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Flores e o enterro

O respeito pelos mortos, seus legados, sua memória, e a dignidade no tratamento dos restos mortais (sejam mumificados, enterrados, cremados) diz muito das sociedades e dos valores pelos quais se regem – religiosos e não religiosos.

e os cemitérios, os túmulos, os mausoléus ou os templos mortuários são, além do mais, ricas fontes da história.

os faraónicos templos de luxor, de karnak, de philae ou de abu simbel acrescentaram muito menos ao conhecimento da civilização egípcia do que os sarcófagos (e os instrumentos e técnicas de mumificação) e tesouros encerrados nas pirâmides do vale dos reis – de nefertiti a tutankhamon – ou das mais profanadas de gizé.

daí também que não seja por acaso ou só por devoção, culto ou até morbidez que haja autênticas peregrinações a cemitérios, campas, mausoléus ou templos mortuários – tenham eles sido propositadamente feitos com o objectivo de as receber ou, até pelo contrário, arquitectados para defenderem a inviolabilidade das urnas neles depositadas.

praga, capital checa de riqueza cultural a cada esquina que se dobra, tem mais de três dezenas de cemitérios, desde o turisticamente devassado cemitério judeu no bairro josefov ao elitista vysehrad, de smetana ou dvorak, ou ao deslumbrante olsany, onde o túmulo de kafka se mistura com os de mais cerca de um milhão de defuntos.

olsany tem uma área imensa, onde o turista comum se perde num silencioso labirinto de caminhos ajardinados, pejados de tumbas que enobrecem a arte tumular e obrigam a paragens sucessivas. mais belo ainda no outono, quando as folhas caídas das inúmeras árvores que dão vida ao cemitério cobrem o chão e o transformam no que eles, os checos, comparam com toda a propriedade a caminhos dourados.

perdeu sentido que os cemitérios tomassem as mais belas e mais altas zonas das aldeias, vilas e cidades.

os mortos não podem desfrutar das paisagens e não é por estarem sepultados nos pontos mais altos que ficam mais perto do céu ou melhor chegam à redenção e há muitas outras alternativas para se evitarem os perigos das enxurradas.

mas não perdeu sentido o respeito pelos mortos.

os sinos ainda dobram nas aldeias e até em muitas vilas e cidades de província quando a urna sai da capela ou da igreja e ruma ao cemitério.

perderam sentido as noites longas e dolorosas dos velórios madrugada dentro nas câmaras ardentes em igrejas ou capelas frias e desconfortáveis. e as carpideiras. e as missas infindáveis.

mas o enterro ainda é um ritual com significado para quem parte deste mundo – seu nome, sua memória – e para aqueles que por cá ficam mais uns tempos.

em santarém, o presidente da câmara anunciou nesta segunda-feira o lançamento de um concurso público para feitura do novo cemitério da cidade ribatejana.

diz moita flores, o autarca em questão, que é este o projecto com que quer deixar o seu «ferrete» no município.

um cemitério do mais moderno que há mas com as referências dos «cemitérios românticos» tradicionais portugueses.

no projecto, inclui-se um crematório. que servirá também para complementar os fornos de cremação de lisboa, do alto de s. joão e dos olivais.

no cemitério idealizado por moita flores está prevista a criação de jazigos e de campas onde podem ser depositadas as urnas com as cinzas dos corpos cremados, com a originalidade de possibilitar o respectivo enterro individual – o que é pioneiro em portugal e é muito mais digno do que o destino que tantas vezes lhes é dado, esquecidas numa qualquer arrecadação ou jogadas em locais despropositados, como uma boca de ar do metropolitano, seja em lisboa ou numa outra qualquer grande cidade do mundo.

pode parecer estranho, em tempo de crise económica e financeira e de poupança forçada, uma autarquia lançar nesta altura uma obra desta natureza. haverá outras prioridades, dir-se-á.

mas nos tempos de crise de valores ainda mais profunda, o projecto do novo cemitério de santarém – que é necessário – é exemplar e compensador.

porque honrar os mortos é assumir o passado e colher os seus ensinamentos para o futuro.