Sociedade

Super-avós

De mochila às costas, Carminho, de 11 anos, despede-se da avó antes de entrar no portão cinzento do Real Colégio de Lisboa, no Lumiar. “Até logo!”. São 8h30 e deixar a neta na escola é apenas o início do dia de Teresa Guerreiro, de 70 anos.

De carro, segue para levar às aulas, mesmo ali ao lado, o outro neto, o Zé Maria, de oito anos, que estuda no mesmo colégio, mas num edifício diferente. Nessa segunda-feira, ficará com ele mais tempo do que é habitual. A avó vai participar numa aula de zumba no palácio amarelo onde funciona o Real Colégio, uma surpresa organizada pelos alunos para o dia da Mãe. “Trouxe sapatos confortáveis para poder dançar à vontade”, conta Teresa, que passou a viver com os dois netos em casa desde que a filha Joana morreu há cinco anos.

No colégio, todos a conhecem por 'avó Té'. Está em todas, participa nas actividades e até dá uma ajuda aos amigos dos netos quando é preciso. “Avós como esta são raras, contam-se pelos dedos das mãos”, admite uma funcionária.

Dali, Teresa Guerreiro segue para casa de um dos filhos, onde vai buscar a neta mais nova, Carolina, de cinco meses, que passa os dias com ela. E, duas vezes por semana, à Carolina junta-se o Martim, de sete meses. “Todos os meus 10 netos, quando eram pequenos, ficaram cá em casa”, explica.

Entre almoços e sestas, e mesmo com a ajuda do marido, Teresa não tem muito tempo de descanso até começar a rotina da tarde. Mas nunca se queixa. “Com os meus netos, sinto-me tranquila. Acabam por ser uma forma da terapia: esqueço tudo”, conta a antiga chefe de divisão de documentação do Ministério do Trabalho, que ao fim de 26 anos pediu uma licença sem vencimento para criar uma empresa de confecção, que prolongaria depois para apoiar a família, quando o marido, José Guerreiro, foi colocado em Paris como conselheiro na embaixada portuguesa. Teresa acabaria por se reformar aos 65 anos, mas o ritmo não abrandou. A meio da tarde vai buscar a Carminho e o Zé Maria à escola, leva-os às actividades e ajuda-os nos trabalhos de casa. Às vezes em sua casa juntam-se os seus outros netos, Joana e Leonor, ambas  de três anos, Salvador e Duarte, de quatro, Francisca, de 16, e Matilde, de 17 anos. “Faço com os netos exactamente o que fazia com os meus cinco filhos. A diferença é que tenho 70 anos em vez de 40”.

Portugal é dos países europeus onde há mais avós a tomar conta dos netos a tempo inteiro. Um estudo patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian e divulgado no ano passado revela que 14% dos avós portugueses prestam diariamente cuidados aos netos, quando na Suécia ou na Dinamarca este apoio não vai além dos 2%. A situação deve-se em grande parte ao facto de as portuguesas serem as mães com filhos até aos seis anos que mais trabalham a tempo inteiro e de haver uma oferta limitada de creches e infantários a preços acessíveis.

Mas o papel dos avós vai muito além dos cuidados prestados no pré-escolar. Dois em cada três admitem ficar com os netos em casa durante o dia ou depois das aulas, dando apoio nos estudos, nas actividades extracurriculares e até no domínio das novas tecnologias, revela o inquérito Fórum da Criança, divulgado em Fevereiro pela Brandkey.

Teresa sabe um pouco de tudo, desde as novas tendências para bebés às roupas preferidas das netas adolescentes. Os netos obrigam-na a estar constantemente actualizada. “Tenho de estar sempre informada sobre o que se passa para lhes poder responder”, explica. “Ainda hoje, com as minhas netas mais velhas, tenho uma proximidade muito grande, feita de pequenas coisas, do estar sempre presente”. Mas isso também acontece com os mais novos. Não é por acaso que Joana não se deita sem ligar à avó para lhe dar  boa noite.

“As netas são a minha prioridade”

O antigo vereador da Câmara Municipal de Lisboa João Coelho dos Santos, de 75 anos, também não pára. É professor em duas universidades seniores, preside à Assembleia-Geral da Associação Portuguesa de Poetas e prepara-se para apresentar em Junho o seu 30.º livro no Teatro da Trindade. Mas quando uma das quatro netas precisa de ajuda fica tudo para trás. “Se for preciso cancelar as aulas, cancelo. Já sabem que contam sempre comigo. São a minha prioridade”.

As aulas em duas universidades para a terceira idade de Lisboa ocupam-lhe manhãs e tardes durante a semana. Mas as quintas-feiras são dedicadas em exclusivo às netas que vivem ao pé de Palmela e estudam trompete e bateria no Conservatório.

