Sociedade

Escolas voltam a parar para exames

Provas de Português e Matemática do 4.º e 6.º anos obrigarão milhares de alunos a ficar em casa durante quatro manhãs, na próxima semana. Pais e directores querem estes exames no final do ano. 
 

Centenas de escolas do ensino básico e secundário vão estar a meio gás esta semana. A realização dos exames nacionais do 4.º e 6.º anos fará com que milhares de alunos fiquem sem aulas durante quatro manhãs, entre segunda e quinta-feira. Directores e pais voltam a acusar o Ministério da Educação e Ciência (MEC) de causar perturbação nas escolas e defendem a passagem destes exames para o final do ano lectivo.

Filinto Lima, vice-presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, diz que na sua escola, em Vila Nova de Gaia, dois terços dos professores estarão afectos aos exames, para os quais terá de disponibilizar 30 salas. Por isso, os alunos do 5.º, 7.º, 8.º e 9.º anos não terão aulas durante quatro manhãs, nem sequer poderão estar na escola, sob pena de perturbarem os que fazem o teste de Português ou Matemática. «Não faz sentido. O que resolvia este problema era passar estes exames para o final do ano. Não se percebe porque o MEC não o faz», afirma ao SOL.

Ano lectivo conturbado

Adelino Calado, director do Agrupamento de Escolas de Carcavelos, diz que na sua escola a maioria dos alunos tem aulas de manhã e que só os do 11.º e 12.º anos vão estar nas salas de aulas disponíveis, pois também terão exames nacionais e têm de estar preparados. O director lamenta mais esta interrupção e diz que este ano o número total de aulas foi muito reduzido.

 «Tem sido um ano muito atípico, com muitos percalços no calendário, como por exemplo as greves», explica Adelino Calado. Filinto Lima acrescenta: «O início do ano lectivo atrasado para milhares de alunos e os exames de Inglês que obrigaram os professores a irem fazer orais e formações».

Os professores dizem que a pressão é enorme para dar a matéria toda e falta tempo para consolidar aprendizagens. «E depois o que se faz a seguir, nas três semanas que faltam para acabar o ano lectivo? Vai ser difícil pô-los a trabalhar. Vai ser entreter miúdos que já não estão muito motivados», admite  Adelino Calado.

Os pais também criticam o que dizem ser «uma logística enorme que causa perturbação na organização escolas e das famílias». Para Jorge Ascensão, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, a introdução de exames em idades tão precoces está a criar «uma pressão enorme nas crianças e uma cultura de competição pura». O porta-voz dos pais diz que «até já estes alunos treinam para o exame»: «Já não sei se este avalia se perceberam a matéria, se a decoraram ou apenas se ainda se lembram do que ouviram».

Em 2014, a média do 4.º ano a Português foi 62,2% e a Matemática 56,1%. No 6.º ano, foi 57,9% e 47,3%, respectivamente. 

Num estudo que fez recentemente, o Conselho Nacional de Educação (CNE) considerou que a introdução de exames no 4.º e 6.º anos trouxe, «directa ou indirectamente, implicações quer nas taxas de retenção, quer sobretudo na alteração do processo de avaliação interna», ou seja, nas notas dadas pelos professores. Após uma melhoria na primeira década deste século, os chumbos subiram novamente em 2011, em todos os anos do básico mas em especial no 6.º, em que a taxa de retenção duplicou, de 7,4% em 2011 para 14,8% em 2013. 

O CNE defendeu ainda a reavaliação destes exames e pediu ao Governo para repensar «as implicações dos resultados das provas finais no prosseguimento de estudos».

rita.carvalho@sol.pt