Opiniao

A França e a concorrência

A UE concedeu a França dois anos adicionais para colocar o seu défice orçamental abaixo dos 3% do PIB. O BCE discordou. Em seis anos, é a terceira vez que a França obtém um adiamento. Aliás, em 2003 a França e a Alemanha ultrapassaram os limites impostos pelo Pacto de Estabilidade ao défice das contas e nada lhes aconteceu. Ora em 2001 Portugal havia furado esse tecto e logo foi alvo de um procedimento por défice excessivo.


Comentava recentemente o semanário The Economist ser «difícil evitar a conclusão de que (na UE) os grandes países são dispensados de cumprir regras a que os pequenos países são obrigados». No mesmo artigo se dizia que os ministros das Finanças da Irlanda e de Portugal reclamaram contra as facilidades dadas à França, pois os seus países haviam sido submetidos a duras doses de austeridade.

É curioso que entre nós não se tenha falado disto, depois de indignadas críticas a Maria Luís Albuquerque por ter feito valer os interesses portugueses na questão grega. Mas compreende-se. Quando foi eleito Presidente de França, François Hollande também alimentava a quimera de que iria acabar com a austeridade (de resto muito suave em França); depois foi forçado a alterar o rumo e a mudar, isso sim, a política económica e financeira francesa. Algo que a esquerda do PS francês e os nossos críticos radicais da austeridade não aceitam. Para eles, hoje o governo francês é um traidor.

De facto, Manuel Valls, o presente primeiro-ministro de França, é um político de centro-esquerda, que em tempos se atreveu a propor que o PS francês deixasse de se chamar 'socialista', pois tal designação deixara há muito de fazer sentido. Ora o governo de M. Valls está finalmente a lançar algumas reformas, que outros países europeus já haviam concretizado - por exemplo, a Alemanha, com Gerhard Shroeder, o chanceler antecessor de Angela Merkel - e que o primeiro-ministro italiano Renzi tenta agora realizar no seu país.

Mas a França tem uma aversão visceral ao funcionamento do mercado e da concorrência. Por isso os eleitores não perdoam a Hollande nem ao novo primeiro-ministro. Embora várias multinacionais francesas tenham sucesso no mercado mundial, para a maioria dos franceses a globalização é uma ameaça aos seus privilégios e protecções. Daí a tendência estatizante que, em França, não é exclusiva da esquerda. 

Um exemplo: o governo de Valls quer acabar com leis que proíbem os autocarros privados de passageiros de fazerem concorrência à empresa estatal de caminho-de-ferro nas ligações entre as principais cidades do país. Outro caso: a protecção às centrais nucleares francesas, produtoras de electricidade, evitando conexões eléctricas na fronteira de França com Espanha - imobilismo que impedia exportar para a Europa electricidade portuguesa ou espanhola, quando houvesse excedentes. Só há poucas semanas este problema foi ultrapassado, o que revela uma nova mentalidade no governo de Paris - que pode não durar muito. 
 
Em França o Estado gasta 57% do PIB. É demasiado e trava a competitividade das empresas do país. Veremos se o actual executivo francês, com o apoio do 'convertido' Hollande, será capaz de enfrentar as enormes resistências que, há muito, prejudicam a modernização de França, com sucessivos recuos dos políticos reformadores perante protestos e manifestações.