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A primeira impressão

Passos não precisou de uma segunda oportunidade para causar uma boa primeira impressão – mesmo com as recusas de ministeriáveis e a derrota de Nobre no Parlamento.

eduardo catroga e vítor bento recusaram o convite de passos coelho para se ocuparem de duas das mais importantes – cruciais – pastas do novo governo: o primeiro, um superministério da economia; o segundo, o ministério das finanças.

estas duas recusas, de dois reputados conhecedores das contas públicas e da desbaratadora máquina do estado e do funcionamento dos mercados, das empresas e da economia, nem por isso fizeram desmerecer as apreciações positivas sobre o elenco governativo empossado nesta semana.

passos soube gerir a formação do governo e surpreender cumprindo o prometido: dos novos 11 ministros, só quatro são do psd, tantos quantos os independentes e apenas mais um do que os do cds.

eo superministro da economia, álvaro santos pereira, e o ministro das finanças, vítor gaspar, sendo muito pouco conhecidos da opinião pública, têm créditos firmados nos meios académicos e nos respectivos sectores (e são muitos no primeiro caso).

ora, o factor novidade associado a um currículo de competência e ao desprendimento da dependência político-partidária só beneficia a primeira imagem do governo.

eduardo catroga seria um ministro com peso político e com natural autonomia.

mas catroga já foi ministro das finanças e é uma cara associada ao passado dos governos cavaquistas.

já vítor bento não. está absolutamente isento de responsabilidades governativas no passado, mas tem um peso político próprio – que o facto de ser conselheiro de estado reforça –, e uma reconhecida autonomia. e é pena que não tenha querido aceitar o sacrificante desafio, porque reunia as condições essenciais para poder ser um eficaz ministro das finanças – que tem de saber e de poder impor as suas regras para cumprir os objectivos financeiros a que se propõe ou, como é o caso, que já lhe estão impostos, e que são críticos.

como catroga e bento, tanto álvaro santos pereira como vítor gaspar têm currículo técnico, mas, ao contrário daqueles, não têm peso político.

e vão ter que ter. tarefa que, obviamente cabendo sobretudo aos próprios, em muito dependerá da vontade e da capacidade que o primeiro-ministro tiver para os reforçar, no próprio governo, nos partidos da coligação e no país.

passos coelho foi claro no discurso de posse. um discurso de austeridade, mas também de solidariedade; um discurso de mobilização para os sacrifícios, mas também de esperança.

o anúncio de que não nomeará novos governadores civis, para sinalizar o exemplo de contenção, é um bom sinal.

primeiro, porque as competências que lhes estão atribuídas são facilmente distribuídas por outros, sem prejuízo do serviço ao cidadão e com imediato proveito do estado.

segundo, porque vinca a mensagem de que os lugares clientelares e de pagamento de favores – de que os governos civis há muito são exemplo – têm os dias contados.

terceiro, porque decide e faz sem se deixar condicionar pelas amarras dos formalismos ou legalismos exacerbados e inconciliáveis com a necessidade de acção e execução inadiáveis.

e também o pedido de alteração da reserva de voo para bruxelas da classe executiva para económica tem o que se lhe diga. dita a lei, uma daquelas que nunca foram cumpridas, que os governantes só devem voar em classe executiva quando a duração do voo for superior a quatro horas. passos cumpriu-a.

sujeita-se às críticas de populismo ou de falta de dignificação do cargo de chefe do governo, mas o facto de ser fiel a si próprio e de, assim, dar mais um sinal da exigência de contenção e poupança não só não é condenável como é de elogiar.

como é de elogiar o cumprimento do compromisso de apoiar a candidatura de fernando nobre à presidência da assembleia da república. o erro, neste caso, vinha de trás. cumpriu a promessa e acabou por encontrar uma solução feliz – assunção esteves –, cuja votação esmagadora ‘apagou’ os efeitos da derrota de nobre.

nos primeiros actos como primeiro-ministro, passos não perdeu, de facto, a única oportunidade para causar uma boa primeira impressão.

mario.ramires@sol.pt