Desporto

Os estrangeiros da formação

O inglês Eric Dier ingressou no Sporting aos sete anos “numa daquelas coincidências da vida”, lembra Aurélio Pereira, director de recrutamento da formação dos leões. “A mãe do Eric trabalhava numa empresa internacional de organização de eventos e veio para Portugal por causa da preparação do Euro 2004. Procurou um clube para o menino jogar futebol, porque ele já tinha jeito, e veio ter connosco. Ele fez os treinos e ficou no Sporting. Os pais do Eric afeiçoaram-se à forma humana e ao acompanhamento que damos aos nossos jovens”.

O inglês Eric Dier ingressou no Sporting aos sete anos DR

Dier não falava português, mas aprendeu rapidamente: “Aos sete anos é sempre mais fácil ensinar outro idioma”, salienta Aurélio Pereira. Mais difícil foi a adaptação a outro país: “Em 2009, a mãe teve de ir para Valência por causa da organização do campeonato de vela. Falei com o Caneira [jogador formado pelos leões que representava o clube espanhol] para que o Eric pudesse ir para lá jogar. Ele foi, mas sentiu muitas saudades dos colegas da Academia e do Sporting. Acabou por não se adaptar ao novo clube. Os pais também perceberam. Por isso, treinava com o Valência durante a semana e ao fim de semana apanhava o avião para jogar pelo Sporting”.

O defesa central inglês, agora com 21 anos, chegou à equipa principal do Sporting durante a época 2013/14 e transferiu-se para o Tottenham Hotspur, por cinco milhões de euros, na última pré-temporada. Enquanto era menor, viveu na Academia de Alcochete. “Actualmente temos cerca de 48 miúdos residentes na Academia, entre portugueses que vivem longe de Alcochete e de Lisboa e estrangeiros”, refere Aurélio Pereira. A situação de Dier, por ser inglês, é uma raridade. “Há menos miúdos da Europa a virem para Portugal porque têm boas condições nos seus países para jogar futebol. A maioria vem da América do Sul e de África”.

O director de recrutamento dos leões salienta que a adaptação de estrangeiros, em especial dos africanos, chega a ser mais fácil do que a dos portugueses. “São miúdos que vêm de meios onde não têm nada. Chegam aqui e com as condições que lhes damos é como se lhes tivesse saído a sorte grande. Com alguns portugueses é diferente. Estão habituados a ter as suas coisas, a ter os pais por perto e, no início, estranham a distância”.

Com a noite, vêm as saudades da família: “Durante o dia estão ocupados com a escola e com os treinos. As noites podem ser complicadas. Mas nunca estão sozinhos. Têm sempre total apoio dos nossos funcionários, e dos vários departamentos, para que se sintam bem e não lhes falte nada”. A situação escolar é outro aspecto a que os responsáveis leoninos dão grande importância: “Temos um protocolo com a escola de Alcochete [a mais próxima da Academia], onde andam muitos dos nossos miúdos. Está tudo estabelecido e organizado, desde os horários ao acompanhamento por causa dos deveres escolares”.

A importância da família e o papel dos agentes

Aurélio Pereira sabe como encontrar um futuro craque. Alguns dos melhores jogadores da história do futebol português foram descobertos por ele. Paulo Futre, Luís Figo, Simão Sabrosa, Quaresma, Nani e Cristiano Ronaldo são alguns exemplos. O sucesso do melhor jogador do mundo ficou a dever-se, em grande parte, à forma como a mãe, Dolores Aveiro, acompanhou os primeiros anos da sua carreira. Nunca permitiu que a actual estrela do Real Madrid se deslumbrasse: “Naqueles que conseguiram singrar, os pais tiveram uma quota-parte importantíssima porque não se imiscuíram na gestão técnica. Preocuparam-se, sim, em resolver os problemas da gestão que pertence aos pais, a familiar. Aqueles que não chegam lá devem isso a agentes mal formados e à intervenção deficiente dos pais, que lhes dão demasiada protecção. É a mesma coisa na escola. O menino tem sempre razão. Isso acaba por não resultar”, explica Aurélio Pereira.

Os agentes podem ser outro factor de distracção: “Há miúdos com 12 e 13 anos que já têm empresários”, realça o descobridor de talentos. “Esses agentes dizem aquilo que os miúdos gostam de ouvir. Se um jogador consegue ser internacional sub-15 ou sub-16, o agente diz logo que ele vai ser um jogador fantástico. Depois começam a convencê-los de que se saírem para o estrangeiro vão chegar a um grande patamar quando nem sequer ainda atingiram a equipa principal do Sporting. Nesses casos dificilmente vão ter sucesso. A maior parte dos grandes clubes da Europa compra jogadores feitos. Sair de um clube como o Sporting antes do tempo nunca vai dar bom resultado”.

