Sociedade

Relação invoca livro para justificar prisão de Sócrates

O livro de José Sócrates A Confiança no Mundo constitui um dos argumentos dos juízes do Tribunal da Relação de Lisboa para fundamentar a sua concordância com a prisão preventiva do antigo primeiro-ministro e de que há o risco de perturbar a recolha de provas necessária à conclusão do inquérito.


O acórdão, do passado dia 17, salienta que  “a destreza comunicacional e capacidade de contactos do arguido é notória e muito elevada, dela se retirando, em face dos indícios recolhidos, fortíssimas evidências de capacitação na manipulação de factos”.

E prossegue: “Veja-se, a título de exemplo, a autopromoção que foi feita ao livro que escreveu, dando-lhe uma aparente publicidade e êxito editoriais muito acima do que seria o resultante do real interesse de aquisição e de sucesso da obra e que demonstra, pelo menos indiciariamente, uma falha grave de seriedade intelectual, sobretudo vindo de alguém que, como ele, exerceu altas funções governativas, mas de quem se esperaria um comportamento de transparência e probidade”.

Os juízes referem-se especificamente às manobras de compra de milhares de exemplares do livro em vários pontos do país, logo após o seu lançamento. A investigação reuniu provas de que 170 mil euros foram levantados das contas do empresário Carlos Santos Silva (titular da fortuna que é atribuída ao primeiro-ministro) e entregue a várias pessoas que compraram cerca de 10 mil exemplares. Nomeadamente, João Perna (arguido, motorista de Sócrates), Gonçalo Ferreira (arguido, advogado de Santos Silva), os deputados socialistas Renato Sampaio e André Figueiredo, Inês Rosário (mulher de Santos Silva), Lígia Correia (antiga secretária em governos do PS) e Rui Mão-de-Ferro (empresário com ligações aos arguidos).

'Falta de confiança na idoneidade do arguido'

“Lembramos que um dos factos imputados e já fortemente indiciado foi o de, por forma a garantir o sucesso de vendas da mesma publicação, o arguido José Sócrates ter angariado um conjunto de colaboradores para efectuarem aquisições de exemplares do mesmo livro, em diferentes pontos do país, aos quais passou a fazer entrega de fundos (...). Segundo os indícios recolhidos, parte significativa dessas vendas teria sido induzida artificialmente” - afirmam os juízes da Relação, Agostinho Torres e João Carrola.

E concluem: “Por estas razões, em conjunto com as restantes mencionadas, surgem sinais muito claros de receio justificado na falta de confiança na idoneidade do arguido, o que mais acentua o elevadíssimo risco de perturbação do inquérito em momento de recolha decisiva de prova sobre a sua ligação a actividades ilícitas - quer eventualmente ainda como primeiro-ministro, quer como agente de tráfico de influência em negócios de preferência pelo menos alegadamente com empresas ou pessoas a quem devia 'favores', nomeadamente do Grupo Lena”.

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