir sinais de que estou a falhar no compromisso de falar apenas a verdade”.

nuno.e.lima@sol.pt