Opiniao

O Brasil na travessia do deserto

Nós gostamos do Brasil, mas sabemos pouco do que por lá acontece. No plano económico, ouvimos falar do escândalo de corrupção na Petrobras, a maior empresa estatal da América Latina. É, de facto, um assunto importante: pelas suas implicações políticas (embora não investigada, Dilma Rousseff foi presidente não executiva da empresa entre 2003 e 2010; há 32 parlamentares sob investigação, entre os quais quatro ex-ministros de Dilma), porque a Moody's atribuiu a categoria de lixo às obrigações da empresa, porque ficaram em dificuldades várias grandes construtoras alegadamente envolvidas no escândalo (subornos para ganhar concursos lançados pela Petrobras) e também porque a portuguesa Galp está associada ao gigante brasileiro em várias operações de prospecção de petróleo.

Mas o problema económico brasileiro ultrapassa em muito o caso Petrobras. A história económica do Brasil, em que Portugal participou pelo menos até à independência em 1822, está cheia de altos e baixos. Essa história, pouco conhecida por cá, é excelentemente contada num livro clássico do economista Celso Furtado, Formação Económica do Brasil. Mas este livro vai só até meados do século XX. Depois disso muita coisa aconteceu.

No início da década de 1990 a inflação brasileira ultrapassou os 2.000%, castigando sobretudo os pobres, que, ao contrário de boa parte da classe média, não ajustavam automaticamente os seus vencimentos à inflação (ajustamento que prolongava a alta dos preços). Há 20 anos o Presidente Fernando Henrique Cardoso conseguiu dominar a inflação, seguindo políticas orçamentais e monetárias corajosas. O seu sucessor, Lula, não deitou fora a herança de F. H. Cardoso. Já Dilma foi menos firme: a inflação brasileira está agora em 7,7%, o nível mais alto desde há dez anos.

Em 2002 o FMI teve de resgatar o Brasil. Mas nos seis anos seguintes a economia brasileira cresceu à média anual de 4%, com alguma ajuda da alta de preços das matérias-primas. O Brasil tornava-se um dos mais poderosos países emergentes e parecia ter dado finalmente o salto para o desenvolvimento. Só que a época áurea acabou há quatro anos, com o PIB a subir apenas 1,3% em média anual desde então. Para 2015 os optimistas prevêem uma recessão de 0,5%.

A meteorologia não tem ajudado. O Brasil vive a sua pior seca desde que há registos, com efeitos desastrosos na agricultura e nas barragens hidro-eléctricas, que normalmente fornecem três quartos da electricidade consumida no país.

Com o défice orçamental do Estado federal quase em 7% do PIB, o actual ministro das Finanças de Dilma, Joaquim Levy, está a aplicar uma certa dose de austeridade, com subida de impostos e de juros e cortes nas pensões. A esquerda do Partido dos Trabalhadores não gosta. Os salários reais (descontando a inflação) subiram mais de 50% no sector público em dez anos e 35% no sector privado, enquanto o crescimento do PIB pouco passou os 10% nessa década - uma situação que não poderá continuar.

A dívida externa do Brasil, em dólares, duplicou nos últimos cinco anos. E em parte por efeito do escândalo Petrobras o investimento deverá cair no corrente ano.

Tudo isto explica que os investidores brasileiros estejam agora menos presentes do que se esperava nos processos de privatização em curso entre nós. É a travessia brasileira do deserto.