Vida

A loucura vista por dentro

Um em cada cinco portugueses sofre de perturbações psiquiátricas, segundo o relatório 'Portugal - Saúde Mental em Números 2014', divulgado no final do ano passado. Os números chamam à atenção para um drama que a sociedade se recusa a ver e que coloca Portugal no topo do ranking de perturbações psiquiátricas entre os países ocidentais, com uma prevalência de 22,9%, apenas superada pela Irlanda do Norte (23,1%) e pelos EUA (26,4%). O que significa que, depois das doenças cérebro-vasculares, as perturbações de foro psiquiátrico são as que mais contribuem para a perda de anos de vida saudável. E o estudo não se refere apenas a adultos. Nestas contas entram também crianças e adolescentes com ansiedade, depressão, anorexia ou bulimia.

Mais ou menos na altura em que o estudo foi divulgado por Álvaro Carvalho, coordenador do Programa Nacional para a Saúde Mental, inaugurou no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, a exposição Loucamente (patente até Setembro). Produzida em consórcio por três centros de ciência - Pavilhão do Conhecimento (Lisboa), Heureka (Helsínquia) e Universcience (Paris) - assume-se como a primeira exposição interactiva de um centro de ciência dedicada ao bem-estar da mente e “pretende dar início a uma discussão pública sobre a saúde mental e o seu impacto pessoal e social. As exposições são pretextos para se discutirem temas muitas vezes controversos da sociedade e que merecem, de alguma forma, serem analisados e deixarem de ser tabus”, destaca Rosalia Vargas, directora do centro de ciência nacional. Resultado: a exposição já foi distinguida com o Leading Edge Award para a melhor experiência do público, atribuído pela associação internacional ASTC (Association of Science Technology Centers). O júri salientou a forma aberta e inovadora como foi abordada a questão da saúde mental, desafiando o público a pensar sobre o assunto de uma outra perspectiva. E embora os destinatários principais sejam adolescentes, a verdade é que os adultos não ficam indiferentes às várias áreas da zona expositiva onde testemunhos reais contam as suas experiências com casos de psicose, depressão, ansiedade ou luto.

Neste campo, talvez o que impressione mais os adultos seja a recriação de uma cena familiar em que o pai está profundamente deprimido - e portanto não sai de casa nem consegue suportar ruídos fortes - e o impacto que isso tem no filho de 10 anos, que apenas quer que o pai assista aos seus jogos de futebol ou poder levar amigos lá a casa. “Temos o ponto de vista do pai, do filho e da mãe. E é importante que nos confrontemos com esta realidade porque saber que existe ajuda-nos a perceber o que se passa e a procurar ajuda. E os miúdos podem reconhecer-se ou reconhecerem alguém nesta situação. Confesso que fico sempre muito emocionada nesta sala”, diz Rosalia.

Mas, apesar do impacto desta recriação, a exposição não conduz o visitante para um beco sem saída. Pela mostra, várias 'estações' contam testemunhos  reais de quem procurou ajuda e superou a doença ou, pelo menos, aprendeu a conviver com ela. Para os mais pequenos, há várias geringonças tecnológicas irresistíveis, desde uns óculos de realidade virtual para simular a queda de um precipício, um 'esquisofone' que permite terem um vislumbre do que ouvem as pessoas que sofrem de esquizofrenia, ou um espelho que nos devolve a nossa imagem real, depois de o ajustarmos à percepção de como nos vemos.

Várias alunas da escola profissional Magestil fizeram esse teste e o resultado foi invariável: todas se viam mais gordas do que eram na realidade. “Ora isto pode ser trabalhado em termos de perturbações do foro alimentar. E por isso temos também aqui programas para discutir essa problemática”, destaca Rosalia. Há ainda um espaço para vencer o medo do escuro ou de recintos apertados e uma máquina - que agrada a todos - para acabar com os problemas mais bicudos. Para isso, basta escrevermos num papel o que mais nos aflige e depois colocarmo-lo dentro do enorme 'triturador de problemas' que está no final da exposição. Se isto não resolver a questão, há também um espaço com informação sobre onde e como procurar ajuda médica.

O apelo da realidade

Apesar do consórcio que juntou os três países europeus, Portugal contou com a ajuda extra do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, que além do apoio técnico contribuiu para a construção de módulos novos, adaptados à realidade portuguesa. A instalação da Rádio Aurora é um desses exemplos. Trata-se de uma rádio que nasceu e funciona nesse Centro Hospitalar graças ao apoio de pessoas com doenças do foro psiquiátrico que fazem as emissões. Todas as semanas emitem a partir desse centro para 20 estações nacionais. “E agora vêm também aqui gravar ao vivo!”, lembra Rosalia. Mas há mais, nomeadamente uma exposição de pintura, promovida pelo Pavilhão 31, um colectivo de artistas com doenças do foro psiquiátrico que usam a arte como terapia. Quadros de grandes dimensões estão disponíveis - e em regime de rotação - nesta mostra.

Esta mesma opção de romper tabus relativamente à doença mental teve finalmente, há duas semanas, direito a páginas de jornais internacionais, quando Kate Middleton divulgou um vídeo que assinalava a primeira edição da Semana da Saúde Mental Infantil, no Reino Unido. O objectivo, segundo a princesa, é dar à saúde mental das crianças a mesma importância do que qualquer outra doença, acabando com o estigma que quer pais e crianças sentem. Segundo a Place2Be, a organização apoiada pela duquesa de Cambridge, um terço dos pais continua a ficar constrangida quando os filhos precisam de apoio psicológico. Ao Telegraph, Kate afirmou que, devido a este estigma, “muitas crianças não têm acesso a este tipo de cuidados médicos que tanto necessitam”.

patricia.cintra@sol.pt