Internacional

Eleições no Reino Unido: outro contexto, mesma dupla

Num momento em que milhões de pessoas já terão exercido o seu direito de voto, por via postal, continua impossível prognosticar a composição do Governo britânico após as eleições de 7 de Maio. Apesar da proliferação de pequenos partidos é certo que será um dos dois tradicionais a traçar o caminho, embora trabalhistas e conservadores saibam que terão de fazer concessões para formar uma maioria parlamentar.
 

Um dos cenários previstos é o da manutenção do statu quo. Ou seja, uma aliança entre conservadores e liberais democratas, que há cinco anos formaram o primeiro Governo de coligação desde a II Guerra Mundial. Se em 2010 poucos acreditaram que a parceria entre David Cameron e Nick Clegg chegaria ao fim do mandato, num momento em que se perspectiva que os dois partidos perderão mais de 50 representantes na Câmara dos Comuns todos aceitam que esse é o melhor cenário para ambos.

Com um ou outro percalço, a aliança evitou os grandes choques ideológicos e agora serve, junto dos próprios eleitorados, como justificação para as promessas não cumpridas. Se os liberais correm o risco de perder mais de metade dos seus actuais 57 deputados, a hecatombe podia ser maior se não tivessem conseguido salvar a Saúde e a Educação da austeridade do ministro das Finanças conservador. 

Por outro lado, a existência de uma coligação ajudou Cameron a travar o eurocepticismo no seu partido, que foi crescendo à medida que os nacionalistas do UKIP foram somando intenções de voto nas sondagens. O referendo - que muito assusta os barões do centro financeiro de Londres - foi adiado para a próxima legislatura, após uma também prometida renegociação do estatuto de membro do Reino Unido na UE.

A 'sequestradora' Sturgeon
Apesar dos benefícios, nenhum dos líderes assume a vontade de continuar a aliança, como se viu no artigo de opinião de David Cameron no último Sunday Times: «Votar no UKIP ou nos liberais democratas é colocar Ed Miliband e Nicola Sturgeon mais perto de Downing Street - e o nosso Governo, economia e país mais perto do caos».

A líder dos nacionalistas escoceses do SNP, que ao mesmo tempo que se prepara para terminar uma longa hegemonia trabalhista na Escócia abre as portas a uma coligação nacional de Ed Miliband, tem sido o principal alvo dos ataques do primeiro-ministro: Sturgeon é uma «sequestradora» que vai exigir «mais endividamento, mais impostos e mais Estado Social», acusou no mesmo artigo, já depois de ter dito à Spectator que a escocesa deseja que o próximo Governo seja como «um acidente de automóvel» pois o seu objectivo é a «destruição do Reino Unido» e a independência da Escócia.

Os ataques pretendem levar à conclusão de que Sturgeon, líder do partido que ficará com a terceira maior representação parlamentar em Londres, fará inevitavelmente parte de um Governo trabalhista, apesar de Miliband já ter repetido a sua indisponibilidade para a solução. No último debate televisivo, a 16 de Abril, o líder do Labour chegou a dizer que uma aliança formal com o SNP seria «um desastre para o Reino Unido». Miliband mostra preferência por um Governo minoritário que se aproxime ora do SNP ora dos liberais, consoante as necessidades e sensibilidades em torno de cada reforma legislativa, embora continue a acreditar «genuinamente que é possível chegar à maioria».

Para isso, aposta num corte com a fama despesista que vem colada aos últimos governos do partido, como prova o facto de o seu programa de Governo contemplar um crescimento anual de 3,7% nas despesas com a Saúde, enquanto os conservadores se comprometem a investir mais 7% ao ano.

nuno.e.lima@sol.pt