Cultura

Elif Shafak: ‘A Turquia entrou em retrocesso’

  

Elif Shafak não aceita que a encerrem em categorias ou estereótipos. Aos 43 anos, com nove romances publicados, sete deles escritos em inglês, dois milhões de seguidores no Facebook, uma legião de fãs que cobre transversalmente a Turquia e se estende à volta do globo, ela é uma das vozes intelectuais femininas turcas mais proeminentes. Formada em Relações Internacionais, especializada em Estudos de Género e Filosofia Política, romancista, professora universitária, palestrante, activista política, Elif Shafak esteve em Lisboa para promover o seu primeiro romance traduzido para português.

‘A Bastarda de Istambul’, de 2007, nomeado para o Orange Prize for Fiction, foca a ferida ainda aberta pelo genocídio de mais de um milhão e meio de arménios pelo Governo Turco Otomano, entre 1915 e 1923, a partir de uma teia de laços improváveis, mas muito profundos, que unem várias mulheres, de várias gerações, em Istambul. Fala aberta, quase acintosamente, sobre aborto, incesto e violação. É, como todas as obras de Shafak, um murro no estômago dos políticos e da cultura misógina turcos, e por pouco não a levou à prisão, julgada por traição à pátria enquanto estava grávida do primeiro filho. Numa conversa intimista, Shafak mostrou por que o seu discurso e a sua literatura são pura matéria política.

A Turquia, e sobretudo Istambul, é um dos destinos turísticos preferidos dos portugueses. Mas quem conhece o país há algum tempo identifica hoje uma mudança drástica de cenário. As ruas da antiga pérola do exotismo e do cosmopolitismo foram invadidas por mulheres de chador preto, o poder da energia sexual masculina é evidente, agressivo, há uma tensão no ar antes desconhecida.

A Turquia é um país muito complexo, muito diferente de outras partes do Médio Oriente ou do mundo muçulmano. Está sempre no meio, entre o Médio Oriente e a Europa. Não quero traçar um cenário demasiado negro, porque isso também não seria justo. Contudo, é muito importante não se perder o equilíbrio entre a energia feminina e a energia masculina. Desde o pedido de adesão à UE [Abril de 1987], a Turquia entrou em retrocesso e está a tornar-se cada vez mais conservadora. Há um desrespeito generalizado pela liberdade de expressão. Todos os criadores e pensadores - escritores, artistas, jornalistas - sabem que correm riscos sérios ao exprimir-se, o que os empurra para a auto-censura. Os media sofreram uma razia; centenas de jornalistas foram despedidos por se manifestarem contra a política e a ideologia vigentes; muitos outros (incluindo cartoonistas) estão na prisão ou a aguardar julgamento. A violência doméstica está numa escalada impressionante e tornou-se uma questão urgente, à qual o governo não presta a devida atenção. A política quotidiana na Turquia é muito dura, muito masculina, agressiva e divisionista. Os assuntos relativos à mulher são sempre adiados ou relegados para segundo plano. Para mais, as ruas pertencem aos homens...

E as mulheres são cada vez mais empurradas para o espaço doméstico.

Dói-me muito que isso aconteça. Elas são permanentemente advertidas de que não têm os mesmos direitos do que os homens e que o seu papel principal é a maternidade e o bom desempenho enquanto esposas. Os homens vêem-nas como sua propriedade privada. Têm sido sucessivas e incisivas as declarações neste sentido feitas pelo governo do AKP [Partido da Justiça e Desenvolvimento, fundado em 2001 por Recep Tayyip Erdogan, ex-primeiro-ministro e actual Presidente da República]. O governo chegou ao ponto de indicar quantos filhos cada mulher deve ter (três), quis abolir o aborto e a cesariana, até sugeriu que rir alto em público não é modesto! Este conservadorismo alimenta a inclinação natural da cultura turca para o patriarcalismo, o sexismo e a homofobia.

Sente-se nas ruas a impunidade da cultura masculina.

Sim, e não existem suficientes mulheres no espaço público que a contrariem. Quando o governo quer abolir o aborto, a pergunta premente é: que mecanismos existem para apoiar as mães e as crianças? Porque é que os políticos não páram de se intrometer em assuntos exclusivos das mulheres? As mulheres turcas sabem escolher e decidir por si mesmas. A política de género deste governo enfurece-me.

Em 'A Bastarda de Istambul', Petite Ma é a matriarca da família de Asya, a filha bastarda. O romance explora várias mudanças sociais ocorridas desde a chegada de Petite Ma a Istambul para se casar, em 1923, ano da fundação do estado secular turco moderno, por Mustafa Kemal Atatürk (1881-1938). O que diria Atatürk se olhasse hoje para a Turquia?

Acho que ficaria furioso com muitas coisas. Todavia, em 2015, nós precisamos de uma nova narrativa. Tenho muito respeito pelo que Atatürk atingiu, nomeadamente quanto aos direitos da mulher, mas sou muito crítica do nacionalismo da sua ideologia, muito elitista e hoje já ultrapassada. Durante décadas celebrámos o orgulho e a felicidade de sermos todos turcos, quando nós nunca fomos só turcos: alguns de nós eram curdos, arménios ou judeus. A pluralidade, a diversidade são elementos fundamentais para a nossa identidade. Muitos liberais, incluindo eu própria, apoiaram a chegada ao poder do AKP,  em 2002. Pensávamos que era um partido progressista, que haveria uma nova Constituição e mudanças pró-Europa e reformistas. Em 13 anos de governação, o AKP foi-se tornando cada vez mais autoritário. Então, devemos analisar, com muita calma, o lado positivo e o lado negativo do que é a Turquia hoje. A nova narrativa tem de se centrar na democracia, nos direitos das minorias, na coexistência de culturas e na separação de poderes.

