Economia

Lesados do BES: Esperar com paciência, agir com rapidez

Marinha Grande, 10 da manhã do dia 23 de Abril. No ponto de encontro, a casa de Solange Morgado, estão 15 pessoas e uma carrinha Toyota Hiace da década de 80.

A indumentária, as flores, as velas e os cartazes deixam antever um protesto diferente. A manifestação dos clientes do BES lesados com o papel comercial, que terá lugar em Pombal às 12 horas, será marcada pelo luto, em memória de um cliente que sucumbiu ao sofrimento dos últimos meses.

O plano de acção é definido com quatro dias de antecedência numa reunião de dirigentes da Associação Os Indignados e Enganados do Papel Comercial (AIEPC) do BES em Fátima. A associação está organizada de uma forma que faz lembrar os sindicatos. Há coordenadores distritais que acertam todos os pormenores logísticos dos protestos, que, embora pareçam espontâneos, implicam dias de preparação.

No início da semana passada, os coordenadores das diversas zonas do país recebem as instruções. Solange Morgado, que coordena o distrito de Leiria, analisa as linhas mestras da estratégia, comunica-as aos associados e operacionaliza toda a logística necessária, como a impressão de cartazes. As palavras de ordem são inequívocas: a AIEPC está de “luto”, “Dr. Carlos Costa, não nos deixe morrer enganados” e “Dr. Stock da Cunha, se não tem a solução prometida, por favor saia”.

Solange Morgado explica que a concentração silenciosa terá como intuito mostrar às autoridades que “a solução tarda em chegar”. E para algumas pessoas “já não virá a tempo”. “Queremos que mudem o rumo da história. Não queremos assistir a mais tragédias”.

Carrinha de apoio às vítimas

À manifestação, vai quem pode. Há quem consiga tirar o dia da empresa, mas os reformados são quem tem mais disponibilidade. Agostinho Santos, reformado com mais de 60 anos e associado da AIEPC desde Janeiro, é o proprietário da carrinha Toyota e o homem da música. “Esta semana ainda não tirei folga”, revela. “Todos os dias peguei na carrinha e estacionei-a na frente de balcões do Novo Banco, na Batalha, Leiria, Minde e agora Pombal”. Só nesta semana percorreu sozinho mais de 250 quilómetros, orgulhoso da sua aparelhagem 'old school' que, amarrada a uma cadeira com rodinhas, amplifica palavras de ordem e música de intervenção. A Toyota foi baptizada como “carro de apoio às vítimas do sistema bancário”.

Para Agostinho, esta é “a única forma de sair de casa e não ficar a pensar” no dinheiro que não consegue reaver. “Tenho a quarta classe, sou quase um analfabeto. A minha mãe ofereceu-me uma galinha e o meu pai deu-me um martelo e uma bicicleta em segunda mão. Foi essa a minha escola”. Começou a trabalhar com 13 anos e, por isso, não aceita perder as poupanças de toda uma vida de trabalho no ramo do mobiliário.

Poder do silêncio

A conversa é interrompida pelo alerta de Solange: “Temos de seguir viagem para Pombal”. São mais de 50 quilómetros e a Toyota anda a uma velocidade máxima de 70 quilómetros por hora.

Na agência do Novo Banco na Rua Doutor Custódio Freire vão encontrar-se os clientes lesados do Sul e do Norte do país. O autocarro que vem do Porto chega após a hora marcada. Parou em Aveiro e os associados avançaram para um primeiro protesto.

Nos primeiros minutos da concentração, Solange trava os manifestantes que pretendem fazer barulho. “Aqui, estaremos em silêncio. São as ordens que temos”.

As portas do balcão do Novo Banco estiveram encerradas. Lá dentro, os colaboradores e seguranças - que têm assistido a manifestações em outras cidades através da comunicação social - escondem-se e aguardam o fim da acção.

