Cultura

Livro: Matar a fingir

«É um livro doente, escrito por uma mente doente e está a ser promovido por uma estação de radiodifusão doente». Em Novembro último, lord Tebbit, ex-membro do primeiro Governo de Thatcher, insurgiu-se contra a difusão pela BBC-Radio 4 de O Assassinato de Margaret Tatcher: 6 de Agosto de 1983. A narrativa ficciona o assassínio da dama de ferro, à porta de um hospital londrino, cerca de um ano antes do atentado à bomba pelo IRA no hotel Brighton, de que resultaram cinco mortos e dezenas de feridos e incapacitados (entre estes a mulher de Tebbit). O Assassinato de Margaret Thatcher foi incluído por Hilary Mantel na antologia homónima de dez contos, de 1993 a 2012, a que a Jacarandá acrescenta mais um na edição portuguesa: A Escola de Inglês, com publicação em língua inglesa prevista só para Maio. Às críticas, a escritora inglesa respondeu: «Fiquei estupefacta quando sugeriram que a polícia devia interessar-se pelo caso do assassínio ficcional de uma pessoa que já estava morta. Não queria estar na pele do advogado encarregado de justificar a acusação».
 


Um infanticídio durante umas férias invernais; duas crianças a observar os ricos; um morto, à janela de uma carruagem de comboio; o corpo de uma irmã anoréctica; as unhas da amante do pai; a desolação de palestras literárias em nenhures; alguns passos sobre vidro; as relações femininas no trabalho ou o choque entre culturas; uma violação narrada num quarto de pânico... Hilary Mantel, única vencedora de dois Man Booker Prize (Wolf Hall e Livro Negro), tem uma capacidade técnica notável e os seus contos, dignos de estudo minucioso, provocam um desconforto no leitor só comparável aos de E. A. Poe. Terríveis e venenosos na composição de personagens e ambientes, maravilhosos na forma sucinta e na leveza da linguagem.

«Tudo o que é humano se ri», diz a dona da casa onde se infiltra o atirador terrorista, que lhe responde: «Jesus chorou». Conversam os dois, com vista para as traseiras do hospital, na expectativa da saída de Thatcher. Será apenas um dos muitos encontros e diálogos improváveis contidos nesta antologia. Familiaridade e estranheza, riso e medo são o território predilecto de uma armadilha chamada Mantel: a não perder.

O Assassinato de Margaret Thatcher
Hilary Mantel Jacarandá Editora
231 págs., 14.90 euros