Internacional

A queda de Rodrigo Rato, um homem que chegou a liderar o FMI

Rodrigo Rato, que foi ontem detido em Madrid por suspeita de branqueamento de capitais, fraude e ocultação de bens, chegou a ser apontado à presidência do Governo espanhol e acabou por ser director do FMI. Desempenhou, ainda assim, o mais relevante cargo na esfera económica internacional alguma vez ocupado por um espanhol nas últimas décadas.

Ministro da economia de 1996 a 2004 (PP, com José Maria Aznar), Rato tinha mesmo o cargo de vice-primeiro-ministro (enquanto Mariano Rajoy era apenas mais um ministro).

 

Nesses anos, nos quais acumulou grande influência nos meios económicos e financeiros, Rato e Aznar concluíram as grandes privatizações iniciadas antes pelo PSOE, nos mais diversos sectores (tabaco, energia, companhia aérea, telecomunicações): Telefónica, Iberia, Endesa, Argentaria, Tabacalera.

 

Braço direito de Aznar, esteve perto de se tornar chefe do Governo de Espanha. Aznar conta numa biografia que o convidou duas vezes para ser o seu sucessor, mas terá recusado.

 

Em 2003, conta ainda Aznar, deu finalmente o passo em frente, mas o então líder do PP acabaria por escolher Mariano Rajoy. Nas eleições de 2004, o PP perde (com Rato a número dois da lista de Rajoy) e, três meses depois, sai para director executivo do Fundo Monetário Internacional.

 

Deveria ter ficado cinco anos, mas apenas cumpriu três. Em 2009 obteve o apoio de Rajoy para ser nomeado para a presidência da Caja Madrid, mais tarde Bankia, na altura a quarta entidade bancária de Espanha.

 

E foi precisamente a passagem por esta entidade bancária que deu origem a uma investigação fiscal e policial que dura há três anos e que levou à sua queda.

 

Em finais de 2014 descobriu-se que os principais executivos do Bankia usavam cartões de crédito com ‘plafonds’ altos para complementar (de forma escondida das Finanças) os seus rendimentos. Assim, compravam obras de arte, relógios de luxo, pagavam restaurantes como forma de complementar os salários, não declarando esses valores ao Fisco.

 

Tudo isto se passou em plena crise económica. O caso, conhecido como "Cartões Black" [a cor do cartão de crédito] afectou politicamente o PP e Rato pediu a sua suspensão temporária no partido.

 

Também começou a ser investigado por branqueamento de capitais, após ter beneficiado de uma amnistia fiscal desenhada pelo próprio PP e aprovada por Rajoy em 2012.

 

Além disso, ainda está a ser investigado por ter cobrado um salário de seis milhões de euros ao banco de investimento Lazard, no qual trabalhou como assessor, e que foi a entidade financeira que fez o relatório sobre a entrada em bolsa do Bankia. O Lazard fez esse relatório quando Rato já era presidente do Bankia.

 

Acabou por ser detido na noite de quinta-feira, enquanto a polícia revistava a sua casa - num dos melhores bairros de Madrid, bem como o seu escritório. A imagem que fica para os espanhóis é a do antigo ministro, homem-forte de Aznar, putativo candidato a presidente do Governo a ser escoltado para dentro de um carro-patrulha por alegados crimes económicos.

 

Lusa/SOL