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Seguro ou de transição?

Para mim, não há líderes de transição. Eu não sou um líder de transição...». Foi o que ele disse, mal entrou na sede do Largo do Rato pela primeira vez como secretário-geral do PS.

antónio josé seguro não podia dizer outra coisa no dia seguinte a ter conquistado a liderança dos socialistas com uma folgada vantagem sobre francisco assis, o candidato que reunia a preferência dos que estiveram mais próximos da direcção (e do governo) de josé sócrates... mas obviamente não dos militantes.

ao longo dos últimos seis anos, seguro nunca fez parte dos projectos de sócrates para o governo ou para lugar de destaque no grupo parlamentar ou no partido.

esteve sempre, ainda que discretamente – demasiado até para muitos dos seus seguidores e críticos do socratismo –, na frente dos mais cépticos em relação às linhas de orientação da direcção do partido e do executivo. e, por isso, também na primeira linha para a sucessão de sócrates. aliás, sendo ambos indefectíveis guterristas e ambos do ps de castelo branco (o actual líder filho de penamacor e o anterior enteado da covilhã), sempre foram divergentes – desde a primeira disputa entre eles, pela liderança da estrutura local beirã, que seguro perdeu para sócrates há mais de duas décadas por uma diferença mínima de votos (reclamaram os vencidos que terá sido por um ‘chapéu’).

no rato, recebido com aplausos e flores por aqueles de quem sócrates se despediu há dias com um comovido «adoro-vos», seguro, depois de recusar o estatuto de líder de transição, justificou: «apresentei um projecto ao partido socialista no sentido de, durante quatro anos, preparar uma proposta política alternativa, que seja merecedora da confiança dos portugueses e que coloque portugal numa trajectória sustentável de crescimento económico».

a tarefa não é fácil. nunca foi para quem sucedeu a um líder forte – e sócrates foi o líder mais forte da história do ps e o único a conquistar a maioria absoluta – e herdou o partido apeado do poder ao fim de anos no governo.

liderar a oposição frente a um governo recém-eleito com maioria absoluta é missão ingrata. no ps como no psd.

principalmente quando o partido em causa, agora na oposição mas então no governo, se comprometeu com um conjunto de medidas draconianas – como as do memorando da troika – cuja implementação deixou como legado para o futuro (actual)governo.

é claro que nem tudo são espinhos. ou não fossem os autarcas socialistas dos primeiros a respirar de alívio com a vitória do psd no dia 5 de junho – se alguém há-de pagar a factura da inevitavelmente onerosa resposta à crise nas autárquicas de 2013 serão os candidatos dos partidos no poder.

mais: sendo que as autárquicas a meio das legislaturas sempre serviram para castigar o governo e sendo que o governo não tem tempo a perder nem folga na implementação das medidas de austeridade, e sendo ainda que a fasquia do pspara aquelas eleições está baixa, não é difícil prever que o mais natural é que os socialistas liderados por seguro delas saiam como vencedores.

ora, uma previsível vitória do ps nas autárquicas naturalmente reforça o líder do partido e reconhece-lhe o direito de disputar as legislativas seguintes.

antónio josé seguro tem, pois e apesar de tudo, boas razões para não se considerar um líder de transição.

e tem tempo para se fazer e impor a sua liderança, mesmo entre as cúpulas que agora estiveram do outro lado da trincheira.

assim sendo, não se podem classificar como um bom augúrio as primeiras declarações do novo líder da oposição, recusando-se já a dar o seu aval a medidas do novo governo que ultrapassem o que consta do memorando da troika, antecipando o voto contra uma eventual revisão da constituição que não se reduza a meros «aperfeiçoamentos» ou disparando contra o imposto extraordinário como se fosse um líder da esquerda mais feroz ou radical.

não é esse o melhor caminho para se afirmar como alternativa de poder «merecedora da confiança dos portugueses», nem muito menos para colocar portugal «numa trajectória sustentável de crescimento económico».

num momento tão crítico, portugal e os portugueses precisam de uma oposição responsável, sem populismos nem demagogias contraproducentes, e, sobretudo, de boa-fé.

como, querendo, seguro pode assegurar.

mario.ramires@sol.pt