Politica

PSD e CDS: Ainda (e sempre?) a duas vozes

PSD e CDS já começam a identificar temas-chave nos quais vão ter de afinar o discurso na campanha caso avancem coligados para as legislativas. As questões fiscais, a reforma do sistema eleitoral, o posicionamento na Europa e uma concertação nos temas fracturantes (de costumes) são apontados por sociais-democratas e centristas como alguns dos aspectos em que será preciso acertar agulhas.

O objectivo é que, mesmo havendo margem para diferenças entre os dois partidos, se evite a ideia de que há dois discursos na coligação. As reacções divergentes de PSD e CDS às declarações de Jean-Claude Juncker sobre a actuação da troika em Portugal voltaram a evidenciar uma falta de coordenação que os dois partidos reconhecem ser desejável evitar em campanha.

Depois de Juncker vir assumir que a troika “pecou” contra a “dignidade” dos países que estiveram sob programas de ajustamento, o ministro social-democrata Marques Guedes considerou “infelizes” as palavras do presidente da Comissão Europeia (CE), ao mesmo tempo que os centristas Paulo Portas e Nuno Magalhães aplaudiam o reconhecimento de que Portugal esteve sob o protectorado do FMI, BCE e CE.

“Foi mais uma falha de coordenação”, admite um vice-presidente do PSD, que embora desvalorize o impacto do desacerto de discursos, reconhece que houve “um descontrolo da organização da comunicação que não beneficia nada o Governo”.

O eurodeputado social-democrata Paulo Rangel reconhece como “normal que dois partidos diferentes tenham dois discursos diferentes”, mas admite que a mensagem passada pelo PSD não foi eficaz.

“Há três pontos que deviam ter ficado claros: Juncker tem razão na questão do modelo de funcionamento da troika - e o próprio Passos já o tinha dito no Parlamento. Mas dizer que a dignidade dos portugueses foi atingida é um exagero e são injustas as críticas feitas à Comissão Barroso, porque esteve sempre a defender os interesses dos países sob ajustamento”, analisa Rangel, que vê no episódio “um problema de articulação do discurso” entre PSD e CDS que pode ser melhorado, mas nunca desaparecerá por completo.

CDS pressiona renovação da coligação

“É normal que o partido mais pequeno tenha um discurso diferente, até para se afirmar. Isso faz parte de uma articulação natural”, comenta o eurodeputado que fez campanha em coligação com o centrista Nuno Melo nas últimas eleições europeias.

A verdade é que é no CDS o episódio à volta de Juncker é considerado um sinal da urgência de definir se há ou não coligação para as legislativas e em que termos.

“Quanto mais depressa ficar definido um acordo, menos haverá episódios destes”, afirma um membro da direcção de Portas, que lembra a importância de afinar o discurso nos principais temas, com “a matéria fiscal, o modelo de crescimento e a posição face à Europa” à cabeça.

“É urgente definir se há coligação, ou não, e criar uma estrutura que coordene a partir daí todo o trabalho. Este episódio é um sinal disso mesmo”, aponta outra fonte próxima de Paulo Portas. “Quanto mais rápida for a decisão sobre o acordo de coligação, maior será a coordenação”, reforça a mesma fonte.

Dois partidos, dois discursos

Apesar disso, ninguém espera que PSD e CDS passem a falar a uma só voz depois de definidos os pontos essenciais de acordo para as legislativas deste ano.

“Não podemos diluir o CDS no PSD”, ressalva o porta-voz centrista, Filipe Lobo D'Ávila, explicando que os dois partidos terão sempre nuances diferentes no discurso político. “Uma coisa é ter um projecto comum nos pontos essenciais, outra coisa é uma comunicação única”, sublinha Lobo D'Ávila.

“É possível, compatível e desejável que os dois partidos tenham margem de liberdade para falar na campanha e defender as suas posições”, diz outra fonte do CDS, reforçando a ideia de que “são dois partidos com naturezas diferentes”. A mesma fonte antecipa mesmo que “é natural que Portas venha a falar mais sobre determinados assuntos, enquanto Passos fale sobre outros” já durante a campanha para as legislativas.

De resto, há quem veja vantagens em manter algumas diferenças entre PSD e CDS. “Assim, angariamos eleitorado em vários pontos”, diz uma fonte da direcção centrista, que espera assim convencer mais eleitores. “De facto, o PSD mantém mais uma linha de 'austeridade, austeridade, austeridade', enquanto a visão do CDS é a que foi preciso apertar para agora aliviar e crescer. E esses discursos podem apelar a vários tipos de eleitores no centro-direita”, explica a mesma fonte.

Tanto no PSD como no CDS não é, porém, difícil encontrar quem acredite que Portas será sempre melhor a comunicar do que Passos. “O CDS sempre foi melhor a comunicar”, diz um dirigente centrista. “O PSD nunca foi bom na comunicação”, admite um social-democrata. A ideia é que, caso vão juntos a votos, os dois partidos acabem por se completar.

Calendário mantém-se

Apesar de no CDS se desejar uma clarificação relativamente ao acordo de coligação, nada põe em causa o calendário já definido. Abril continua a ser, tanto no PSD como no CDS, o mês ideal para a formalização dos termos de uma coligação pré-eleitoral.

Com as eleições da Madeira marcadas para 29 de Março, nenhum dos partidos quer perder margem para fazer campanha própria na região autónoma. O CDS é o maior rival do PSD no arquipélago e nem Passos Coelho nem Portas querem ficar condicionados pelo anúncio de uma coligação nacional.

Além disso, só depois da preparação do documento de estratégia orçamental - que será um Pacto de Estabilidade, por Portugal já não estar sob um programa de ajustamento - será, no entender da maioria, o momento de anunciar um acordo pré-eleitoral. Ou seja, só depois de Abril será o momento de avançar.

“Os calendários são para manter”, assegura ao SOL uma fonte da direcção do PSD, que não está preocupada com as diferenças nos discursos dos dois partidos.

margarida.davim@sol.pt

sofia.rainho@sol.pt