Elogio da resistência

Regresso do último adeus a um amigo muito querido, Tolentino de Nóbrega, e aproveito a sugestão do título da última crónica da Inês Pedrosa aqui no SOL, Elogio da amizade, para propor um Elogio da resistência: da resistência contra o tempo, contra as adversidades e prepotências dos tempos, contra a morte – enfim. Porque só…

Helder foi o resistente de uma obra poética sem paralelo desde Pessoa. Oliveira desafiou a própria duração temporal da vida humana com a resistência incomparável da sua paixão cinematográfica, para além das épocas e das modas. Silva Lopes resistiu às vagas desencontradas do pensamento económico e ousou ser heterodoxo, desconcertante e até contraditório, mas sabendo manter-se fiel a si mesmo.

Finalmente, Tolentino de Nóbrega foi um exemplo verdadeiramente admirável de resistência em Portugal – e, sem dúvida, o mais admirável nos últimos quarenta anos da vida madeirense – a tudo aquilo que pretende oprimir a liberdade da palavra impressa e a nobreza essencial do jornalismo.

Permitam-me que fale aqui sobretudo de Tolentino, e não apenas pela nostalgia de uma amizade que nos unia desde os longínquos verdes anos do Comércio do Funchal – esse pequeno jornal dos tempos da resistência ao salazarismo e que seria a nossa escola comum. 

Não têm faltado justas palavras de celebração das obras que Helder e Oliveira nos legaram, tal como Silva Lopes foi evocado por múltiplas vozes dos meios económicos e políticos. Já Tolentino, embora comovidamente lembrado por muitos amigos e colegas de profissão, não conheceu as honras de idêntica notoriedade. 

Porque foi um homem fulminado pela morte quando a sua energia profissional e cívica lhe prometia ainda longos anos de acção profícua. Porque adoptou por opção e paixão, como lugar de vida e trabalho, a ilha onde nascera há 63 anos. E porque abraçou uma profissão – durante largo tempo partilhada com a de professor de artes visuais – cujo estatuto social e reconhecimento público não são equiparáveis às de artistas e economistas famosos. 

Era difícil, aliás, encontrar alguém menos receptivo às tentações da celebridade ou ao exibicionismo mediático do que Tolentino de Nóbrega. A sua modéstia era natural, espontânea, idiossincrática. Tal como o eram a coragem e a integridade com que desempenhou as funções de correspondente do Público na Madeira, apesar dos riscos e ameaças que o perseguiram (não sendo poupado sequer a dois atentados bombistas do movimento terrorista Flama, desaparecido de cena assim que a autocracia jardinista se implantou confortavelmente na região).

Num depoimento ao Público, o jornal onde nos juntámos depois do Comércio do Funchal, lembrei que Tolentino vivia a sua exemplar ousadia cívica “como quem respira”. Numa terra onde persistiu durante quase quatro décadas um estado de excepção democrática, com a complacência do poder central e das instituições judiciais, era preciso ser capaz de um heroísmo quixotesco para enfrentar essa mistura de despotismo, impunidade e boçalidade que caracterizavam o comportamento do soba regional, perante a cobardia e submissão quase generalizadas. Pois Tolentino foi esse herói sem pretensões de o ser – e que, de resto, consideraria ridículo vangloriar-se desse papel.

Por trágica ironia, Tolentino já não pôde fazer a cobertura das primeiras eleições madeirenses sem Jardim. Mas seria injusto esquecer que o futuro presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, quis deixar uma marca de ruptura com o passado, lembrando Tolentino como “um dos nomes maiores do jornalismo”, que “sempre defendeu (…) a liberdade de expressão e opinião”.

P. S. – Por lapso a que sou alheio, o título da crónica anterior – Uma Madeira Nova? – apareceu publicado sem o ponto de interrogação. Tolentino e eu bem gostaríamos de poder um dia dispensá-lo. Mas, infelizmente, ainda não chegámos aí.