Opiniao

O fracasso é uma droga dura

Quando corremos sempre a olhar para trás, quando a corrida é feita a medo, quando a respiração se atropela em cada passo, quando fugimos de alguém ou tentamos escapar do que tememos, o risco de tropeçar é maior. Para cair, antes de pé. Sem corridas. No nosso passo de sempre. 

Vale para nós, vale para os líderes. Aliás, os que governam para ser aplaudidos deixarão de o ser, líderes e aplaudidos, no dia em que a multidão perceber que o pão e o circo já não sabe ao sabor de antes. Quem é refém da aceitação dos outros, quem vive nessa ilusão, mais cedo ou mais tarde acordará sobressaltado e numa angústia que se tornará permanente. Tenho ouvido sobre isso, não deve ser fácil. 

Não nos bastará correr sem medo se a corrida não for feita com a preocupação de respirar melhor ou de alargar horizontes. E não se conseguem rasgar horizontes se o nosso corpo se afeiçoar aos moldes de uma poltrona. Sentados numa ilha de livros, relatórios e pessoas a quem se dão ordens, podemos abrir perspectivas, oferecer ao mundo novas perguntas, mudar de destino e até mudar o destino de países ou de nós próprios. Muitos o fizeram, muitos o farão. Mas rasgar é outra coisa. É correr mundo, sentir o ar do deserto e as suas estrelas, mergulhar nas entranhas dos excluídos do mundo, beber dos rios da vida, não compreender línguas que nos pedem respostas que jamais estarão ao nosso alcance. 

Não é fácil lá chegar. Falo por mim, contra mim. De reunião em reunião, compromisso em compromisso, almoço em almoço, entrevista em entrevista, telefonema em telefonema, projecto em projecto, apresentação em apresentação, conferência em conferência… Sei o que é. E sei dos perigos de transformar em agenda o que dela nos salva; chegados aí não há remissão possível… Filmes, espectáculos, peças, exposições, livros e restaurantes passam a ser vistos, lidos, sentidos e apreciados como tudo o resto - um amontoado de coisas que nos torna os dias implacáveis e nos mata o silêncio e a reflexão. 
Que horas são? Pergunto-me umas quantas vezes.

Adormeço todas as noites sem conseguir dormir em nenhuma delas. Desperto como se nada fosse, como se estivesse à espera apenas de um pretexto, de um toque de despertador, do Sol a entrar no quarto, de um movimento que seja. Abro os olhos e sigo a vida, as noites são pausas, como os jogos de futebol no sofá ou o cinema numa sala escura. Adormeço todas as noites, desadormeço todas as manhãs. Dormir é outra coisa. Dormir é uma viagem em que o regresso nunca é desejado. O que não me acontece, lamento-o. 

Mas entre a depressão de gastar uma vida na cama e a euforia de perder noites atrás de noites, prefiro a segunda loucura à primeira. Porque uns demitem-se de viver e os outros, se o fizerem em consciência, desejam viver duas vezes e não apenas a vida que lhes está destinada. Uns e outros não conseguem o objectivo. A depressão transforma o desejo de desistência num inferno e a euforia num purgatório a prazo. Por mim, tento o equilíbrio, mas com mais horas de olhos abertos do que de adormecimento. Uma vida e meia, é o que se arranja. 

Detenho-me na depressão. Perdi amigos, família. O fracasso é uma droga dura, uma dependência tão forte como a das vitórias. Quando nele se entra é difícil sair, é como se o ânimo estivesse bloqueado por um exército de pequenos anões a puxar para baixo, gnomos que beliscam e magoam sem magoar. Perder torna-se uma rotina, os outros passam a esperar as falhas de quem sempre falha. Quem perde tem assim o seu próprio reconhecimento. Habitua-se e constrói um mundo à medida, a sua zona de conforto é imaginada para o abrigar das derrotas. Torna-se refém delas, sem elas não saberia o que fazer e onde estar. Sim, o fracasso pode ser também um desejo.

Que valeu ter estado aqui? É a pergunta que nos devemos fazer, a que define tudo o resto. Viver sem dar ao mundo, gastar os dias na obsessão de acumular do mundo, é um negócio ruinoso. Penso nas noites, na chegada das horas solitárias em que, estou certo, todos nos perguntamos do que valeu mesmo ter estado. Porque por muito que se tenha, por grande que seja a conta bancária e a qualidade da prata nos talheres, um dia a luz da mesa-de-cabeceira não mais se acenderá. E nesse último dia, o candeeiro ser-lhe-á apagado por um livro de cheques a cobrar no destinatário. Não é destino que se queira. 

Não acha que vale bem a pena viver? Eu acho. Disso estou mais do que convencido. Amenizarei a conversa com a esperança de me escreverem a vossa opinião. Um assunto sem importância, apenas curioso. Conhece alguém que ao telefone, depois de ser acordado, reconheça que estava a dormir? Não falo da categoria dos íntimos porque esses já não são propriamente pessoas mas um prolongamento de nós. Agora os outros, amigos menos próximos, colegas ou de outra categoria qualquer, até podem ser surpreendidos às oito da manhã e responderem com voz cavernosa. Mesmo nessas circunstâncias, quando me desculpo ou pergunto se as acordei, respondem invariáveis: não, já estava acordado(a). Tem pouca importância, na verdade até é uma prova de piedosa elegância, mas ainda assim não desisto de procurar a primeira que me diga a verdade. Que me surpreenda. Que me grite, 'sim estava a dormir! Onde raio queria que estivesse?'.