O caso de Bruma é um bom exemplo de como os agentes pressionam os jogadores para rumar a outras paragens. Chegou ao Sporting com 14 anos, vindo da Guiné Bissau, na companhia do seu representante, Cátio Baldé. Ingressou no decorrer da temporada 2012/13, juntamente com Dier, e era uma das grandes promessas dos leões. Mas no final da época viu-se envolvido numa verdadeira novela de Verão. O agente do jogador alegava que o contrato que o unia ao clube de Alvalade não tinha validade. A Comissão Arbitral Paritária acabou por dar razão ao Sporting e os leões encaixaram cerca de 15 milhões de euros com a saída do avançado para o Galatasaray. Mas ficou sempre a ideia de que o jogador se sentia perdido no meio do braço-de-ferro entre os seus representantes e o Sporting: “A pressa de ganhar dinheiro sobrepõe-se à vontade de preparar um jogador para a alta competição. O talento do Bruma existe e, mais tarde ou mais cedo, vai aparecer. Mas ele acabou por vítima de querer ser solidário com o seu agente. Dentro da Academia esse miúdo teve sempre um comportamento irrepreensível. A partir da altura em que os conselhos não são os melhores, os miúdos ficam indefesos”, considera Aurélio Pereira.

Da mesma forma que os clubes nacionais procuram jovens de outros países, os grandes 'tubarões' do futebol europeu também tentam assediar os jogadores portugueses. Resistir nem sempre é fácil. Aurélio Pereira dá o caso de Adrien como um bom exemplo: “Aos 16 anos recebeu uma proposta para jogar no Chelsea. Certamente que iria ganhar muito mais, mas o pai entendeu que ele deveria ficar no Sporting. E fez bem”. Aos 26 anos, Adrien é titular indiscutível do Sporting e presença assídua nas convocatórias de Fernando Santos para a Selecção Nacional. Em Maio do ano passado, o jogador recordou o episódio do Chelsea numa entrevista ao jornal dos leões: “Foi muito cedo na minha carreira. Queria ficar e também falei com a minha família, que me aconselhou nesse sentido. Achámos que era melhor ficar aqui no Sporting, que tem das melhores formações do mundo. Felizmente foi uma decisão acertada”.

Da China à Dinamarca

Nos últimos anos tem-se assistido a um aumento do número de jovens estrangeiros nas equipas de formação dos principais clubes portugueses. Os juniores A do Sporting têm nove estrangeiros, oriundos de África e América do Sul, além do médio chinês Zhang Lingfeng, que chegou a Alvalade já com 18 anos. Também há menores a actuar em escalões mais baixos, como os brasileiros Douglas Aurélio (16 anos) e Hevertton Santos (14 anos) ou o guineense Emil Júnior (13 anos). No Benfica o cenário é idêntico. Os juniores A têm quatro estrangeiros, todos vindos de países lusófonos, à excepção do nigeriano Jesse Sekidika (18 anos). Noutros escalões, destacam-se o brasileiro Matheus Clemente (16 anos, mas chegou aos encarnados com 13), o angolano Lulunzi João (tem 14 anos e antes também passou pela formação do FC Porto) e Cauet Espíndola (12 anos), um dos mais novos da formação encarnada, embora numa situação especial: o jovem avançado é filho do guarda-redes Júlio César.

Os laços familiares são um traço comum a alguns jovens que ingressam nos principais clubes portugueses, como acontece com o clã Stojkovic, uma família de guarda-redes. Vladan chegou da Sérvia no início da década de 90 para defender as redes da Ovarense e do Leça. O seu filho, Vladimir, já nasceu em Portugal e é guarda-redes dos juniores do Sporting. O seu tio é precisamente Vladimir Stojkovic, guarda-redes titular da selecção da Sérvia, que esteve na primeira equipa do Sporting na época 2009/10. Anos antes, em 2000, Kasper, filho de Peter Schemeichel, também foi guarda-redes dos iniciados do Estoril quando o pai jogou no Sporting. O dinamarquês continua a seguir as pisadas do progenitor no Leicester City, da Premier League, depois de ter estado vários anos no Manchester City.

O FC Porto também tem um júnior dinamarquês, embora este não seja parente de nenhum futebolista mediático. Malthe Johansen (19 anos) chegou no início desta temporada. É uma das promessas dos dragões, a par dos nigerianos Irhene (19 anos), Awaziem (18 anos) e Ezeh (17 anos), dos irmãos belgas Célestin e Tony Djim (18 e 19 anos, respectivamente) e do brasileiro Elvis (19 anos). Os empréstimos também funcionam para jovens da formação, como acontece com o colombiano Leonardo Ruíz, cedido ao FCP pelo Atlético Nacional. Em escalões mais baixos brilham o franco-senegalês Issa Marega (17 anos) e o guineense Romário Baró (16 anos).

