Opiniao

Francisco Louçã é um revolucionário sem ternura

Um texto difícil, uma memória que não me é fácil. Não por ser algo que esconda; na verdade, os dois anos em que militei no PSR foram felizes e cobertos de experiências políticas, ilusões ideológicas e amorosas, desilusões. Mas prometi regressar a Francisco Louçã e cumpro agora o melhor que sei.


em poucas linhas: militei na extrema-esquerda trotskista entre os 19 e os 21 anos. via francisco, por todos conhecido como chico, como a figura que desempenharia um papel na moralização da política portuguesa. os seus discursos eram poéticos e revolucionários; a sua superioridade retórica esmagava; as ideias e a capacidade de liderança indiscutíveis.

nunca se desviava do que considerava essencial, nunca passava noites no bar das palmeiras, sítio de reunião e divertimento dos jovens do psr. muitos bebiam cerveja, alguns fumavam haxixe e todos efabulavam sobre se estariam à altura da revolução quando (e se) ela chegasse.

ouvíamos clash, doors, sex pistols. com o joão aguardela, vocalista e líder dos sitiados, jovem banda ainda desconhecida, organizávamos na companhia do mítico josé falcão as movimentadas e inesquecíveis noites de um tempo que nunca esquecerei.

noites em que francisco raramente aparecia. nunca ficava quando as luzes se apagavam, nunca bebia mais do que uma cerveja, nunca o vi a falar sobre afectos, sobre ser pai ou qualquer outra coisa que o ligasse às pessoas fora da estrita esfera política. mesmo os mais próximos conheciam-lhe as fronteiras; não por acreditarem que ele tivesse segredos, apenas por saberem que a política e o seu exercício eram a única coisa verdadeiramente essencial. mais nada.

um dia perguntei-lhe se tinha amigos de direita. respondeu-me que não, como poderia isso ser possível? manter uma amizade com alguém que, por exemplo, se alistasse no psd e ocupasse um cargo público, seria uma contradição nos termos. para francisco, nunca existiu – e presumo que não exista – separação entre política e amizade ou outra qualquer categoria que distingue o ser humano.

uns comunistas que conheci no caminho diziam-me o pior. que louçã tinha o sangue de antónio neves anacleto, o seu avô materno. que não se podia confiar nele porque a única agenda que defendia era a sua própria – e um dia alistar-se-ia certamente no ps ou no psd. defendi-o sempre desses ódios ideológicos em que os comunistas são pródigos; como poderiam julgar as pessoas pelo percurso de gente da sua família?

apesar da ingenuidade da pergunta, não me arrependo da defesa. a ortodoxia revolucionária de louçã não era discutível – e imaginá-lo a ter um percurso parecido com o avô é tão impossível hoje como era há vinte anos.

mas acredito que, apesar de ele o desvalorizar, isso pesava na sua memória. o anarco-sindicalista antónio neves anacleto fundou o partido comunista e participou no primeiro e histórico congresso do pcp, em 1923.

muito rapidamente abandonou o partido, como aconteceu com tantos anarquistas desiludidos com a evolução dos comunistas para um modelo ferozmente organizado. foi preso, trocou a metrópole por moçambique onde a presença da pide era suave, e só regressou a portugal após o 25 de abril. acabou como deputado do psd na constituinte.

sim, talvez esta memória lhe fosse (ou seja) pesada. certamente sentia que alguns comunistas o olhavam com o sorriso que dedicavam aos arrivistas. algo que nunca foi.

havia uma história que não se importava de contar. um episódio em que o seu nome continua a ser bastas vezes esquecido. a 30 de dezembro de 1972 um grupo de católicos contra a guerra colonial invadiu a capela do rato e avisou o padre joão seabra que durante 48 horas fariam ali mesmo uma greve de fome.

nuno teotónio pereira e alguns outros apelaram a cristãos e não cristãos para que se juntassem à iniciativa. e louçã, com 16 anos, aceitou o desafio e juntou-se ao protesto.

mais de meia centena de pessoas acabaram presas – e o jovem estudante, ateu e revolucionário, a quem todos chamavam chico, esteve preso e isolado durante uns dias. em caxias foi interrogado, pressionado e aos militantes do meu tempo contou sobre a inevitabilidade do medo.

este é o seu grande acto de bravura – e, talvez por isso, não se importasse de o contar aos mais jovens. mas sempre como um exemplo de que era possível um entendimento entre pessoas diferentes. no fundo, ele procurava legitimar a esperança de que, um dia, o psr fosse capaz de influenciar uma plataforma mais ampla.

já não assisti a essa fase da história: saí antes, com o epíteto de jovem burguês condenado ao oportunismo. já não assisti – mas aposto que o chico deve ter outra vez contado a história da tomada da capela do rato para provar aos seus a bondade do nascimento do bloco de esquerda.

do que me lembro mais? de pouca coisa, quase nada. quando o imagino, vejo um idealista que, como a maioria dos líderes, não se desviará para que outros lhe ocupem o lugar. imagino-o outra vez a separar as folhas do jornal combate na sede do psr; recordo-o a criticar a classe política, que rotulava como oportunista; a definir deus como um embuste e a televisão como droga dura que leva à dependência e ao embrutecimento.

recordo-o a definir a história mais como uma tragédia do que como uma epopeia. «porquê?» – perguntei-lhe. «porque é feita de expectativas e estas, a maioria delas, são desfeitas. imaginar o movimento operário tradicional comunista, com socialistas e republicanos, a tomar paris quando as forças de de gaulle estavam a centenas de quilómetros; imaginar o maio de 68, o 25 de abril, a queda do franquismo e todas as expectativas, é viver com a presença da marca da derrota. pensar a história é um exercício trágico e não deixa de ser indispensável por isso. o pensamento de curto prazo é sempre um erro que se paga caro, sobretudo quando o que pensamos é suficientemente grande».

recordo-o a falar sobre o cinismo dos jornalistas, classe que não respeitava por aí além. e das críticas que fazia aos que se viciavam com o poder. e do sorriso fechado quando lhe atirávamos com a média de 19 no iseg, uma das maiores de sempre, e com o brilhantismo de uma tese de doutoramento que – imagine – intitulou turbulência na economia.

um texto difícil, este. paradoxalmente, estive mais próximo dele do que de qualquer outro líder político. mas dos outros sou capaz de falar mais facilmente. do chico é mais difícil. um revolucionário sem ternura, talvez isso o defina em mim.