A Igreja de Santos Passos

De cada vez que vou a Guimarães e passo pelo centro da cidade fico sempre impressionado com o majestoso edifício que se ergue no topo da bela alameda ajardinada a que puseram o nome incaracterístico de Largo da República do Brasil.

Trata-se de uma esguia igreja barroca, de frontaria arredondada, com duas torres sineiras ligeiramente recuadas e traçadas como minaretes rematados por coruchéus piramidais a riscar o céu.

A sua origem foi uma pequena ermida edificada em 1576 e dedicada a Nossa Senhora da Consolação, embora a actual igreja, da autoria do arquitecto bracarense André Soares, tenha sido concluída bem depois, só em 1785. E as torres sineiras, projectadas pelo arquitecto portuense Pedro Ferreira, foram acrescentadas já em meados do século XIX, assim como a escadaria e a balaustrada.

Em 1993 foi classificada como Imóvel de Interesse Público com o nome de Igreja de São Gualter.

De facto, fica no Largo de São Gualter, onde se centralizam as festas da cidade dedicadas a este santo – as Gualterianas -, mas toda a gente a conhece como Igreja de Nossa Senhora da Consolação e Santos Passos, ou apenas como Igreja de Santos Passos.

Esta invocação dos 'santos passos' deve-se a umas pequenas capelas, ou oratórios, de que restam cinco, edificadas em granito nas imediações da igreja e fechadas com enormes portadas de madeira, que constituem uma via-sacra com os passos de Cristo. Quando as portadas são abertas, por alturas da Páscoa, ficam visíveis as figuras esculpidas em madeira policromada em tamanho natural que estão no seu interior, e que compõem os diversos aspectos da via-sacra. Mas também no interior da igreja estão catorze quadros do século XVIII, emoldurados a madrepérola, com gravuras policromadas de origem francesa a representar a via-sacra.

Mas o que mais me fascina é mesmo aquela frontaria imponente, pelo seu dinamismo cenográfico de que não conheço paralelo nas muitas e soberbas igrejas que se encontram por todo o Minho e por todo o país.

O barroco rococó de André Soares atingiu aqui um dos seus expoentes máximos de ilusionismo cénico ao transformar em monumental referência paisagística o que, pela sua dimensão, não seria mais do que um pequeno orago. E as torres sineiras de Pedro Ferreira interpretaram muito bem a grandiosidade assim criada, juntando uma nova dose de prestidigitação e de vitalidade à quimera instalada.

De tal modo que, sempre que vou ao centro de Guimarães, não consigo deixar de me impressionar com esse majestoso edifício que se ergue no topo da alameda ajardinada do Largo da República do Brasil.

E fico a imaginar, levado pelo embuste, que ele estabelece um qualquer diálogo com mesquitas longínquas. Não daquelas do Norte de África, mas ainda mais distantes: templos otomanos, onde os minaretes são também linhas esguias a atravessar os céus. E a questionar-me se poderá haver alguma sombra de realidade nestas ideias estapafúrdias…