“Há demasiados estrangeiros na formação”

“Os clubes portugueses têm uma responsabilidade social para com os jovens nacionais que muitas vezes não é cumprida”, denuncia o presidente do Sindicato dos Jogadores, Joaquim Evangelista. “Os clubes têm regalias de impostos mas não desempenham a sua função social. Já não se criam espaços de prática desportiva, mas sim espaços de natureza comercial, tendo em vista um resultado financeiro e não a formação global dos atletas. Isso leva a que existam demasiados estrangeiros na formação”.

Evangelista defende que este excesso de jovens oriundos de outros países serve, muitas vezes, para os dirigentes fazerem negócio: “Alguns presidentes dizem que os jogadores estrangeiros são mais baratos. É uma mentira que se repete. Os dirigentes contratam esses jogadores estrangeiros apenas para ganhar dinheiro. Com o jogador português o negócio normalmente é escrutinado. Com o jogador estrangeiro esse escrutínio é mais difícil. O clube até pode dizer que o jogador vai por um preço inferior e paga mais. Esse interesse permite que entrem mais jogadores estrangeiros”.

No entender do responsável pelo Sindicato dos Jogadores, este aumento de estrangeiros conduz a problemas de recrutamento para as selecções nacionais mais jovens. Em 2011, numa entrevista ao Público, o seleccionador nacional de sub-21, Rui Jorge, alertou para o facto de sentir dificuldades em encontrar jogadores portugueses que estivessem a competir com regularidade: “O nível dos jogadores portugueses pode baixar drasticamente. Há pouco tempo havia equipas de juniores com 13 e 14 estrangeiros, o que, na minha opinião, é algo impensável”, disse na altura. Em Setembro do ano passado, contudo, o seleccionador de sub-21 mostrava-se mais satisfeito: “Os últimos dois anos foram fundamentais. As equipas B deram aos nossos jogadores seleccionáveis mais 50% de utilização em relação à anterior geração, o que é muito. Nesta fase é importante eles jogarem”, analisou em entrevista ao Record.

Para Joaquim Evangelista, o aparecimento das equipas B na 2.ª Liga, nas últimas duas épocas, também foi um factor importante: “Além disso, o Sindicato, 2.ª Liga e a FPF celebraram um protocolo para promover a utilização dos jogadores portugueses na II Liga e isso verificou-se. A situação tem vindo a melhorar, mas ainda está longe de ser a ideal. Especialmente na formação”. O dirigente considera que deve haver uma intervenção do Estado através de políticas que estimulem a utilização de portugueses na formação e limitem o número de estrangeiros. “Se há uma crescente invasão do espaço natural dos jovens nacionais pelos jovens estrangeiros, o próprio Estado deve intervir”. Evangelista aponta os casos de Sporting, Vitória de Guimarães, Belenenses e Tondela como exemplos a seguir: “São clubes que têm feito uma aposta forte em portugueses quer na formação, quer na equipa principal, e estão a ter bons resultados”.

A equipa mais portuguesa de Portugal

O Tondela tem apenas três estrangeiros no plantel. É a equipa mais portuguesa das competições profissionais. Mas nem sempre foi assim. Na época passada o clube tinha 21 jogadores de outros países. “Foi uma inversão completa”, explica o presidente, Gilberto Coimbra. “Mudámos por várias razões. A começar pela redução dos custos, pela maior facilidade de organização, pela identificação com o clube e pela própria linguagem. Seria óptimo se fosse possível trabalhar só com portugueses”.

Márcio Sousa é um desses jogadores. Foi campeão da Europa de sub-17 e fez formação no FC Porto, onde treinou com a equipa principal comandada por José Mourinho. “Tinha o sonho de jogar com o Porto ao mais alto nível, mas as coisas não aconteceram”. Passou por vários clubes até chegar ao Tondela, em 2010/2011, e conheceu vários plantéis: “Trabalhar com portugueses torna a comunicação mais fácil porque falamos todos o mesmo idioma”, garante.

Quim Machado, treinador do Tondela, jogou muitos anos ao serviço do Guimarães: “Nessa altura não havia muitos estrangeiros. Aqueles que vinham tinham de ter muita qualidade. E era preciso ser regular, e jogar muitas vezes, para que os jogadores se afirmassem. Hoje em dia há muito pressa e é tudo mais rápido. Os jogadores fazem meia dúzia de jogos e valem logo milhões, mas depois as coisas não correm bem porque ainda não completaram a sua formação”.

Gilberto Coimbra tem muito orgulho na campanha da sua equipa de portugueses, mas sabe que os resultados estão acima de tudo: “Os adeptos querem é ganhar. Não interessa se é com jogadores portugueses ou estrangeiros. Não devia ser assim, mas é o que acontece. Se para o ano estivermos na 1.ª Liga, claro que não coloco de lado poder ter mais jogadores de outros países, desde que sejam mais-valias”. 

Benfica e FC Porto fazem milhões com estrangeiros da formação