Economia

Belmiro vira página na história da Sonae: das ’garras da província’ ao topo

Saída do fundador do grupo foi anunciada pelo filho na apresentação de resultados anuais. «A nossa principal referência vai estar um pouco mais longe», assumiu um emotivo Paulo Azevedo.

No primeiro comentário público à saída de Belmiro de Azevedo da administração da Sonae, o filho Paulo não escondeu os sentimentos contraditórios que a mudança acarreta. «O nosso estado de espírito é de alegria e felicidade por um lado, porque estamos a celebrar uma vida de uma coerência exemplar. Sabemos que vamos continuar a ter a sua proximidade e orientação. Mas todos sentimos que a nossa principal referência vai estar um pouco mais distante», confessou, esta quinta-feira, durante a apresentação de resultados anuais, no Porto.

O gestor assumiu que o afastamento «é um momento muito importante», que irá implicar mudanças na estrutura da empresa. O líder histórico da empresa da Maia, dona do Continente e da Worten, do Troiaresort ou do shopping Colombo, deixará o cargo de chairman da Sonae, da Sonae Capital e da Sonae Industria, a 30 de Abril. Nesse dia, quando se realizar a assembleia-geral do grupo, será proposto que Paulo Azevedo assuma esse desafio (ver entrevista).

Belmiro por ele mesmo

Num almoço para assinalar os 50 ano, fez questão de passar em revista o seu percurso na Sonae – Sociedade Nacional de Aglomerados e Estratificados. Recordou o dia em que, a convite do empresário Pinto Magalhães, chegou à empresa: 2 de Janeiro de 1965. Começou por «destruir o que via, porque efectivamente não servia para a Sonae», para depois «voltar a construir». «Atirei para a sucata metade do equipamento que cá havia e comecei a preparar-me para fazer o mesmo à filosofia de gestão».

Licenciado em Engenharia Química Industrial, cedo se apercebe da necessidade de diversificação dos negócios. Em 1984 associa-se aos franceses da Promodés para conseguir a insígnia Continente e lançar hipermercados em Portugal. Chega à bolsa em 1985.

Sobre a evolução da Sonae, diz que se conseguiu «levando a sério os valores», com «ambição, competência e confiança nas pessoas», ao estar «em constante processo de mudança e de melhoria contínua». E como se consegue a cadeira que hoje ocupa? «Foi cara e paguei-a eu, que tinha vergonha de apresentar a conta à Sonae», contou, em Maio de 2012, num evento da empresa.

Admite que muitas vezes tomou decisões «mais baseado no instinto do que na razão». Mas «pior é sempre não decidir ou decidir a desoras». Mesmo que seja preciso «remar contra a maré», como aconteceu quando muitos lhe disseram que tentar ficar com a PT era arriscado. Avançou. E falhou.

Tal como também fracassou na distribuição no Brasil ou na tentativa de comprar a Portucel. «Não tive sempre razão», mas «o saldo é claramente muito positivo». Hoje, é o segundo mais rico do país e 949.º do mundo, segundo a Forbes, com uma fortuna de 1,8 mil milhões de euros. Combativo, frontal, é visto como um dos maiores empreendedores da história empresarial portuguesa.

Salvo das ‘garras da província’

Hoje com 77 anos, Belmiro nasceu em Tuías, freguesia de Marco de Canavezes. Volta às raízes para definir a sua personalidade e recorda o professor Carlos Silva Andrade. «Foi graças a ele que me salvei das garras da província e que me lancei no mundo», disse quarta-feira, perante 300 dos seus mais próximos colaboradores. «Éramos dois maníacos do rigor, do zero erros, da perfeição completa», já tinha dito noutra ocasião.

Sendo o mais velho de oito filhos de um carpinteiro e agricultor e de uma costureira, relatou em 2012 que ter sete irmãos teve os seus efeitos. «As guerras entre irmãos também formam o carácter. Aprendi a respeitar o adversário quando levei com uma malga de sopa na cabeça, da minha irmã».

Apesar de deixar a administração da Sonae, Belmiro de Azevedo, que gosta de ler e de desportos como ténis, squash, futebol ou andebol, não vai ficar parado. Criará um think tank sobre formação e educação. Vai integrar um grupo de aconselhamento (Global Advisory Board) para apoiar as principais decisões estratégicas em novos negócios, tecnologias e geografias na Sonae. E continuará a dedicar-se ao sector primário, onde já tem produções de vinho e kiwis. «Cinquenta anos depois, as sementes estão apenas lançadas», disse, quase no fim do seu discurso. Caberá agora a Paulo Azevedo manter o grupo na rota do crescimento. O filho assumirá a liderança na administração e a direcção executiva será partilhada com Ângelo Paupério.