Opiniao

Mais do que mar e sol

Quando ainda não tínhamos decidido viver no Alentejo, encontrámos por acaso um casal alemão na praia da Raposa. A praia da Raposa só tem acesso directo pela prisão de Pinheiro da Cruz: é preciso ter uma senha para entrar que só é dada aos funcionários e familiares da prisão ou da câmara municipal. 

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O casal alemão tinha vindo a andar pelo areal e, quando nos encontrou, já não sabia muito bem onde estava. Depois das apresentações e do pedido de indicações, eles contaram-nos que tinham comprado uma casa para os lados do Carvalhal nos idos anos oitenta. Na altura, não tinham electricidade nem água canalizada – mas, depois da entrada na União Europeia, fez-se luz. Olá progresso! Em pouco tempo muitas coisas mudaram. 

Mais tarde, já depois de devidamente instalada – e numa das primeiras demandas por um cesto para as compras –, ouvi dizer que havia na serra um senhor alemão que ainda os fazia. E recentemente, quando perguntei no mercado por colheres e espátulas de madeira, o vendedor diz-me com ar triunfante: “Vendi-as todas! Os estrangeiros adoram isso”. 

Os estrangeiros – fiquei a sabê-lo em conversa com uma amiga – são, na sua maior parte, alemães e holandeses. E vivem em montes fora da vila. Se eu já tinha a impressão, devido a encontros ocasionais no supermercado, de que havia ao redor daqui toda uma vida que eu desconhecia, aí fiquei com a certeza. 

Quando ir estudar noutro lugar (ou ter ido ‘para fora’, nem que seja para Setúbal ou para o Algarve) é motivo de orgulho, fico sempre intrigada sobre o que leva os estrangeiros a abandonar o seu ‘lá fora’ e virem enfiar-se aqui num monte no meio do campo, onde não se passa nada. 

Fui à procura dessa vida e encontrei na pessoa do Frankie, serralheiro civil e artesão, uma espécie de embaixador que se prontificou a satisfazer a minha curiosidade. Frankie fala um português quase correcto, carrega nos ‘erres’, autocorrige-se e confirma a terminação dos verbos quando tem dúvidas. Da sua oficina à beira da estrada vê-se uma colina verde e o seu azul. 

Ao contrário da maioria dos ingleses que foram viver para o Algarve já depois de reformados, os primeiros alemães que chegaram a Santa Margarida da Serra eram jovens pais com filhos pequenos. Deixaram a Baviera, onde viviam da agricultura biológica, logo a seguir ao desastre de Chernobyl. Vieram à procura de uma vida mais próxima da natureza, de um lugar melhor para verem crescer as crianças. A maior parte voltou a dedicar-se à agricultura. Vivem longe da vila mas em comunhão com a terra que os acolheu e com os vizinhos. E é frequente ajudarem em causas menos visíveis, como o acolhimento de animais abandonados. 

Antagonismos futebolísticos ou europeístas à parte, não é que haja falta de campo na Alemanha – mas, para estes alemães, Portugal nos anos oitenta oferecia melhores condições de vida ou, pelo menos, um ambiente mais saudável e muito mais do que apenas sol e mar. 

Numa altura em que andamos todos preocupados com a comida processada, o comércio justo e o excesso de tecnologia nas nossas vidas, e temos hortas no meio da cidade, é estranho constatar que houve quem se antecipasse aos novos rurais e procurasse isso tudo aqui tão perto e há quase trinta anos. 

Suponho que na maior parte das vezes é preciso distanciarmo-nos um bocadinho para conseguirmos ver a imagem toda. E, se virmos a imagem toda, talvez venhamos a descobrir que uma vida melhor pode estar mesmo debaixo do nosso nariz.