Opiniao

O dia em que Maria Barroso votou contra Mário Soares

Levantaram os bilhetes em balcões da Lufthansa espalhados pela Europa. Alguns fizeram viagens intermédias para despistar a PIDE.

antes do silêncio de amanhã, partilho o que me leva a não votar no partido socialista. não utilizarei argumentos estafados nem entrarei em retóricas ideológicas. conto-lhe o que aconteceu a 19 de abril de 1973, data da fundação do ps.

já o sabemos. vinte e seis homens e maria barroso reuniram-se no colégio popular de bad munstereifel, a 30 km de bona, e foi nessa quinta-feira santa, após três dias de fortes discussões que, à volta de uma enorme mesa rectangular, 20 votaram a favor e sete contra a transformação de um movimento político num partido. entre os que votaram contra encontrava-se a mulher de mário soares – esse é o pretexto para lhe contar hoje esta história da história. lá chegaremos.

uns meses antes, tito de morais enviara uma circular aos militantes da asp (acção socialista portuguesa) para que estivessem atentos e se preparassem porque, mais cedo do que tarde, chegaria o momento em que todos deveriam assumir as suas responsabilidades. contudo, nem todos pensavam que essa era a melhor via – face ao endurecimento de marcello caetano, os que se mantinham em portugal não estavam seguros da vontade de soares. ribeiro dos santos, então administrador da fundação gulbenkian, chegou a afirmar que nem para um grupo de bilhar existiam condições. «somos apenas uns amigos que concordam politicamente com as ideias de mário soares», confidenciou entre militantes da asp.

adiante. os convidados para a magna reunião levantaram os seus bilhetes nos vários balcões da lufthansa espalhados pela europa. a influência de soares fora suficiente para conseguir o financiamento total da operação por parte do spd alemão através da fundação ebert, seu braço ideológico. os que estavam em portugal fizeram viagens intermédias para despistar a pide. gustavo soromenho marques, mário mesquita e arons de carvalho pararam em paris; maria barroso, antónio arnaut e fernando valle passaram por zurique. aos ‘portugueses’ juntaram-se soares e jorge campinos, que viviam na capital francesa, rui mateus na suécia e tito de morais em roma.

reuniram-se no aeroporto de bona, onde uma mulher, elke esters, de meia--idade e tipicamente germânica, se surpreendeu com a forma como soares gritava cada vez que surgia algum dos camaradas. a senhora esters limitou-se a levá-los com esforço para a camioneta. ninguém a prevenira que os portugueses eram assim. a viagem lá se fez, os militantes políticos reconheceram os quartos duplos e ninguém se queixou. aquecimento, casas de banho amplas, uma vista extraordinária que cada um dos que lá estiveram descreve ainda hoje ao pormenor. antes de se sentarem na mesa rectangular havia que resolver um pequeno detalhe doméstico, pormenor aliás que levou às lágrimas alguns dos fundadores. é que os alemães desconheciam que soares e maria de jesus eram casados. a ela deram a chave número 11 e a ele a 12.

salgado zenha não esteve na alemanha por razões de segurança e jaime gama por estar a cumprir o serviço militar. antónio macedo, cal brandão, raul rego, coimbra martins e antónio campos foram alguns dos que se inscreveram e não compareceram. a média de idades estava nos 41 anos – mário mesquita era o mais novo e a maioria considerava-o como a grande esperança política.

o jovem mário morava num quarto alugado perto da gulbenkian e passava horas infindas na pastelaria grã-fina, café que servia de sala de estudo e ponto de encontro com arons de carvalho, nuno godinho de matos e jaime gama. andavam sempre juntos. uns meses antes do encontro na alemanha quase foram presos num episódio que nunca resisto contar. mesquita, arons e gama tinham resolvido escrever o nome de zenha em vários pontos da cidade universitária. arons ficara no carro, um austin da mãe, enquanto os outros dois agitavam um spray comprado na rua da rosa. foram surpreendidos por um polícia, felizmente com mais trinta anos e trinta quilos, e a corrida pela cidade universitária abaixo revelou-se eficaz. acabaram a noite a comer uma sandes no gambrinus e a fazer contas à vida.

regressemos à alemanha. mário mesquita está sentado a uma das cabeceiras da mesa. tem mário soares à sua direita e roque lino à esquerda. na sua última intervenção faz-se silêncio. o jovem defende olhos nos olhos com soares que a asp possui uma estrutura frágil e que a sua transformação em partido poderá deitar tudo a perder. acreditava que o movimento deveria alargar-se primeiro a outras correntes socialistas e maturar o processo. e alegou que a vontade de soares era motivada pela ideia de refazer a unidade à esquerda com os comunistas, o que seria pernicioso. mário mesquita, aos 23 anos, foi o líder da facção dos que votaram contra.

soares teve a última palavra – maria de jesus, no outro lado da mesa, ouviu-o com toda a atenção. começou por perguntar se as pessoas percebiam que o momento era decisivo, perguntou-o e citou logo a seguir humberto delgado: «temos de passar do ódio domesticado à luta aberta, temos que o fazer». e criticou os renitentes dizendo que isso reflectia apenas o medo das responsabilidades.

muitos aplausos. votação. e quando maria de jesus levantou o braço e indicou que votava contra a opinião do homem da sua vida, soares baixou a cabeça. fez a seguir uma declaração de voto em que defendeu que, independentemente da sua posição, havia um princípio de coerência e de solidariedade pelos que representava de que não abdicava. a isso chamou coerência.

no fim escreveu-se a acta. «eram 18 horas», terminava assim o texto que testemunhava o (re)nascimento do ps, quase um século depois de antero de quental e josé fontana o terem feitos noutras circunstâncias. vinte votos a favor e sete contra. cantou-se o hino. tiraram-se fotografias com uma máquina soviética que seruca salgado comprara em londres. a maioria bebeu à noite.

todos estavam convencidos de que era possível um dia ver a democracia à luz do dia. uma democracia que não poderia existir sem divergência, rotatividade do poder e orgulho na essência do que distingue os partidos uns dos outros. é por tudo isto, e por respeito a esse dia, que nunca votaria no ps nestas eleições. como maria barroso, em 1973, acredito no valor da coerência e na necessidade de parar para pensar. só assim será possível um recomeço.