Sociedade

Vizinhos queixam-se da PJ

Na Rua General Garcia Rosado, contígua à nova sede da Polícia Judiciária (PJ), em Lisboa, o sossego acabou há cerca de oito meses - ou seja, desde que a construção do edifício ficou concluída e, com ela, a instalação dos aparelhos de ar condicionado. 
 

Desde Agosto passado que os moradores da zona queixam-se do ruído «infernal», como o descrevem, provocado pelas máquinas da polícia de investigação que lhes acabou com o silêncio. Para se ter uma ideia da dimensão do problema, a meio da tarde, por exemplo, pelas 16h, não é possível manter uma conversa nesta rua sem gritar, tal é o barulho que vem dos aparelhos. 

No café da dona Maria, aberto no número 27 da Rua General Garcia Rosado, o ruído já foi tema de conversa e já impediu conversas. «Estou aqui há mais de 60 anos», conta ao SOL a mulher de 85 anos. «Tornou-se horrível e ainda temos esse 'monstro' aí à frente», lamenta. Os moradores apercebem-se, inclusive, de  quando os agentes estão a usar a carreira de treino de tiro existente no edifício: dizem que o sistema de ventoinhas funciona mais rápido, causando ainda mais ruído. Nos prédios rosa e amarelos contíguos à PJ é ainda pior. «Lá, os moradores sofrem mesmo muito com o barulho», testemunha a dona Maria.

E o pior não é, de longe, o que se passa durante o dia, em que «o barulho do ar condicionado  mistura-se com os dos carros, das conversas e dos aviões».

«O pior» - conta Nuno Ventura Pereira, que nasceu e cresceu nesta rua do centro da capital - «é que durante a noite, às cinco ou às seis da manhã, os aparelhos disparam ao ponto de nos fazer acordar». 

As queixas têm-se sucedido, sobretudo à Junta de Freguesia de Arroios, que assumiu o papel de intermediária no caso. «A Junta tem mantido contactos regulares com a PJ no sentido de resolver a questão», explicou ao SOL a presidente, Margarida Martins, que já marcou, inclusive, encontros e reuniões entre as partes naquele local para tentar encontrar uma solução. «Neste momento, sabemos que a empresa que instalou os ares condicionados está a fazer novas avaliações ao ruído», conta a autarca. «E tenho autorização para dar os contactos dos técnicos aos moradores, para estes lhes poderem ligar às cinco da manhã, quando os aparelhos disparam».

Este é um problema da responsabilidade da PJ, tendo a Câmara Municipal de Lisboa (CML) responsabilidade ao nível da fiscalização do ruído. Mas, questionada pelo SOL, a CML não esclareceu se já procedeu a alguma fiscalização.

Ministério pede solução ao empreiteiro

Ao que o SOL conseguiu apurar,  as queixas já foram comunicadas à PJ e ao Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos da Justiça (IGFEJ), ambos sob tutela do Ministério da Justiça. «Após alguns moradores dos edifícios contíguos terem apresentado queixa, na altura em que estava a ser finalizada a nova sede da PJ, foi efectuada uma avaliação à intensidade sonora no local por uma entidade credenciada», explicou ao SOL fonte oficial do Ministério. E, «com esta medição, constatou-se que nos edifícios adjacentes à nova sede da PJ, na rua General Garcia Rosado, a intensidade sonora ultrapassava os valores regulamentares». Ou seja, os moradores têm todos os motivos para contestar.

O problema está agora nas mãos do empreiteiro, a Opway, que, acrescenta a mesma fonte do MJ, «também foi responsável pelo projecto» do ar condicionado. «Foi solicitado à referida entidade que apresentasse uma solução para o problema e que a mesma fosse implementada como a maior brevidade possível», acrescenta. «A solução apresentada pelos projectistas já foi implementada pela Opway, estando neste momento o IGFEJ a aguardar os resultados do novo estudo à intensidade sonora e à sua conformidade com a legislação em vigor», conclui a fonte do MJ. Enquanto aguardam os resultados da nova avaliação, os moradores garantem não sentir qualquer diferença. «O barulho é o mesmo», diz Nuno Ventura Pereira, que  tem poucas esperanças de que alguma coisa mude: «É como David a lutar contra Golias».

sonia.balasteiro@sol.pt