As palavras de intervenção da aparelhagem de Agostinho foram substituídas por uma marcha fúnebre, em sintonia com a serenidade que o momento exige.

Durante cerca de uma hora, os clientes lesados cumprimentam-se e analisam os últimos desenvolvimentos. O presidente do Lloyds Banking Group é o nome mais referido. António Horta Osório foi um dos convidados da conferência anual do Jornal de Negócios em Lisboa, onde fez um apelo a que situação destes clientes “seja resolvida rapidamente”. “É o dinheiro deles. Têm direito a ter uma solução comercial que os satisfaça, uma solução comercial de mínima justiça e moralidade tem de ser encontrada”, afirmou o banqueiro.

Jorge Pires, coordenador da zona Centro com o pelouro da comunicação, concede entrevistas aos jornalistas. Carla Costa, coordenadora da zona Norte também com o pelouro da comunicação, recebe uma chamada do “digníssimo”. Refere-se ao presidente da AIEPC, Ricardo Ângelo, que quer saber como está a correr o protesto.

'É complicado segurar as pessoas'

Em memória do associado falecido, os clientes lesados cumprem um minuto de silêncio, em directo para os telejornais da uma da tarde. A missão está cumprida, mas longe de terminar. Os clientes indignados e enganados têm uma característica em comum: esperam com paciência, mas agem com rapidez.

Decidem ir a pé até outra agência, na mesma cidade, para exteriorizar a revolta. “Este segundo protesto não estava previsto, mas é cada vez mais complicado segurar as pessoas”, explica Solange, que também anseia por reaver o seu dinheiro.

“Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. A música, de Geraldo Vandré, é repetida por Maria, figura assídua nas concentrações.

Cerca de 100 manifestantes tentam forçar a entrada nas instalações do Novo Banco, mas Manuel Santos, agente da PSP, veda o acesso. A antecipar a manifestação, os funcionários trancaram as portas.

“Não somos rácios, não somos activos tóxicos, não supervisionamos o BPN, BPP e o BES. E não vendemos submarinos”, gritam os manifestantes ao ritmo de buzinas e de bombos, enquanto arremessam ovos.

As acções de protesto começaram em Janeiro. E os dirigentes da AIEPC prometem: “Não atiramos a toalha ao chão”. A luta só terminará quando for encontrada uma solução para os 2.508 clientes do Novo Banco que, aos balcões do antigo Banco Espírito Santo, investiram em papel comercial (dívida de curto prazo) da ESI, Rioforte e ES Property e que ainda não foram reembolsados.

As suas histórias são quase todas iguais: confiaram cegamente nos gestores, que lhes disseram que o papel comercial era semelhante a um depósito a prazo, mas com juros melhores. Afinal não era bem assim, mas os clientes só o perceberam tarde demais. Ao todo, investiram cerca de 550 milhões de euros, numa média de 200 mil euros por aplicação.

A 10 de Janeiro deste ano um grupo de cidadãos lesados do BES/Novo Banco, que até aí comunicava em fóruns de internet, decidiu encontrar-se para reflectir colectivamente sobre a sua situação. No encontro resolveram criar uma associação para incentivar o agrupamento de clientes, promover reuniões, debates e manifestações, e prestar declarações públicas.

A Associação Os Indignados e Enganados do Papel Comercial nasce formalmente a 21 de Janeiro de 2015, no Cartório de Viseu. Constituída por tempo indeterminado, tem por “objecto a protecção e a defesa dos direitos e interesses dos clientes do resolvido Banco Espírito Santo, do Banco Best e do Novo Banco e seus investidores em valores mobiliários e demais instrumentos financeiros”.

Ricardo Ângelo, presidente, e Alberto Neves, vice-presidente, são os dois rostos mais visíveis entre os nove membros que compõem os três órgãos sociais - direcção, assembleia-geral e conselho fiscal - da Associação.

