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Confraria Gastronómica da Madeira

A dieta madeirense traduz a geografia do arquipélago. O solo, o clima e o relevo das ilhas deram origem a sabores que trazem a marca da genuinidade e da singularidade. A banana, a anona, o maracujá, o abacate, a manga, a papaia, a pitanga, o tomate arbóreo, a goiaba, a tangerina, o ‘pêro da Ponta do Pargo’, o ‘pêro Domingos’, a maçã Barral, a maçã ‘Cara de Dama’, a cereja, a ginja, a castanha são algumas das frutas que invadem as mesas de todos os que se deixam surpreender com tal exuberância gustativa. Tal diversidade de sabores resulta da paulatina introdução de cultivos agrícolas que, adaptados à condições locais, resultaram em produtos com uma especificidade própria. A geografia aliada ao saber-fazer do agricultor madeirense fizeram daquela terra terreno fértil para sabores inusitados.

Mas a diversidade que se observa nas frutas é só um exemplo da diversidade presente na gastronomia madeirense, representa apenas uma cor no imenso espectro que caracteriza os tecidos madeirenses. Que dizer dos peixes e frutos do mar? Que dizer da utilização do milho e do trigo numa cultura que é também o resultado do cruzamento de muitas culturas e de muitos povos que ali aportavam no trânsito de rotas marítimas? Que dizer do bolo de mel, que nasce por razões específicas associadas ao cultivo da cana do açúcar naquele território? Que dizer do Vinho da Madeira? Em suma, apetece dizer que no arquipélago da Madeira cabe um mundo inteiro de sabores que não se encontram em mais lado nenhum do mundo.

Foi esta constatação que levou um grupo de 22 madeirenses a fundar a Academia Madeirense das Carnes, posteriormente baptizada de Confraria Gastronómica da Madeira. Pois, se no início o que moveu o grupo de confrades foi a defesa e salvaguarda da espetada madeirense feita a partir de uma boa carne de bovino e com recurso a um espeto de loureiro, a plenitude da alimentação madeirense e o poder de divulgação da confraria levaram-na expandir-se para tentar abranger toda uma dieta. À espetada madeirense, centro do trabalho e da preocupação dos confrades, juntaram-se todos os produtos da Madeira. Na verdade, a viagem gastronómica por este arquipélago tem, igualmente, de incluir o saboroso atum ou o portentoso peixe-espada preto que as águas do Atlântico tão bem sabem cuidar. A acompanhar a refeição há que não esquecer a poncha, uma refrescante bebida feita com aguardente de cana, mel e limão.

Este ‘reportório’ gastronómico é um orgulho para todos os madeirenses, mas sobretudo para os confrades desta Confraria, que se desdobram em protocolos, parcerias e contactos com confrarias nacionais e estrangeiras.

O turismo é a principal fonte de receita da Madeira. E são tantos os motivos para ir à Madeira que não chega ir só uma vez. Há que aproveitar quer as condições naturais quer o património edificado, quer ainda as iniciativas que são já uma marca turística, como a Passagem de Ano, marcada por um espectacular fogo-de-artifício, ou a Festa da Flor.

De todos os motivos, importa falar da luxuriante vegetação que compõe a floresta Laurissilva. Património da Humanidade desde 1999 (UNESCO), este imenso mundo vegetal deslumbra. Num solo fértil, devido à origem vulcânica e com uma forte humidade, as espécies mais frequentes são da família das Lauráceas e representam a floresta original da Madeira. A floresta Laurissilva ocupa uma área de 15000 hectares e ali encontram-se seres vivos característicos do Terciário. Por tudo isto, este mundo vegetal é uma marca do nosso passado que ainda preserva as características originais e que nos permite observar a evolução na imensa escala do tempo. Quem visita toca no passado e sente os aromas e as cores de outros tempos.

A geografia e o encontro com outros povos fizeram a gastronomia, deram à luz um sem-número de produtos singulares como o bolo de mel, feito com mel da cana do açúcar, e cujo sabor revela a presença das especiarias vindas com a epopeia dos Descobrimentos, o bolo do caco, que não é mais do que um pão de trigo de forma arredondada e de sabor singular, ou o Vinho da Madeira, vinho generoso tão apreciado pelo mundo fora. Mas há que dizer que, na mesma, a geografia e o encontro com outras culturas fizeram as pessoas, o ‘ser madeirense’. Gente afável, tranquila como o clima, acolhedora porque habituada a receber quem descansa no intervalo de viagens, os madeirenses orgulham-se da sua cultura, da sua herança, da viagem que levou ao povoamento, da forma como conquistaram a terra e a tornaram sua, lhe deram cor e sabor, lhe deram o seu jeito e a transformaram num paraíso para quem perceber de que é feita a felicidade.

 * presidente das confrarias gastronómicas portuguesas