Não me parece que a calma seja um atributo muito turco...

É verdade. Os turcos estão sempre zangados e a gritar uns com os outros. Isso é evidente, por exemplo, na televisão: ninguém ouve ninguém. Rejeito este nível de ruído e toda esta energia masculina exacerbada. É urgente cultivarmos uma linguagem construtiva, a calma e a empatia. Tenho a certeza de que, se um dia o conseguirmos, será através das mulheres e da energia feminina. Qualquer que seja o seu contexto particular, quer tenha a cabeça tapada por um lenço, quer use uma mini-saia, a mulher turca tem de ocupar o espaço público e político.

Quem está consigo na defesa deste tipo de ideais?

Falo só por mim. Insisto em permanecer um indivíduo. A sociedade turca está demasiado polarizada em identidades colectivas. As perguntas são sempre as mesmas: a que família, a que tribo, a que lado pertences? Enquanto democrata, insisto em não pertencer a nada, a lado nenhum. Acredito em valores universais, mas sou sempre só eu e eu mesma. E sou, sobretudo, uma contadora de histórias.

Vive em Londres, com os dois filhos, enquanto o seu marido [Eyüp Can, director do jornal Radikal] trabalha e vive em Istambul. Como gerem esta distância?

Vemo-nos, visitamo-nos com frequência. Não é fácil, mas acredito ser possível termos mais do que uma casa. Desde há quatro anos que nós temos duas: na Turquia e em Inglaterra. Por mais que ame Istambul, não consigo estar lá durante muito tempo. O facto de ser uma figura pública faz que, para o bem ou para o mal, esteja sempre em foco. Isso sufoca-me. Vivi sempre dentro e fora do país e sou, por natureza, uma nómada. O casamento é uma instituição complicada e eu sei que tive muita sorte: o meu marido [descendente de uma família turca tradicionalista] é como um extraterrestre que nasceu num planeta feminista e foi depois teletransportado para a Turquia. [risos] Ele apoia em absoluto a minha individualidade. O amor exige liberdade.

O sentimento de não-pertença, ou até mesmo de exclusão, é um elemento importante para a criação artística?

É muito importante sairmos com regularidade das nossas zonas de conforto. Curiosamente, quando vemos as coisas à distância, vemo-las com maior detalhe e nitidez. Sempre me senti uma outsider-insider na Turquia, o que me coloca numa posição muito solitária, mas enriquece-me muito como artista.

'A Bastarda de Istambul' é um romance sobre mulheres em conflito com a identidade que lhes é imposta e com a singularidade que também as define. Concorda?

Não acredito em heróis, na bondade ou na maldade absolutas. Ser humano é precisamente ter muitas vozes internas em conflito permanente. A função do artista é tornar visível o invisível. Quando escrevo sobre pessoas, vejo-as nesta sua complexidade. Não precisamos de heróis; precisamos de inspiração.

A personagem Armanoush é filha de pai arménio, descendente de uma família de sobreviventes [“orgulhosa mas traumatizada”], e de uma americana do Kentucky [“histericamente anti-arménia”], entretanto casada com um geólogo turco, imigrado para os EUA. Mas, no essencial, Armanoush não difere assim tanto de Asya, a rapariga turca com quem ela se liga de modo inesperado.

Durante muitos séculos, os místicos disseram que a vida é um círculo e que estamos todos interligados. É verdade: todas as histórias, todos os destinos estão interligados. Dito isto, quando escrevo uma história, interesso-me sobretudo pelas minorias, por aqueles que estão na periferia, silenciados, oprimidos. Quero trazer as histórias deles para o centro. Acredito que a ficção tem um poder transformador.

Os seus livros conjugam de forma original a tradição literária ocidental com a cultura e as tradições orais turcas. Creio que, curiosamente, é destas últimas que advém a sua maior originalidade e irreverência.

Li e fui muito influenciada pela grande literatura novecentista e modernista europeia. Por outro lado, estou muito ligada à arte das narrativas orientais. Gosto de cruzar, de fundir a tradição escrita ocidental com a tradição oral oriental. Recolho muitas narrativas tradicionais e integro-as na estrutura mais rígida e linear do romance europeu. Gosto de contar histórias dentro de histórias. Um conto turco e um conto arménio podem começar ambos com o mesmo preâmbulo: 'Era uma vez e não era uma vez'. Interesso-me muito por este modo de brincar com a realidade, de falar verdade a mentir e de trocar as voltas ao tempo ('um dia, eu embalava o berço do meu pai', diz-nos um conto). Neste sentido, a tradição oriental é muito pós-moderna e surreal. Uso-a para temperar a racionalidade ocidental.

O que lhe agrada mais na Turquia?

A tradição oral, a tradição feminina, o afecto, a amizade. Somos muito emotivos e temos muitas expressões genuínas: a culinária, a música. Adoro as ruas, as cores, os sons de Istambul. Culturalmente, sinto-me muito ligada à Turquia. Mas não consigo aceitar a mentalidade e a política turcas. Estamos sempre a repetir os mesmos erros. Nâzim Hikmet, um dos nossos grandes poetas, passou muitos anos na prisão ou no exílio. Numa das suas cartas, disse: “Ó meu país! Amo-te tanto, quero-te tanto, mas estou tão zangado, tão frustrado contigo!”. É o que eu sinto também.