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Boa escolha

Os dois candidatos à sucessão de Sócrates,Seguro e Assis, dão garantias de uma oposição responsável e colaborante. Sem trauliteirices nem populismos inoportunos.

as candidaturas de francisco assis e de antónio josé seguro às directas que marcarão o ps pós-socrático nem por isso – bem pelo contrário – animaram as hostes socialistas.

mal habituados nos corredores do poder depois de anos de maioria absoluta e mais um par de poder relativo, os socialistas estão ainda na ressaca da derrota eleitoral de 5 de junho.

antónio costa era o sucessor natural de josé sócrates e o preferido do ps instalado. mas está indisponível.

percebe-se. não pela fundamentação – ele, que foi o primeiro sampaísta a sair em defesa da candidatura do secretário-geral do partido à câmara de lisboa no final dos anos 80, sabe muito bem que a dedicação à autarquia da capital não é inconciliável com a liderança do ps na oposição –, mas pela inoportunidade.

ser líder do maior partido da oposição imediatamente após este ter sido apeado do poder e num momento em que passou a haver uma outra e sólida solução de governabilidade, assente numa inequívoca maioria absoluta no parlamento, não é fácil.

e a história, tanto do ps como do psd, desaconselha-o: líder da oposição que tenha assumido as funções nas circunstâncias que se perspectivam para o próximo secretário-geral socialista não passa de líder de transição (que o digam marcelo rebelo de sousa ou marques mendes, no psd; ou jorge sampaio e vítor constâncio no ps).

com uma condicionante ainda maior no circunstancialismo actual: o programa de governo não pode fugir ao acordo assinado pelo executivo cessante do pscom a união europeia, o banco central europeu e o fundo monetário internacional.

o comprometimento e a co-responsabilização do próximo líder do ps com as medidas inadiáveis e impopulares que o governo psd/cds vai ter de tomar é total e intransponível.

e é-o tanto para francisco assis, que esteve na primeira linha com sócrates em todo este processo, como para antónio josé seguro, não obstante o seu afastamento, praticamente desde a primeira hora, em relação ao directório socialista socrático.

ora, um como o outro apresentam-se com a sensatez de assumirem os compromissos legados pelo líder cessante.

e ambos têm a qualidade, absolutamente vital para o interesse nacional na actual conjuntura, de estarem abertos ao diálogo com o novo governo.

seguro e assis podem não galvanizar o ps – o que não tem incoveniente algum quando não há eleições num horizonte próximo –, mas têm boa formação, capacidade de negociação e razoabilidade.

como ficou, aliás, provado no lamentável episódio dos votos do rio de janeiro.

tanto assis como seguro afastaram liminarmente a hipótese de o ps impugnar os resultados apurados no círculo fora da europa, na sequência da rejeição do requerimento do ps para que os votos do rio de janeiro não fossem contabilizados, por eventual fraude.

se a contabilização desses votos em nada altera os mandatos atribuídos e é irrelevante para os resultados finais apurados, a impugnação serviria apenas e tão só como expediente para atrasar a posse do novo parlamento e do novo governo.

perder tempo e inultimente é tudo o que país não precisa.

e é bom sinal que o próximo líder do ps, seja seguro ou seja assis, não ande a reboque dos caciques trauliteiros do largo do rato.

assis e seguro dão garantias de uma oposição responsável e colaborante, sem trauliteirismos nem populismos improdutivos e indesejáveis.

quanto ao resto, terão tempo para fazer vingar, ou não, um novo estilo de liderança no ps.

sócrates saiu de cena, mas o pssó agora vai começar a conviver com o regresso à oposição.

e a esta, e ao seu líder, colocam-se desafios e responsabilidades quase tão exigentes como aqueles com que se defronta o líder do psd e novo chefe do governo.

mario.ramires@sol.pt