Com menos de cinco meses de actividade, a AIEPC representa mais de 800 clientes lesados, no universo de 2.500. O crescimento exponencial do número de associados exigiu a criação de uma estrutura operacional, que engloba a área logística, comunicação, relações públicas e informática, sob a supervisão dos coordenadores das zonas Norte, Centro e Sul do País.

O financiamento da AIPEC resulta de uma jóia inicial paga pelos associados, a que acrescem as receitas das quotizações, as liberalidades aceites pela Associação e os subsídios que lhe sejam atribuídos. Os coordenadores recebem pequenas ajudas de custo.

Plano de acção

Os protestos são a principal “arma” da Associação que, apesar de privilegiar a via negocial, não descarta a “litigância como último instrumento de recurso e pressão”, lê-se no plano de acção.

A AIPEC começou por pedir reuniões com os supervisores financeiros - Banco de Portugal e Comissão de Mercado de Valores Mobiliários - e com o conselho de administração do Novo Banco. A estratégia passa por manter o “diálogo aberto” com estas entidades.

No entanto, é na agenda mediática que todas as semanas as reinvindicações dos lesados ganham protagonismo nacional. A imprensa faz eco da indignação destes clientes, de tal forma que uma simples pesquisa no Google por “lesados do BES” já produz mais de 175 mil resultados.

O plano de actividades da AIEPC tem ainda frentes de ataque internacionais. Por um lado, os lesados querem forçar o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia a tomarem uma posição sobre o tema. Por outro, pretendem reunir com os conselhos de administração dos cinco interessados que passaram à fase final da compra do Novo Banco. A AIEPC entende que o Novo Banco permanecerá responsável pelo pagamento do papel comercial, mesmo no período pós-venda, mas quer clarificar a situação antes de ser consumada a venda do antigo BES.

Para orquestrar o plano de acção dos seus associados, a AIEPC convidou Luís Miguel Henrique, que levou a bom porto as negociações com os clientes do BPP, conseguindo que fossem compensados através da criação de um fundo especial de investimento. O mediático advogado iniciou a defesa no início de Março. “Os órgãos sociais e os associados estão muito confiantes na experiência e no poder de negociação do jurista”, confessou então Alberto Neves, vice-presidente da Associação.

O inimigo e o aliado

Os lesados do papel comercial do GES/BES elegem Carlos Costa como 'inimigo número um'. O governador do Banco de Portugal insiste que o reembolso é da exclusiva responsabilidade dos emitentes - as empresas do GES - e defende que o Novo Banco pode encontrar soluções de carácter exclusivamente comercial para alguns clientes, desde que tenham um impacto neutro na solvabilidade, liquidez e rentabilidade do banco.

Já Carlos Tavares é visto como um 'aliado institucional'. “Só os grandes homens se emocionam com a desgraça alheia. Dr. Carlos Tavares não nos abandone”, lê-se em vários dos cartazes no dia do protesto. Os lesados recordam a emoção do presidente da CMVM ao referir no Parlamento a 21 de Abril que “não é aceitável que uma instituição financeira diga uma coisa e, depois, afinal, diga que não era isto que queria dizer”. Carlos Tavares lê todas as reclamações, “uma a uma”, e recusa a ideia de que quem investiu em papel comercial é oportunista. “Tenho lá pessoas que precisam do dinheiro para viver, de 70 anos, de 95 anos”.

Mas o governador também já se emocionou no Parlamento. “Eu fui apelidado de gatuno. Eu não roubei nada a ninguém”, referiu, numa alusão à manifestação feita em Março à porta da sua residência. Os associados não desarmam, repetindo as acusações: “Fraco com os poderosos, implacável com os cidadãos lesados”.

Na esfera política, o relatório final da comissão parlamentar de inquérito à gestão do BES lamenta o pingue-pongue entre os reguladores e incentiva a que seja encontrada uma solução que responda às “expectativas geradas e não correspondidas até ao momento”.

sandra.a.simoes@sol.pt