Vida

Se tivesse de fugir o que levaria?

'Se tivesse que fugir num minuto, o que levaria?', atira Teresa Tito de Morais, presidente do Conselho Português para os Refugiados (CPR). Só para tomar essa decisão precisaríamos bem mais do que 60 segundos. Mas foi nessa situação que se viram milhares de refugiados no Sudão. E agora é a história desses objectos trazidos no momento de fuga que está patente na exposição fotográfica A Coisa Mais Importante, de Brian Sokol.

São 14 retratos que contam outras tantas histórias de sudaneses obrigados a abandonar as suas casas, trazendo consigo apenas o essencial. Um objecto que resume os seus medos mas que traz também uma réstia de esperança. O objectivo é alertar para o drama humanitário que atinge 51 milhões de refugiados em todo o mundo, o número mais elevado desde a II Guerra Mundial. A campanha, lançada o ano passado no Dia Mundial do Refugiado (20 de Junho), procurou, segundo Teresa Tito de Morais, “perceber quais são os valores e as necessidades que os refugiados têm quando trazem alguma coisa que lhes é muito cara e que eles pensam que não se podem separar dela”. Dado o seu impacto, a iniciativa acabou por se estender para além dos limites do campo de refugiados de Maban County, no Sudão do Sul.

Em Portugal, o CPR perguntou a várias personalidades públicas, entre elas António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e ao então ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, o que levariam consigo se tivessem que abandonar tudo num minuto. “Lembro-me que o Dr. António Costa tinha um aparelho muito engraçado, que lhe tinham oferecido, uma lanterna a bateria solar. Ele considerava esse objecto importante no sentido de iluminar a sua esperança e o futuro, mas também o caminho que ele teria que fazer. O Dr. Miguel Macedo disse que levaria o passaporte”. Nos 14 retratos que se podem ver no CCB, há imagens de outros objectos que ilustram histórias sofridas e verídicas.

Haja, de 55 anos, contou ao fotógrafo Brian Sokol que num momento de pânico apenas teve tempo para agarrar o seu 'taupe' (uma espécie de pano tradicional), embrulhar a neta, Bal Gaz, e pô-la às costas. Percorreram juntas um caminho sinuoso durante 25 dias até ao campo de refugiados no Sudão do Sul. Ahmed, de dez anos, fez-se fotografar com o 'seu melhor amigo', um pequeno macaco a que deu o nome de Kako. “Não consigo imaginar a minha vida sem o Kako. A coisa mais difícil de deixar para trás foi o meu burro de estimação. Mas simplesmente não foi possível trazê-lo…”, confessou a Sokol. Já Magboola, de 20 anos, que fugiu com as suas três filhas, não saberia o que seria da sua família sem uma pequena panela que trouxe no último momento. Foi nela que cozinhou o sorgo, uma espécie de milho que as alimentou durante os 12 dias de viagem desde a aldeia de Bofe até à cidade de El Fudji.

“O apelo da exposição não é chocar, mas fazer com que cada um se possa mobilizar no sentido de trabalhar em prol de um população muito sofrida”, realça Teresa, que relembra o papel de Portugal como país de acolhimento. Desde 1991, aquando a constituição do CPR, este organismo já recebeu 401 pedidos de asilo. “Este ano já foram 91, maioritariamente de ucranianos”. Analisada a elegibilidade do pedido de asilo, estes refugiados são encaminhados para os dois centros de apoio existentes em Portugal. “Depois temos o caso dos menores não acompanhados. Às vezes vêm dois irmãos, o mais novo pode ter 9 anos. Neste momento temos 14 crianças que chegaram sozinhas, no Centro da Bela Vista”. O futuro destes menores passa pela sua integração em escolas ou centros de formação, por construir com eles um projecto de vida e, se possível, reuni-los com outros familiares. “Às vezes procuramos a localização de alguém que lhes é próximo através da Cruz Vermelha Internacional para podermos realizar essa reunião familiar”.

Nos campos de refugiados a vida é sempre mais dura. “Tive oportunidade de visitar alguns campos no Malawi e na África do Sul e as condições são muito precárias. É muito difícil levar água, electricidade e tudo o que é preciso a campos que estão fora das cidades. Algumas famílias estão em casas pré-fabricadas, outras em tendas, mas o pó e a seca tornam a vida de todos muito difícil “. Depois há as epidemias, a fome e a desocupação de milhares e milhares de pessoas confinadas a um único espaço. Algumas podem passar dez anos - ou mais - neste ambiente. “A organização dos campos, a distribuição de alimentos e a questão da saúde são factores que condicionam muito a vida destas pessoas”. Com o objectivo de contribuir para melhorar as condições dos campos refugiados, a Ikea Foundation juntou-se a esta causa e desde 2014 já angariou 7,7 milhões de euros que ajudaram 11 mil refugiados sírios no campo de Azraq, na Jordânia, fornecendo às famílias fontes de iluminação alternativas, como lanternas solares, utilizadas nas actividades do seu dia-a-dia.

“Graças a esta forma de iluminação, rapazes e raparigas podem hoje estudar depois do pôr-do-sol, melhorando os seus resultados escolares”, refere Ana Teresa Fernandes, directora de comunicação e sustentabilidade do Ikea Portugal. E acrescenta: “A falta de iluminação na maioria dos campos pode ter um efeito devastador na segurança, perspectivas de educação e no rendimento das próprias pessoas, que podem prolongar as actividades. Num campo de refugiados, a ausência de luz solar    significa que até as mais simples actividades, como ir à casa de banho, recolher água ou regressar ao abrigo, podem tornar-se perigosas, especialmente para as mulheres e raparigas”, destaca. Desde 2010 que o Ikea e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) têm uma parceria no sentido de partilha de conhecimento para a melhoria das tendas e abrigos usados nos campos de refugiados. Agora, por cada lâmpada LED vendida nas lojas Ikea em todo o mundo, até 28 de Março, a Ikea Foundation doa um euro ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. A coisa mais importante? Ajudar.

patricia.cintra@sol.pt