Sociedade

Relatório de Segurança Interna: Menos operações contra o crime

A criminalidade desceu 6,7% no ano passado, atingindo os valores mais baixos desde 2003, incluindo os crimes violentos (menos 5,4%). Ao SOL, a secretária-geral do Sistema de Segurança Interna (SSI), Helena Fazenda, considera que os dados são resultado de uma «maior consciencialização do cidadão na sua protecção e dos seus bens» e, por outro lado, do «esforço colectivo e convergente de todas as entidades envolvidas na prevenção, investigação e reacção (judiciária)».  
 


No entanto, pelo terceiro ano consecutivo, a proactividade policial dá sinais evidentes de quebra: o número de crimes directamente associados a operações efectuadas pelas forças de segurança (que representam 13% da criminalidade geral) diminuiu 14% no ano passado, atingindo os valores mais baixos dos últimos 10 anos.
Crimes como o tráfico de droga, o auxílio à imigração ilegal e a condução com álcool (o quarto mais participado) fazem parte desta categoria e todos eles registaram descidas em 2014, segundo o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), apresentado esta segunda-feira. 

Menos operações e apreensões 
«Há uma redução clara do efectivo e, por outro lado, graves constrangimentos ao nível dos meios, sobretudo viaturas, que estão envelhecidas ou passam meses nas oficinas», explica fonte policial. E «sem homens nem meios suficientes não há milagres», conclui. 

Alguns indicadores do RASI falam por si. Em 2014, houve 47.209 operações de fiscalização rodoviária, menos 3.149 do que no ano anterior. No controlo de estrangeiros, o SEF deteve 158 imigrantes em situação irregular (menos 1.540) e notificou 3.265 para abandonarem voluntariamente o país, menos 13% do que em 2013. 

No combate ao tráfico de droga, o desempenho de PSP, GNR e Polícia Judiciária continua a piorar: 4.287 detidos (menos 23), 4.968 apreensões (menos 31, excepção para o haxixe e ecstasy), embora tenham sido apreendidas maiores quantidades de cocaína e haxixe. 

Na investigação criminal, alguns indicadores mostram que a eficácia das polícias também decaiu: houve 38.104 arguidos (menos 29%, embora a GNR não tenha fornecido os seus dados), 11.658 buscas (menos 16%), 1.872 veículos e 3.917 armas apreendidas (menos 10.566 e 1.584, respectivamente). Houve ainda 12.902 detenções em processos-crime - valor que, no entanto, não é possível comparar com o de 2013, pois nesse ano a contabilização das polícias englobou outro tipo de detenções. De resto, tal como já aconteceu no ano passado, fica por conhecer o número global de detenções e de presos preventivos, uma vez que estes dados não foram fornecidos ao gabinete de Helena Fazenda. 

Contrariando a tendência global de descida, o furto por carteirista (13.984, mais 36%), os roubos em transportes públicos (614, mais 26%) e as burlas informáticas (4.408, mais 30%) foram os crimes que mais aumentaram em 2014. Alguns crimes contra menores também registaram um agravamento importante, caso do abuso sexual de crianças (1.011, mais 18%), maus-tratos (360, mais 23%) e lenocínio e pornografia (136, mais 40%). 

Jihad e neonazis são ameaça 
No capítulo das ameaças à segurança interna, o RASI destaca vários fenómenos criminais recentes. Desde logo, a «ameaça do terrorismo jihadista, de matriz islamista, conotado com a Al Qaeda, com o Estado Islâmico e grupos afiliados», sendo que há uma «tendência de participação de alguns concidadãos, na sua maioria convertidos, tanto como combatentes ou em domínios de recrutamento e encaminhamento de elementos para a Síria ou Iraque». 

Perante este novo cenário, a extrema-direita, nomeadamente o movimento skinhead neonazi, tentou ganhar terreno. «Alguns dos seus sectores tentaram explorar, sem grande sucesso ou impacto, potenciais sentimentos anti-islâmicos, criando uma associação indevida com as acções terroristas jihadistas», lê-se no documento. Um outro fenómeno merece, segundo o SSI, «acompanhamento atento» ao longo deste ano: «Foram referenciadas estruturas criminosas na posse de armas de calibre de guerra/militar».

sonia.graca@sol.pt