Internacional

Iglesias já não sabe se pode

Maio de 2014 foi o mês da afirmação do Podemos, uma força da esquerda espanhola nascida entre a indignação das ruas que elegia cinco eurodeputados graças à conquista de 1,2 milhões de votos nas eleições europeias. Um ano depois, o grupo liderado por Pablo Iglesias arranca para a campanha das eleições municipais de dia 24 na sombra da demissão do seu antigo número 3.


Carlos Monedero, fundador e uma das principais referências ideológicas do partido, demitiu-se da direcção do Podemos no último dia de Abril. Fê-lo depois de passar semanas sem conseguir explicar os 425 mil euros que recebeu da Venezuela e de outros regimes bolivarianos da América do Sul, que o obrigou a corrigir a declaração de rendimentos e criou a suspeita de financiamento ilegal no partido.

Mas, apesar da frágil situação pessoal, o homem que tinha a tarefa de elaborar os programas eleitorais do Podemos despediu-se com a mágoa de ver o grupo tornar-se “refém do jogo eleitoral”, uma força que “deixou de ter tempo para ouvir as bases porque considera mais importante um minuto de televisão”.

Duas almas

Na hora da saída, o homem que Pablo Iglesias considera como “um dos melhores amigos” meteu o dedo na ferida e falou da “tensão entre as duas almas” do partido. “Creio que o Podemos tem de recuperar a frescura que o levou a nascer. Temos de prestar mais atenção às nossas origens. O Podemos quer parecer um grupo de bons rapazes, asseados, que não querem dar problemas ao poder - mas é o contrário. Queremos dar muitos problemas ao PP e aos que fizeram de Espanha um país subdesenvolvido”, disse Monedero.

A três semanas de umas eleições autárquicas que por serem disputadas em todo o país são vistas como um ensaio das legislativas do final do ano, ficou difícil de disfarçar a guerra ideológica que se instalou no Podemos apenas 15 meses depois da sua fundação.

Ao lado de Monedero estão figuras como o eurodeputado Miguel Urbán ou Emmanuel Rodríguez, membros da ala esquerda que apelam a uma “refundação” do partido. O outro é liderado pelo próprio Pablo Iglesias, que no final de Abril assinou no diário Público um artigo de opinião intitulado 'A centralidade não é o centro'. Ali, o secretário-geral assume a luta pelo “terreno abandonado pela social-democracia”, considerando que a “centralidade é o único terreno” em que o partido “pode ganhar”.

Luta pelo voto de protesto

Iglesias assume a vontade de alcançar o poder e a mudança estratégica não esconde a preocupação face ao crescimento de outro partido de protesto. Em Dezembro, quando o Podemos disputava o primeiro lugar nas sondagens com o Partido Popular (PP), o Ciudadanos recebia o apoio de cerca de 5% dos inquiridos. Hoje, o Podemos caiu dos 28% para os 20%, está atrás de populares e socialistas e tem uma curta vantagem para os 18% do Ciudadanos.

Brais Fernández e Jaime Pastor, dois membros do grupo Anticapitalistas do Podemos, chamaram ao grupo de cidadãos formado na Catalunha um partido “mais credível” no apelo ao voto de protesto contra os dois partidos tradicionais. Neste caso Iglesias parece partilhar da opinião e o apelo ao centro apareceu também no programa apresentado na semana passada. O texto até começou a ser elaborado por Monedero, antes da demissão, mas Iglesias assume o retrocesso no radicalismo do Podemos ao considerar o programa “realista”.

Embora não faltem apelos à esquerda: a “lei da transparência” exigirá a todos os titulares de cargos eleitos “uma declaração anual de bens”, sendo que “a primeira será antes da tomada de posse”; “não se procederá ao corte de electricidade ou gás quando se trate da primeira habitação do consumidor e quando a falta de pagamento se deva a motivos alheios à sua vontade”; promete-se ainda “a recuperação efectiva do imposto sobre o património”.

Mas, como notava o El País, o partido “afasta-se das reflexões mais polémicas sobre o pagamento da dívida” e principalmente da grande promessa de 2014. A “renda básica universal” é substituída por um “plano de garantia de renda”, onde o partido se compromete a aproximar os subsídios de inserção social do valor do salário mínimo, actualmente nos 648 euros mensais. E, para não assustar o centro, Iglesias garante que isso será feito de “forma gradual” e “de acordo com as possibilidades”.

nuno.e.lima@sol.pt