O dia começa com a travessia da ponte, onde juntamente com a mulher Angélica, de 72 anos, vai buscar a neta Filipa. Às 11 e pouco está à porta do Conservatório Regional de Palmela, onde a adolescente de 14 anos tem aulas de música. Dali segue para a Quinta do Anjo, para que Filipa almoce em casa e leva-a depois ao liceu onde tem aulas à tarde. “Quando deixo a Filipa apanho a irmã, Margarida, de 12 anos, para a trazer para o almoçar”. Durante a tarde, se for preciso, ainda leva ou vai buscar as netas à explicação. Chega a Lisboa quase à hora de jantar.

As duas netas que vivem na capital, as irmãs Carolina, de 16, e Mafalda de 13, também contam com os avós para as transportarem à explicação ou às aulas de inglês do Cambridge. “Estamos sempre  presentes. Foi assim desde que nasceram”, conta o avô, que até comprou um carro de sete lugares para as levar todas. Os 15 dias de férias que passam sozinhos com as netas todos os anos, são “únicos”. Em Agosto vão todos para o Vimeiro, onde João e Angélica têm uma casa de fim-de-semana. “Agora convidam amigas também. Vamos à praia e à piscina que fica ao lado”, conta o avô. “Não têm horários e o mais difícil é metê-las na cama. Nunca querem ir”.

João Coelho dos Santos diz, contudo, que o maior legado que deixará às netas é a sua obra literária. Lia-lhes poesia quando eram mais pequenas e elas também o inspiraram. No poema 'Crianças', que escreveu há 12 anos, fala sobre as quatro: a Filipa, a “netinha ruiva” que não quer dormir, sobre a Mafalda que “ri, ri, ri em repetidas, incontidas e desencontradas gargalhadas”, a Margarida “que ainda mal se tem de pé”, ou a Carolina, que “poucas vezes se cala” e está a descobrir o mundo.

O avô não esconde o orgulho por as netas lhe conhecerem a obra. Também já levou a cena várias peças teatro da sua autoria, ensaiadas com a ajuda dos alunos da universidade sénior onde deu aulas de teatro. As netas, quando eram mais novas, também participaram. Não como actrizes, mas cantando e dançando em palco antes do início da peça.

De mala às costas pela Europa

Aos 81 anos Maria Teresa Barradas já tem marcada a viagem deste ano. Vai com o neto mais novo à Rússia e à Finlândia durante oito dias em Julho. No roteiro estão previstas, por exemplo, estadias em Moscovo e S. Petersburgo, num percurso que a antiga guia intérprete já fez há uma década e agora repete na companhia de Nuno, de 16 anos.

Nos últimos quatro anos, o neto tornou-se o seu grande companheiro de viagem. Já estiveram juntos na Croácia, Eslovénia, Monte Negro, Bósnia, em 2012, em Itália, em 2013, e no ano passado visitaram mais cinco países europeus, a Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Alemanha e França.

Entrar num avião e partir na companhia de Nuno tem sido uma aventura, cheia de revelações. “Descobri que este meu neto, que até é tímido, é um grande companheiro”, admite a avó que durante 45 anos trabalhou em agências de viagens e correu Portugal de Norte a Sul em excursões, sobretudo com turistas italianos que vinham conhecer o país.

 Os cinco netos mais velhos, Pedro, de 33 anos, Gonçalo, de 30, Maria, 26, Miguel Maria, de 26, e Beatriz, de 25, viajaram pouco com a avó. Só depois de se reformar Maria Teresa teve tempo para partilhar com o mais novo o prazer de conhecer o mundo. “Ele tem-me ajudado imenso porque se antes era uma corça, hoje não tenho a mesma mobilidade”, adianta. Nestas excursões, Nuno apoia a avó em quase tudo: desde fazer e transportar as malas até calçar-lhe os sapatos. Os dois continuam a divertir-se imenso. “Dormimos em hotéis de quatro e cinco estrelas e vamos a bons restaurantes”, conta Maria Teresa Barradas. “E o meu neto é muito engraçado, tem um grande sentido de humor, como o pai e o avó”.

Maria Teresa orgulha-se de Nuno, que está no 11.º ano e tem quase dois metros de altura, ter despertado nestas viagens para outras culturas e para as línguas estrangeiras. “Agora está a estudar francês e sempre que é preciso dou-lhe uma ajuda”, conta a avó, lembrando que, de quando em quando, o neto também lhe pede para falar italiano, língua que Maria Teresa domina tão bem como o português.

Nuno, que “pratica motocrosse e é muito estudioso”, sempre que pode também vai a Elvas. “Somos de lá e temos lá uma quinta onde ele passa o fim-de-semana”.

joana.f.costa@sol.pt