Internacional

Turquia não admite a palavra g*

O Governo de Ancara decidiu assinalar a 24 de Abril os 100 anos da vitória turca sobre os Aliados na península de Galípoli - antecipando um dia a data que costuma ser recordada, 25 de Abril. O Presidente Recep Erdogan convidou líderes mundiais, tendo os primeiros-ministros da Austrália e da Nova Zelândia (dois dos países que mais soldados perderam nessa campanha militar na I Guerra Mundial), os príncipes Carlos e Harry já confirmado a presença.

A alteração sobrepõe o evento de Galípoli aos 100 anos do genocídio arménio, assinalado a 24 de Abril, quando mais de 200 intelectuais foram detidos e depois mortos em Constantinopla, actual Istambul. A antecipação turca foi considerada pelos críticos de Ancara - que nega ter ocorrido o genocídio dos arménios no Império Otomano, enquadrando as mortes no contexto da guerra - como uma forma de menorizar o centenário, recordado hoje no memorial de Tsitsernakaberd em Yerevan, capital da Arménia. Lá estarão os PR Vladimir Putin, François Hollande, delegações britânica, norte-americana... "O Governo faz de tudo para ofuscar o centenário do genocídio este ano", criticou ao Guardian o escritor e colunista arménio Nazar Büyüm.

Referindo-se aos últimos anos do Império Otomano, o primeiro-ministro turco declarou esta semana, em comunicado: "Recordamos com respeito os inocentes arménios otomanos que perderam a vida e enviamos sentidas condolências aos seus descendentes". Seguindo a política de negação de Ancara, Ahmet Davutoglu lembrou que "atribuir toda a culpa - através de generalizações - à nação turca, reduzindo tudo a uma palavra e agravando-a com um discurso de ódio, é algo problemático tanto a nível moral como legal". E sublinhou acreditar que "um resultado positivo e responsável poderá ser alcançado quando a história deixar de ser manipulada para fins políticos".

A 12 de Abril, o Papa Francisco descreveu os massacres sistemáticos dos cristãos arménios no Império Otomano como "o primeiro genocídio do século XX", levando Erdogan a reagir: "Não permitiremos que incidentes históricos sejam retirados do seu contexto genuíno e instrumentalizados numa campanha contra o nosso país".

O artigo 301 do Código Penal turco criminaliza com pena de prisão até dois anos o acto de denegrir a nação e instituições turcas - responsabilizar a Turquia pelo genocídio dos arménios enquadra-se nesse crime.

*genocídio

ana.c.camara@sol.pt

 

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