Opiniao

Sem ambiguidade

Perto de mil muçulmanos na Noruega fizeram um cordão humano em torno de uma sinagoga. Foi um acto de solidariedade com a Dinamarca depois do ataque em Copenhaga perpetrado por um dinamarquês de origem palestiniana. Tratou-se de um gesto admirável. Não sou entusiasta de gestos simbólicos mas penso que este tem uma importância particular. Em primeiro lugar, por causa da sua excepcionalidade. É raro a comunidade muçulmana manifestar o seu desagrado relativamente a actos violentos de gente que usa a religião para os justificar. Sempre me fez confusão a ausência de condenação pública por parte de personalidades e autoridades islâmicas a atentados. Em segundo lugar, há cada vez mais interpretações, quanto a mim assustadoras, que ligam a violência dos grupos islâmicos a uma certa religiosidade que a legitima. Estes argumentos só podem ser contrariados e combatidos pela própria comunidade islâmica. E não pode haver nenhuma ambiguidade sobre este tema.

Serviço público

O Valor da Liberdade: Diálogos sobre a Possibilidade do Humano é uma série de dez programas semanais com duração inferior a 30 minutos. O projecto da Fundação Manuel dos Santos é realizado em parceria com a SIC Notícias e conta com dez entrevistados, entre os quais se encontram filósofos, escritores, historiadores e políticos que discutem um tema principal: a liberdade. O primeiro programa foi gravado em Grenoble e teve o filósofo francês Gilles Lipovetsky como protagonista. O formato do programa lembrou um pouco a série holandesa O Belo e a Consolação, transmitida pela SIC há uns anos, que tinha a vantagem de cada episódio ou cada entrevista durar cerca de uma hora. Quando se entrevistam grandes pensadores, pessoas influentes, intelectuais que dizem, como Lipovetsky, que “pensar não é viver”, é natural que quem gosta de ouvir queira ouvir mais. É esta a única reclamação a fazer a uma série que promete muito e que aparece no momento certo.

Os dez cêntimos que mudaram o mundo

A partir de 15 de Fevereiro, por causa de uma medida da reforma da Fiscalidade Verde, os sacos de plástico do supermercado, da farmácia ou da pastelaria, que dávamos como garantidamente gratuitos, passaram a custar dez cêntimos, com IVA incluído. Contrariamente às vozes de protesto que se fizeram ouvir, gosto desta taxa. A humanidade em geral e os portugueses em particular são forretas quando se trata de gastar dinheiro em vão. Ora, criou-se a ideia de que os sacos de plástico leves eram dispensáveis porque podiam ser substituídos por outros mais resistentes. Assim, em vez de pagarmos 10 cêntimos por cada saco, investimos 3 euros em sacos reutilizáveis para não corrermos o risco de gastar 40 cêntimos no supermercado. Estou certa de que o investimento compensará e que os 466 sacos de plástico usados por cada habitante por ano serão reduzidos para menos de 50. Mas enquanto o hábito não pega ainda havemos de ver muita gente a andar na rua com cebolas e alhos na mão.

Cor-de-rosa

O princípio de Poliana é um conceito da Psicologia desenvolvido em 1978 que enuncia que o nosso cérebro tende a usar mais palavras para descrever recordações e experiências felizes. Os pormenores são mais precisos e às vezes mais exagerados do que a informação que guardamos dos momentos mais tristes e sofridos. O nome desta hipótese foi retirado de um romance do início do século passado, em que uma órfã tentava encontrar o lado bom das desgraças que lhe aconteciam. Um estudo recente identificou as línguas mais polianescas através da análise atenta de letras de canções, legendas de filmes e uso na internet. Embora todas as línguas estejam sob a égide de Poliana, umas mostram a tendência de ver a vida mais em tons de rosa. É o caso do português e do espanhol, que venceram esta competição. É uma vitória relativa, mas mesmo assim sabe bem. Um pormenor: o princípio de Poliana não se aplica às pessoas com depressão ou transtornos de personalidade.

#AskHerMore

Um dos divertimentos da noite de entrega de Óscares consiste em assistir ao desfile de vestidos belíssimos na passadeira vermelha. Há quem se dedique a analisar os looks desastrosos, mas nunca foi exercício que me interessasse. Prefiro rebolar no prazer de elogiar o Givenchy encarnado de Rosamund Pike, uma obra-prima da alta-costura, ou o deslumbrante Chanel de Julianne Moore. “Karl Lagerfeld fez este vestido para mim”, disse. Mas a actriz que acabaria por ganhar o Óscar também teve a oportunidade de falar ali mesmo sobre a doença de Alzheimer. Talvez esta resposta menos comercial tenha sido a consequência de uma campanha, lançada em Fevereiro do ano passado, pelo Representation Project, que tem como objectivo fazer com que as actrizes falem mais do seu trabalho e não tanto sobre o seu aspecto na passadeira. Apesar de os vestidos terem interesse (e de serem um negócio), as actrizes têm mais a dizer. Perguntem mais e perguntem melhor.