Opiniao

A espiral recessiva na Grécia

Durante o programa de ajustamento de Portugal (2011-2014) houve momentos em que parecia termos entrado numa espiral recessiva. Isto é, a austeridade decorrente dos cortes nos salários, pensões, etc. e da subida dos impostos colocavam a economia em recessão; o que, por sua vez, dificultava a redução do défice das contas do Estado - porque numa economia em queda diminuem os lucros das empresas e os rendimentos das pessoas, conduzindo a uma menor receita fiscal; e ainda porque, com o desemprego a subir, o Estado gasta mais em subsídios.

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A ameaça da espiral recessiva felizmente desapareceu. Claro que a austeridade teve efeitos recessivos, inevitáveis na maior parte dos casos. Mas muita gente jurou a pés juntos que a espiral recessiva não apenas já se tinha instalado entre nós como se iria agravando. Como tal não se confirmou - a economia portuguesa voltou ao crescimento, ainda que fraco (0,9% em 2014) - o assunto desapareceu dos media. 

Ora uma autêntica espiral recessiva registou-se na Grécia durante quase seis anos de austeridade imposta pela troika, levando o PIB grego a perder cerca de um quarto do seu valor. No ano passado, porém, a Grécia regressou ao crescimento: 0,8%. Só que esse esboço de recuperação foi morto no ovo com a campanha eleitoral e a entrada em funções do governo liderado pelo Syriza. A economia grega está a caminho de uma nova espiral recessiva.

O Syriza fez promessas loucas para ganhar eleições. Uma vez no poder, não conseguiu mudar a política de austeridade europeia, imposta sobretudo pela Alemanha, mas também pela Finlândia e pela Holanda. Ora não foram apenas estes países que torceram o nariz ao governo grego no Eurogrupo. Nem foi a, entre nós, muito criticada posição de Espanha e Portugal na defesa dos seus interesses nacionais. Foram todos os parceiros da Grécia no euro e ainda o BCE e o FMI.

Isolado, o governo do Syriza percebeu que tinha que recuar. Preocupou-se, então, com a semântica, mudando os nomes às coisas (fazendo lembrar Marcello Caetano, que "acabou" com a PIDE, passando a chamar-lhe DGS - Direcção-Geral de Segurança). E a Grécia lá foi adiantando algumas, poucas (sete), propostas de reforma, nada originais. O que não impediu várias declarações provocatórias dos governantes de Atenas. Assim, não são famosas as perspectivas de chegar a um entendimento com os credores.

Ora esta incerteza paralisou a economia, outra vez à beira da recessão, com o emprego a diminuir. Os gregos já pagavam poucos impostos, mas muitos deixaram agora de os pagar. O governo já teve que recorrer aos fundos de pensões para pagar aos funcionários públicos. Não há investimento empresarial, face à turbulência reinante. E atingem volumes colossais a fuga de capitais para o estrangeiro e os levantamentos de depósitos bancários. A banca grega procura sobreviver na corda bamba. 

Nada disto surpreende - lendo o que disse o Syriza na campanha eleitoral quase tudo o que está a acontecer era previsível. Há que lamentar a população grega, sobretudo a mais pobre, mas também Portugal poderá ter de pagar um preço alto por aquilo que se torna cada vez menos improvável - a saída da Grécia do euro. Se tal acontecer, a moeda única sofrerá um abalo sério e o nosso país arrisca-se a estar na mira dos especuladores como próxima vítima a abater.