Politica

Nóvoa não convence socialistas

Carlos César sinalizou o apoio do PS para a Presidência da República ao independente Sampaio da Nóvoa. Mas a questão está longe de estar fechada no partido e de agradar a todos. 
 

Durante o Congresso da Cidadania, organizado pela Associação 25 de Abril, o presidente do PS e o ex-reitor da Universidade de Lisboa estiveram à conversa a sós, segundo noticiou o i. Logo depois, Sampaio da Nóvoa subia ao palco para dar um passo em frente na corrida a Belém: «Esta é a responsabilidade de uma geração. Somos e seremos sempre aquilo em que acreditarmos. Pela minha parte, não tenho medo, sou livre. É preciso liberdade desta para servir. A ousadia é já metade da vitória. Juntos ganharemos o que perdemos separados».

Já no espaço de comentário da RTP Informação, César confirmava ver «vantagem» em apoiar uma personalidade que «possa sair não especificamente de uma organização partidária». Depois de traçar o perfil ideal do candidato presidencial do PS, que deve sair da esquerda democrática, ter uma visão humanista ou colocar no centro do mandato a unidade nacional, César assumiu que  «Sampaio da Nóvoa é uma das personalidades que tem uma grande proximidade com esse perfil».

Depois das notícias de que António Guterres já teria dito não a António Costa e dos anti-corpos de muitos socialistas contra António Vitorino, Sampaio da Nóvoa surge como uma espécie de plano B. «Quem não tem cão, caça com gato», diz ao SOL um dirigente do PS. 

Nada ainda está decidido no Largo do Rato e o entusiasmo com o independente não é geral. «Não vejo vantagem em que o candidato a Presidente da República seja um independente», afirma ao SOL Sérgio Sousa Pinto, membro do Secretariado Nacional, para quem Jaime Gama é o candidato «ideal». «Não quero colaborar para uma mentalidade de que os independentes têm uma certa dignidade cívica porque não se envolveram na vida partidária. Estar na vida partidária é uma honra para quem o faz», defende o dirigente socialista. 

Já o ex-ministro do PS, João Cravinho, aponta uma das fragilidades de Sampaio da Nóvoa: a notoriedade. «É um bom candidato mas já não há tempo para o lançar. Ele agora só é conhecido em Lisboa e nos meios universitários, o que é insuficiente», comenta.

O histórico socialista Vera Jardim diz não ter «nada contra» um independente mas mostra-se cauteloso. «Depende dos independentes e das pessoas ligadas ao PS que se posicionarem. Sampaio da Nóvoa é uma pessoa estimável mas ainda não vi as suas intenções nem de outras pessoas no tabuleiro», diz.

António Guterres ainda não é um nome posto completamente fora do baralho. «O calendário de Guterres na ONU é adverso e o comportamento deixa dúvidas sobre o interesse em Belém. Mas tem tanta notoriedade que pode aparecer a seguir às legislativas. Não precisa de aquecimento», refere Cravinho. 

Mas Sampaio da Nóvoa poderia piscar o olho à esquerda, uma vantagem para um PS que corre o risco de não alcançar a maioria absoluta. Em entrevista ao SOL, Vasco Lourenço, presidente da Associação 25 de Abril, dizia que «se o PS insistir em apresentar um candidato que saia do seu seio, não acrescentará nem mais um voto nas legislativas».  

Sampaio da Nóvoa já não é um desconhecido para os socialistas. O primeiro sinal já tinha sido dado quando foi convidado para o Congresso do PS, que consagrou António Costa como líder. É em 2013 que aparece pela primeira vez como hipótese para Belém. Depois de ter sido o anfitrião de uma iniciativa de Mário Soares que congregou as esquerdas contra a austeridade, o ex-Presidente da República, em entrevista ao jornal i, nota que o ex-reitor tem «gabarito» para ser candidato presidencial. 

O nome do independente tem surgido amiúde. Foi um dos nomes referidos como hipótese para encabeçar a lista do PS às europeias, curiosamente à semelhança de Carlos César. Em termos de tradição, seria a segunda vez que o PS não apoiaria um militante. «Não há uma regra no PS sobre a candidatura presidencial. Já apoiou um candidato externo, Ramalho Eanes. Depois disso foram sempre militantes socialistas. As duas coisas podem acontecer», comenta o ex-eurodeputado do PS Vital Moreira.

sonia.cerdeira@sol.pt
*com Manuel A. Magalhães