Cultura

China e Auschwitz na Palma

O pano da 68ª edição do festival de Cannes está prestes a descer e a passadeira vermelha com as monumentais escadarias quase a ser pisada pela derradeira vez este ano.

Entretanto, algures num dos hotéis de luxo da Coisette, os manos Joel e Ethan Coen e respetivos membros do júri oficial terão já bastantes dados para enriquecer o palmarés dos eleitos deste ano.

E pode dizer-se já que Cannes teve um ano rico em filmes. Também boas surpresas, algumas confirmações e ainda inesperadas decepções. Mas quem ganhará a tão cobiçada Palma de Ouro?

Será o épico deslumbrante e futurista Mountains MayDepart, do chinês Jia Zhangke? Será o ousado e provocador The Lobster, do grego Yorgos Lanthimos? Ou será até a arrasadora viagem ao interior do interno de Auschwitz, do húngaro Lázló Nemes, Son of Saul, para nós o melhor filme da Seleção Oficial? Sobre este, diz-se por Cannes que estará fora por ser uma primeira obra. Quem sabe se os manos Coen não querem deixar a sua marca. Seria bom.

Se dependesse de nós, a Palma iria para o filme infernal de Némes, que conseguiu com um cinema inovador mostrar-nos algo que ele próprio não quer ver – a azáfama do dia-a-dia dos homens que são forçados a trabalhar em Auschwitz, uma autêntica empresa dedicada a cremar seres humanos. Essa, sim, seria a Palma mais inovadora e bem calhada deste ano.

Se bem que a mais provável poderá ser a do épico sobre a China de hoje, vista sob a vida de uma mulher entre um passado, o presente e mesmo um futuro. A provocação do romantismo visto pelo grego Lanthimos seria apenas um prémio para o autor. No entanto, é o filme mais calhado na bolsa de apostas.  Fala-se ainda na possibilidade de uma Palma do filme de artes marciais de Hsiao Hsien, The Assassin, mas seria apenas para um filme coreógrafo.

Cannes teve ainda o drama familiar de Moretti, Mia Madre, numa revisitação do seu alter-ego na forma de uma realizadora de cinema a braços com um drama pessoal e as decisões que tem de tomar na sua equipa de rodagem. E há ainda o filme mais realista da competição,A Medida de um Homem, do francês Stéphane Brizé, que nos fala do que é ser hoje em dia um homem de meia idade sem emprego. Seguramente, o melhor do lote francês. Por certo, com o prémio de interpretação masculina reservado para Vincent Lindon. Esta seria a surpresa. Mas a ser, sempre saudada. No plano de interpretação feminina, Cate Blanchett arrisca-se a ganhar por Carol.

Paralelamente, seduziu o intenso documentário Amy, sobre a muito bem documentada vida de AmyWinehouse, realizado com extremo cuidado por AsifKapadia, e deslumbrou ainda o ‘filme testamento’ de Oliveira, Visitas, ou Memórias e Confissões, de Manoel de Oliveira. Sem esquecer, o choque irresistível e atrevido de Love, de Gaspard Noé. Por fim, o evento Cannes foi mesmo a trilogia ou o tal filme de seis horas de Miguel Gomes, As Mil e Uma Noites, que dominou a atenção da Quinzena dos realizadores. Seria um forte candidato à Palma, caso lhe tivesse sido concedida a possibilidade.

Amanhã, domingo, dia 24, será o dia de todas as respostas, com a cerimónia de entrega dos prémios da 68ª edição do festival de Cannes.