Cultura

Vamos brincar a conhecer o outro?

Como é que se conta a uma criança que na floresta também vivem pessoas? Com música, maquetas que reproduzem paisagens e pessoas, e com sons da Amazónia. “Da forma mais sinestésica [trabalhando os sentidos] e interactiva possível”, explica Margarida Botelho, autora infanto-juvenil, ao SOL.

As crianças dos 2 aos 10 anos assistiram a uma sessão de contos realizada por Margarida Botelho Miguel Silva/SOL
Miguel Silva/SOL
Miguel Silva/SOL
Miguel Silva/SOL
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Miguel Silva/SOL

Depois de entrarem na floresta da Amazónia (cujas árvores e indígenas foram pintadas em cartazes) e de pintarem a cara com riscas de tinta vermelha (a mesma que os Kayapó usam), as crianças dos 2 aos 10 anos assistiram a uma sessão de contos realizada pela autora do livro, Margarida Botelho e pelo pintor do cenário-ambiente, Mário Rainha Campos. A acompanhar, música da Amazónia feita pelas dezenas de instrumentos musicais que o músico Winga foi tocando alternadamente.

“Didgeridoo, kalimba, bombo, arpa de boca, panelas, pratos, muitos apitos para imitar os pássaros, como o mocho e o pardal”, disse Winga ao SOL, esclarecendo quais os instrumentos que usa. “Na parte em que a Iara está na cidade uso o bombo e a buzina”, continuou.

Yara/Iara – uma exposição patente na Biblioteca Maria Lamas, no Monte da Caparica – conta duas histórias distintas de duas meninas diferentes. Yara é uma menina indígena, da etnia kayapó, que vive na Amazónia, Brasil, enquanto Iara é a outra menina, que vive na Europa, num país que poderá, ou não, ser Portugal. É que na verdade, a Iara pode ser uma criança qualquer que se queira encontrar com a Yara e descobrir como ela vive, come e brinca.

“Adquirir a noção de realidade com uma cultura diferente: tento relatar uma viagem com um pé no nosso país, que é para eles compararem. Se eles lá acordam com as araras, nós acordamos com os despertadores. Por isso é que nós olhamos para o outro de forma diferente”, explicou Margarida Botelho.

E há uma pergunta que Margarida nunca deixa de fazer às crianças: “Querem ouvir uma história verdadeira?”. Porque esta viagem aconteceu mesmo em Agosto de 2012 quando a autora e Mário Rainha Campos se deslocaram até Kararaô, uma aldeia indígena Kayapó localizada na bacia do rio Xingu, no estado brasileiro do Pará.

Um projecto artístico de intervenção comunitária

Yara/Iara é o segundo livro da colecção infanto-juvenil POKA POKANI, que é parte integrante de ‘Encontros’, um projecto artístico de intervenção comunitária. Eva/Eva é o primeiro título da colecção, e tem origem num encontro em Moçambique, nos anos 2009/2010. Segundo a autora e mediadora foi o primeiro livro que deu origem a este projecto: “ir para uma comunidade, trabalhar com as crianças, criar uma relação empática, perceber como era o seu dia-a-dia e trazer isso para cá”, disse ao SOL.

Lya/Lia é o terceiro e mais recente livro da colecção que conta a história de uma outra viagem, realizada em Julho e Agosto de 2013, para Atecru, “uma pequena e ainda isolada aldeia piscatória situada na costa norte da ilha de Ataúro, em Timor-Leste”.

A ‘arte-educadora’ – é assim que Margarida Botelho qualifica o que faz profissionalmente – trabalha desde 2009 em parceria com várias instituições e ONGs em projectos de intervenção comunitária através da arte. Para além do ‘Encontros’, a autora, ilustradora e editora, desenvolve projectos artístico-educativos em bibliotecas, escolas, centros culturais e sociais, museus, largos e praças públicas.

simoneta.vicente@sol.pt