Internacional

Nigéria decide futuro

O país mais populoso de África encerrou, a partir da meia-noite de quarta-feira, as fronteiras marítimas e terrestres sobre mais de 170 milhões de habitantes e 70 milhões de potenciais eleitores. Cerca de 360 mil polícias vão vigiar as zonas mais críticas do país e as 150 mil mesas de votos. Em lockdown, a Nigéria enfrenta hoje as eleições mais renhidas desde o regresso à democracia em 1999, a braços com a crise petrolífera, a corrupção, o desemprego - e o terrorismo sem freio do Boko Haram.

Dos 14 candidatos presidenciais, a corrida disputa-se entre dois previsíveis vencedores: o actual Presidente que concorre a um segundo mandato, o cristão Goodluck Jonathan do Partido Democrático do Povo (PDP), e o muçulmano Muhammadu Buhari, apoiado pelo Congresso Progressista (APC, na sigla inglesa).

Ambos já se tinham enfrentado nas eleições de 2011. Os resultados, contestados por Buhari, resultaram numa onda de violência religiosa, com centenas de mortos no Norte do país, maioritariamente muçulmano.

A ameaça do Boko Haram

E se um desfecho idêntico foi afastado pelos dois oponentes principais - que ontem se comprometeram em manter a paz e a estabilidade seja qual for a sentença das urnas -, as autoridades sabem que terão de lidar com um imponderável: o Boko Haram (BH).

O grupo terrorista, que este mês jurou lealdade ao Estado Islâmico e continua a manifestar a oposição à realização de eleições, foi a razão apontada para a votação ter sido adiada dias antes da data original, 14 de Fevereiro.

Na altura, e tendo sido criada uma força regional - com efectivos do Chade, Níger e Camarões - para rechaçar o BH dos estados de Adamawa, Borno e Yobe no Nordeste nigeriano, Goodluck Jonathan afiançou que haveria tempo e forma de neutralizar os terroristas.

O Presidente quis fazer crer que se conseguiria em seis semanas o que não foi possível em seis anos: desde 2009, o BH já matou pelo menos 13 mil pessoas. Os militares dos países vizinhos (todos mais pobres do que a Nigéria) conseguiram recapturar mais de 30 localidades dominadas pelos islamistas e dizem ter libertado Adamawa e Yobe. Mas no estado de Borno, o BH continua forte.

Esta semana foi tornado público mais um ataque dos homens liderados por Abubakar Shekau que, na retirada de Damasak, junto à fronteira com o Níger, terão raptado cerca de 500 mulheres e crianças.

A informação é negada pelo Executivo nigeriano - o mesmo que, há quase um ano, foi criticado por ter menorizado o rapto das mais de 200 alunas de Chibok, ainda desaparecidas. Goodluck Jonathan, na semana passada, insistiu na mesma tecla, à BBC: “Tenho esperança que não vai demorar mais do que um mês para recuperarmos territórios que até aqui estiveram nas mãos (do BH)”.

Já hoje, no evento mediático, é previsível que o grupo ataque. Mais de um milhão de refugiados, que abandonaram as casas para escapar ao BH, vão poder votar. E foi proibida a circulação automóvel das 8 às 17 horas, período em que se desenrola a votação.

O PDP, no poder desde 1999, enfrenta competição de peso. Muhammadu Buhari, que nos anos 80 governou com mão de ferro após um golpe de Estado (sendo deposto de semelhante forma), é agora visto como um salvador da pátria, o homem que pode fazer frente à corrupção, à pobreza, a uma taxa de desemprego que ronda os 24% e ao terrorismo. Sobreviveu a um ataque dos homens do BH no ano passado, que ele rotula de “intolerantes mascarados de muçulmanos”, opinião que lhe tem valido a intenção de voto também dos cristãos.

O vencedor das eleições de sábado (se ficar decidido à primeira volta) terá também de lidar com a crise internacional do preço do barril de crude. A Nigéria é o maior produtor de petróleo de África e o ouro negro totaliza 70% das receitas do Estado. Esta dependência implica, face à quebra do preço do petróleo, um corte na despesa pública. O futuro Presidente nigeriano terá de encontrar formas de criar rendimento e emprego num país que, também por causa da instabilidade política, se tornou menos apelativo ao investimento.

ana.c.camara@sol.pt