Opiniao

Um vazio perigoso

Este artigo de opinião foi originalmente publicado na edição impressa do SOL, no dia 13 de Março

O debate parlamentar de anteontem não podia ter sido mais revelador do vazio político que se instalou no país. Apesar da insistência com que o primeiro-ministro e as bancadas da maioria procuraram valorizar, num claro tom pré-eleitoralista, os sinais optimistas de saída da crise, foi a polémica sobre as dívidas de Passos Coelho que, como se esperava, dominou as atenções. Mas tudo se ficou por uma sensação de déjà vu.

Embora cultivando a sua já estafada pose de humildade, Passos Coelho não pediu desculpa e reafirmou que as suas dívidas estavam saldadas. Com uma curta declaração inicial quis dar o assunto por encerrado e classificar de “aproveitamento político” a continuação do folhetim. E como testemunho de boa-fé fez questão de divulgar os documentos comprovativos do seu estatuto de virgindade em matéria de dívidas ao Estado. O gesto só terá sido ensombrado pela suspeita de que Passos Coelho “poderá ter estado oito anos sem pagar contribuições e não cinco”, como referia o Público da passada quarta-feira.

Obviamente, a Oposição persistiu nas acusações sobre o incumprimento cívico e a incoerência política do primeiro-ministro, tendo até em conta a severidade que o seu Governo demonstrou sobre faltas idênticas cometidas pelos contribuintes, especialmente os mais fustigados pela pobreza e o desemprego.

Retomaram-se argumentos, mas num tom morno e fatigado: os dois pesos e duas medidas da política governamental; o longo tempo que Passos Coelho levou a regularizar a sua situação contributiva - e de o ter feito apenas depois de ela ser conhecida através de uma investigação jornalística - enquanto o Governo não poupava o seu zelo castigador em cobranças coercivas e penhoras; a contradição entre dizer “Gosto de pagar o que devo” e “Não tenho dívidas ao Estado” mas não o ter feito nos prazos devidos, conforme se exige a qualquer cidadão.

Como pano de fundo da controvérsia esteve ainda a atitude do Presidente da República, desvalorizando a ligeireza de actuação do primeiro-ministro como um mero pretexto de confronto pré-eleitoral e propício à curiosidade dos comentadores políticos. Nada que provocasse, todavia, grandes exaltações.

 

Curiosamente, fora essa colagem de Cavaco Silva a Passos Coelho a despertar, finalmente, António Costa do silêncio em que se refugiara - para exasperação de alguns correligionários - sobre o caso das dívidas do primeiro-ministro.

Mas também não faltou quem prevenisse o líder socialista - nomeadamente comentadores influentes como Ricardo Costa - quanto ao risco de, adoptando uma atitude mais exigente acerca do comportamento laxista de Passos Coelho, provocar um efeito boomerang com o regresso do caso Sócrates (essa bomba-relógio que faz perder o sono a muitos socialistas).

Prova disso, Costa pareceu aliviado com o resultado do debate parlamentar: não deu o assunto por encerrado mas adiou-o - ele que confessou detestar 'casos' - para o momento da verdade eleitoral. Sintomaticamente, o putativo candidato presidencial Marcelo Rebelo de Sousa apressou-se a dar o assunto por encerrado, apesar das suas reservas anteriores…

Seja como for, as dívidas de Passos e o fantasma de Sócrates insinuaram-se no clima da pré-campanha eleitoral, ameaçando contaminar a campanha propriamente dita, à medida que os dois casos forem evoluindo até ao confronto decisivo. Para já, as sondagens parecem más para todos, incluindo os pequenos partidos - com excepção parcial do PCP -, o que faz temer um crescimento explosivo da abstenção.

Embora faltem ainda cerca de seis meses para as legislativas, o que a paisagem política nos mostra é um perigoso vazio, em que nem a maioria vigente nem o principal partido da Oposição parecem dispor de alternativas claras - entre uma continuidade em versão soft das políticas actuais e uma cautelosa demarcação dos seus pontos mais impopulares, mas evitando perturbar a relação de forças dominante na Europa.

Neste quadro, como oferecer aos eleitores caminhos efectivamente diferentes daqueles que têm sido seguidos até agora, enquanto o voto de protesto não ultrapassa em Portugal uma dimensão minoritária e muito fragmentada?

P.S. - A ligeireza que Passos Coelho exibiu no cumprimento dos seus deveres contributivos parece cada vez mais o reflexo da ligeireza que manifestou na aplicação, mais troikista do que a troika, da política de austeridade. E não é por acaso que muitos daqueles que foram poupados por essa política e mantiveram intocáveis os seus privilégios se mostram tão compreensivos com as 'distracções' de Passos, revelando a mesma insensibilidade social com que o primeiro-ministro tratou os 'piegas' mais duramente atingidos pela austeridade. É um tema a que voltarei.